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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

Crônica de Ademar Rafael

ISCAS EM EXCESSO

O consagrado escritor indiano George Orwell, autor de “1984” e “Revolução dos bichos”, com texto primoroso em “A planta de ferro” narra a luta do poeta Gordon Comstock, ao declarar guerra ao “deus” dinheiro.

A narrativa se desenrola detalhando as angustias do fracassado livreiro e poeta que, submerso em mundo de carência financeira e afetiva, encontra no dinheiro todas as causas para seu insucesso e sua vida miserável.

Da história situada nos primeiros anos da década de 1930 quando trazida para nossa época encontra muita similaridades com o desencanto de jovens e o desalento de desempregados que enxergam na falta do dinheiro todas as causas dos seus problemas.

É impossível desvincularmos o dinheiro das nossas necessidades em um mundo onde o consumismo impera e cria regras. Dando crédito para percepções diferentes, entendemos que sermos escravos do “deus” tira toda nossa capacidade de percebermos quantas oportunidades temos para sobreviver em um mundo de cooperação que também existe, mas que fugimos dele.

As iscas em excesso contidas no infinito volume de informações disponíveis e as indicações de receitas infalíveis para obtenção do sucesso desejado tem, ao nosso juízo de valor, direcionado todos para uma guerra sem fim. Valores são invertidos, fins que justificam os meios desenvolvidos com práticas desprovidas de ética e bom senso.

O sentido de missão e os rituais presentes nos momento de semeadura são variáveis ignoradas nos dias atuais. Abdicar de meios honestos para obtenção de dinheiro suficiente para uma vida digna ou ser escravo de tal bem são posicionamentos que não levam ninguém ao porto seguro.

Precisamos resolver essa equação e não há receita pronta. O mundo sem dinheiro é utopia, o mundo escravo dele é dependência perigosa.

Crônica de Ademar Rafael

JOSÉ ANDELSON DOS SANTOS

Entra para galeria “Pessoas do meu sertão”, o personagem acima, conhecido como Dedé de Ninô. Amigo desde 1973 quando o saudoso Luiz Alves, diretor de Ginásio Industrial resolveu juntar as duas turmas do terceiro ano, unificando as aulas para este grupo no período noturno.

Desde o primeiro momento ficamos amigos. Eu já o conhecia como jogador do segundo time do Santa Cruz de Ninô ao assistir os treinos no campo do União e ver os jogos nas manhãs de domingo. Formamos dupla nas molecagens no Ginásio e com seu primo Bartó criamos o grupo musical “Trio Lorivá”, especialista em mudar as letras de músicas consagradas, criando versões hilárias. A paródia mais famosa foi a letra criada para música “Dona Teresa”, dos compositores Elias Soares e Clovis Dos Santos Matias e gravada por muita gente. Os versos criados pelo trio do ginásio narrava um incidente ocorrido durante uma aula de matemática do nosso querido Durval Galdino, os detalhes devem ser preservados em nome do respeito com nossas leitoras e nossos leitores.

No futebol, nas versões campo ou quadra, Dedé de Ninô foi um jogador habilidoso, detetor de muita raça e um potente chute. Na primeira derrota do time do Barcelona (1×2), entrega de faixas de campeão afogadense, fez os dois gols da equipe vencedora, formada por jogadores destaques do certame que não atuavam pelo time campeão. Este fato o credenciou para integrar o Barcelona no ano seguinte e ser bicampeão.

Dentro da sala de aula Dedé de Ninô foi um aluno brilhante, tirava boas notas nas disciplinas consideradas “bicho-papão”, esta característica aliada à sua dedicação o qualificou para ser aprovado em concorrido concurso do BANDEPE instituição financeira que serviu com zelo e competência chagando ao cargo de gestor de agência. No famigerado plano de adequação do banco perdeu o emprego por estar numa das agências a serem fechadas. O banco, em nome de um planejamento baseado em critérios contestáveis sobre todos os aspectos, perdia um dos seus melhores quadros. O capital vencia o talento, o dinheiro superou o ser humano, a lógica privatista vencia a lógica de desenvolvimento.

No quesito ser humano Dedé ganha as melhores notas. Ao perder injustamente seu emprego não ficou remoendo o fato. Passou a atuar como empreendedor na área de transporte de passageiros e com esta atividade criou com dignidade sua família. Hoje reside em Tabira e na chácara no “Travessão de Zé Lourenço” recebe amigos para comemorar a vida com muita fartura, belas histórias, músicas e poesias de primeira qualidade.

Dedé é um amigo com o qual passei alegres momentos na vida. As vaquejadas de Tavares e as festas que fizemos visando angariar recursos para festas de formatura e excursões na turma do Ginásio, em João Pessoa e Técnico de Contabilidade, em Fortaleza são registros inesquecíveis. Não integra esta galeria por ser meu amigo e sim por  representar muito bem nossa região em diversas áreas, é muito maior do que aqui está registrado.

Crônica de Ademar Rafael

PARA ONDE ESTAMOS INDO?

Amanhã com muita gratidão e fé em Deus estarei completando sessenta e cinco anos de idade. Excluídos os excessos praticados na juventude, tenho a esperança de ter contribuído de alguma forma para um mundo melhor, ter ajudado mais que atrapalhado.

