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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

Crônica de Ademar Rafael

JOB PATRIOTA DE LIMA

Acredito que é impossível alguém definir Job Patriota com a plenitude que o fez Saulo dos Passos em seu testemunho no livro “A senda do lirismo”: “Lírico, dramático, amoroso, criança perdida num mundo quase sem Deus, em função da poesia que o consome e represa nas pálpebras cansadas de seus olhos, a solução aquosa daquilo que se chama lágrima.”

Sobre o lirismo, sua marca registrada Saulo assim escreveu: “O lirismo toca com tanta força a emoção à sua alma, à semelhança do vento que chamega a porta da casa solitária, quando a reentrância do ferrolho está folgada.” Sobra pouco espaço para falar algo sobre o lirismo de Job Patriota.

Terezinha Costa, no livro “São José do Egito – Musa da poesia” destaca que Jó Patriota pegando a deixa de Canhotinho “Quanto mais o tempo passa/diminui minha alegria”, disse: “Mágoa, pranto e agonia/É tudo do mesmo tanto/Felicidade completa/Só existe em quem é santo/Porque num gole de riso/Há cem mil doses de pranto”.

No livro “Poetas Encantadores” Zé de Cazuza menciona, entre outras, a seguinte estrofe de Job: “É falta de caridade/Expulsar um peregrino/Bater na cara de um cego/Cortar o corda de um sino/Negar cachaça a poeta/Tomar o pão dum menino.”

Jó Patriota além de capacidade extrema de transformar o nada em tudo tinha um estilo peculiar de bater no corpo da viola com as pontas do dedo agregando um ritmo diferente ao baião. Com esta variação a toada de Canhotinho ficava mais bonita ainda. Tive o privilégio de conviver com Job e com seus filhos. Didi nos deixou precocemente e Noe, continua nos premiando com lindas produções poéticas dele e do pai.

Adaptado de crônica publicada no site “afogadosdaingazeira.com”, com Pessoas do meu sertão XXIV

Crônica de Ademar Rafael

QUARENTENA ENSINA

Quando recebi as primeiras informações sobre a necessidade de ficarmos em quarentena, sem tirar os pés de dentro de casa, fique apreensivo e com pouca vontade de cumprir as recomendações da Secretaria Municipal de Saúde, em consonância com posicionamento da Organização Mundial de Saúde. Mesmo assim, por insistência da família e em função dos sessenta e três anos bem vividos, permaneci em casa, saindo somente para tomar a vacina contra gripe, também por recomendação do poder publico municipal.

Em casa, para ocupar o tempo, passei a cuidar de plantas, consertar pias, ralos, portas, tomadas e outros itens que clamavam por um afago. Tudo isto porque a determinação era para ficar em casa, nada falava sobre a impossibilidade de trabalhar. Depois do quinto dia vi que nada mais havia para fazer no pequeno apartamento onde resido e antes de ser invadido pela angustia, que sempre aparece em casos da espécie, dei novo rumo ao descanso forçado.

Agarrei bons livros e como eles tenho cruzado manhãs, tardes e madrugadas. Com muita satisfação voltei a exercer o sábio e bom hábito da leitura. Tudo devidamente conciliado com uma boa música. Quando passar tudo isto posso até está com um pouco de peso a mais, mas, com certeza junto aos quilos virão muitas informações e principalmente a consciência de que tempo livre é para ser bem aproveitado.

O que mais tem desagradado durante a reclusão? Pautas das redes de televisão, canais abertos e por assinatura. Poderiam mesclar a programação relativa a cobertura da pandemia com exibição de bons filmes, documentários e outros atrativos. Preferem publicações repetidas sobre notícias sensacionalistas e com informações desencontradas, muitas delas com cheiro e cor de posições ideológicas.

Quando passar a pandemia da COVID-19, precisamos retornar a rotina anterior preservando o que reaprendemos de bom durante a quarentena. Agenda cheia de compromissos sem importância, correria e outras práticas nocivas à saúde e ao bem estar devem seguir o mesmo caminho do surto: Algum lugar no passado.

Crônica de Ademar Rafael

JOSÉ LOPES NETO

Por:Ademar Rafael

Em todas as profissões existem pessoas que mereciam ter chegado ao topo e por questões diversas não alcançaram os degraus mais altos do pódio. Recentemente em conversa com um grande nome da cantoria ele
me falava sobre este fenômeno e citava vários colegas que em função de um marketing correto tinham agenda cheia e outros com maior potencial fechavam cada mês com um número menor de apresentações.

O homenageado nesta crônica é um destes casos em que o artista merecia ter ocupado um lugar de destaque. Zé Catôta como ficou conhecido em todo nordeste foi um violeiro que com justiça Antônio José de Lima no livro “Legado Fisiológico de Poetas e Repentistas Semi-analfabetos” assim qualifica: “… poeta repentista de primeira categoria”. Em referida obra cita esta bela sextilha do poeta do Sítio Riachão – São José do Egito em resposta a uma provocação: Na deixa “Por favor, não me ameace” disse Zé Catôta: “Se fiz o bem me abrace/Se fiz o mal me perdoe/Eu vou bem devagarinho/Nessa pisada de boi/Mas, se quiser vou a canto/Que cantador nunca foi.”

Teresinha Costa, no livro “São José do Egito – Musa da poesia” (p. 158) descreve esta pérola de Zé Catôta em deixa de Pinto “Vou na raça de Catôta/Não deixo um pra veneno”, A resposta: “Puxo o pescoço e depeno/Serro o bico, aparo o pé/Sendo da raça de Pinto/Só fica se eu não der fé/Pato, ganso, frango, franga/Galo, galinha e guiné”.

O possível que a falta de divulgação tenha negado ao poeta Zé Catôta um assento na primeira fila, talvez sua forma de encarar o mundo tenha contribuído com isto, no entanto, jamais foi falta de talento. Um livro com parte de seus versos recuperados de apologistas está no prelo, ao ser lido muitos descobrirão que eu e Antônio José de Lima temos razão em enaltecer merecidamente Zé Catôta.

Adaptada da crônica “Pessoas do meu sertão XXIV”, publicada no site “www.afogadosdaingazeira.com.br”.

Crônica de Ademar Rafael

LIVROS

Registros disponíveis na internet apontam que o livro mais lido em todos os tempos é a “Bíblia” e que “Dom Quixote” é a obra literária recordista de vendas na história. Com esta informação, lanço meu olhar para as três frases a seguir visando dar nobreza a esta narrativa. “Eu sempre imaginei que o paraíso seria um tipo de biblioteca” – Jorge Luis Borges; “Eu acho a televisão muito educativa. Toda vez que alguém liga o aparelho, eu vou para a outra sala e leio um livro” Groucho Marx e “Livros dão alma ao universo, asas para a mente, voo para a imaginação, e vida a tudo” – Platão. . As autorias estão indicadas em arquivos disponíveis na rede mundial de computadores, site “poemese.com”.

Por concordar plenamente com as três quero aqui registrar a preocupação que passei a carregar após o diálogo com dois escritores residentes em Afogados da Ingazeira.

O primeiro relatou que estava expondo seus livros em determinado local e um “leitor” aproximou-e e perguntou o preço. O autor respondeu que o livro custava R$ 20,00. O potencial comprador indagou: “Dar para fazer R$ 10,00?” O autor ao receber a proposta afirmou: “Não amigo, estou vendendo um livro pelo preço justo”.

Ao segundo perguntei quando sairia um novo romance, ele desabafou: “Caro amigo, tenho três romances em editoras diferentes. Cada uma apresenta uma desculpa sobre a necessidade de esperar uma melhor oportunidade para publicação.” Encerrou nosso diálogo sobre o assunto dizendo: “Com este cenário perdi o ímpeto para concluir um quarto romance”.

O que vemos em relação a falta de interesse pela leitura e a banalização do mercado de livros não seria uma das causas do individualismo e da ignorância que campeia pelo mundo? Quem tiver a resposta grite. Minha sugestão é “Vamos ler gente, faz bem, educa e humaniza.”

Crônica de Ademar Rafael

PREPOTÊNCIA MÁXIMA

É muito difícil engolirmos os discursos daquele que se acha dono do mundo, que se coloca acima de tudo e de todos para aplicar sua corrosiva política do “tudo pela América”. Enganamo-nos quando avaliamos que existem limites para loucuras de Donald Trump.

Em seu pronunciamento durante a reunião anual de Davos além de defender com unhas, armas e dentes o petróleo e o gás da “sua América” disse que nenhum país da Europa ficará vulnerável se passar a ser consumidor dos produtos americanos e sobre os alertas dos que condenam o uso indiscriminado dos combustíveis fósseis afirmou: “Precisamos rejeitar os perenes profetas da desgraça e suas previsões do apocalipse”.

Ainda em Davos teve a cara de pau de dizer que os Estados Unidos são reiteradamente prejudicados por decisões na Organização Mundial do Comércio – OMC, quando o organismo internacional garante preferências para os países em desenvolvimento e nega as mesmas regalias ao seu país.

Neste ponto não precisava gastar saliva uma vez que os EUA de forma unilateral sempre “não dar ousadia”, como dizem os baianos, para resoluções ou outras deliberações de órgãos mundiais e cria normas que os favorecem.

A prova disto foi a norma publicada em 10.02.2020 que retira Brasil, Argentina, Índia, Colômbia e outros quinze países da lista de nações consideradas em desenvolvimento, negando-lhes os “privilégios comerciais” estabelecidos em regras internacionais, definidas no Sistema Geral de Preferências – SGP.

Nivelar os EUA com os países excluídos é uma agressão que não apenas pune os excluídos com o “embargo disfarçado” como novamente cria situações favoráveis para ganância ianque. O que mais assusta não é a
prepotência americana é a omissão subserviente e o silencio sepulcral de quem deveria defender os interesses dos banidos da lista.