Não cabe a mim essa análise. Sempre carregamos a tinta em nosso favor nos julgamentos, faz parte da natureza humana. Em nossos diálogos semanais procuro deixar uma mensagem para reflexão. Cada leitora e cada leitor tira suas conclusões, neste campo não cabe imposição de teses, jogamos no ar e a sua aplicação fica a cargo de cada pessoa.

A indagação que serve como título desta crônica não caiu de paraquedas em minha vida, tem sido um questionamento feito com muita assiduidade nos últimos anos. Honestamente não sei para onde vamos com tanta
intolerância, despeita e discriminação.

Perto da tempestade dos despropósitos que correm nas redes sociais as fofocas de antigamente foram transformadas em leves brisas. Por mais estapafúrdia que seja a mensagem publicada o público que com ela se
identifica curte, compartilha e comenta. Uma insanidade é transformada em verdade e segue fazendo estragos.

Nos últimos três anos, por força da pandemia e dos trabalhos em casa, tenho sido seletivo nas leituras para tentar neutralizar os impactos negativos que determinadas mensagens das redes sociais. Tenho conseguido em parte. Não é fácil se livrar da carga nociva que compõem os textos e as figuras. Perdemos nosso censo de ridículo? Estamos sendo levados pela tempestade?

Como já afirmei em outras oportunidades, em temas complexos, não tenho as respostas. Tento me preservar com as ferramentas disponíveis, a poesia tem ajudado muito. Que Deus nos ajude a sair dessa enrascada.

Crônica de Ademar Rafael

É O AMOR…

A leitura direta do título acima pode nos levar na direção da música que turbinou a carreira dos irmão cantores sertanejos Zezé de Camargo e Luciano, contudo, nesta  crônica é utilizado como base de sustentação da linha de pensamento sugerida.

Este assunto é trazido ao nosso diálogo semanal por estarmos em ano de eleição, época que os políticos gostam de manifestar seu apoio quanto a importância do tema para o país. Depois de eleitos os educadores são jogados para os últimos lugares nas filas das prioridades.

Em virtude de alimentar o sonho de ser um deles vejo que os educadores são imprescindíveis para formar as gerações futuras sem as amarras da dependência e da alienação. Para tanto precisam lançar mãos de uma habilidade única para mudarmos o mundo: O AMOR.

Do livro “E o verbo se fez parábola”, de autoria do juiz do Direito Haroldo Dutra Dias, retiro um fragmento que narra com extrema clareza os benefícios advindos com a utilização de tal habilidade, vejamos: “…O verdadeiro educador é aquele que está imbuído de sabedoria. Ninguém destituído de experiência de vida pode educar. Ensinar requer experiência no trato como assunto em pauta. Para que alguém se torne um verdadeiro educador é preciso amar os educandos. … O educador que não tem amor pelo educando pode transformar a verdade em um bastão. Pode humilhar o educando com sua sabedoria e constranger o aprendiz com sua experiência.” O pensamento do escritor mineiro nos aproxima do que escreveu o educador Içami Tiba, em seu famoso livro “Quem Ama, Educa!”.

Que o maior educador da história de humanidade, Jesus Cristo, nos ilumine na difícil tarefa de encontrar no esgoto da política brasileira algo menos putrefato. Quando alguém, movido pelo princípio aqui destacado, assumir cargos de comando nosso maior gargalo começará a ser destravado. Os educadores precisam ser amados pelos governantes.

Crônica de Ademar Rafael

A FEIRA LIVRE

Tenho por hábito, desde a infância, visitar o espaço das feiras livres é grande a minha identificação com o que ali acontece. Trabalhei em feiras. Inicialmente ajudando feirantes nas montagens das barracas e na arrumação das mercadorias nos domingos em Jabitacá e depois como vendedor nas feiras de Afogados da Ingazeira e Tavares, como empregado do saudoso Aniceto Mariano nos tempos do Bazar das Miudezas.

Além de ser umas das maiores e mais prestigiadas feiras do Pajeú a feira de Tabira foi fonte de inspiração para o magistral poeta Dedé Monteiro criar o poema “Fim de feira”. São estrofes que definem com brilhantismo as cenas verificadas nos momentos finais de uma feira livre. A grande feira da capital do agreste pernambucano inspirou o poeta para com compor a música “A feira de Caruaru”, um dos inúmeros sucessos de Luiz Gonzaga. Sobre o tema o paraibano Sivuca e a paraibana Glorinha Gadelha fizeram a extraordinária música “Feira de mangaio”, que a mineira Clara Nunes interpretou com maestria. A letra merece todos os aplausos e a melodia é um das obras primas do grande instrumentista de Itabaiana.

Na condição de funcionário de funcionário do Banco do Brasil trabalhei em duas cidades baianas cujas feiras são dignas de registros a de Serrinha e de Vitória da Conquista, no bairro Brasil. Sobre a primeira fiz esta estrofe em 2002: “Aqui existe uma feira/ Que lembra Caruaru/ Tem farinha, tem beiju/Foice, facão e peixeira/ Balde, panela e peneira/Tem coentro e cebolinha/Tem bode, frango, sardinha/E pomada para unguento/ Se você quer sortimento/Venha a feira de Serrinha.”

Recentemente li o livro “Dias de feira”, do blogueiro Júlio Bernardo, que decifra em detalhes o entorno de uma feira livre. Narra as regras entre os feirantes, a relação de confiança entre feirantes e clientes, as rotinas do antes, durante e após feiras. Quem gosta o assunto fica encantado com a narrativa do filho de um feirante e, principalmente, com as lições que a feira livre nos dar gratuitamente.