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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

Crônica de Ademar Rafael

BARBALHA NO SAMBA

Trabalhei em Barbalha – CE de janeiro de 1982 até setembro de 1992. Durante tal período participei de muitos eventos culturais, capitaneados pela festa de Santo Antônio, com o simbolismo do “Pau da Bandeira”.

A cidade dos verdes canaviais tomou outros rumos, inseriu novas atividades econômicas e continua atraindo turistas que visitam a região sul do estado do Ceará. Romeiros de Padre Cícero, participantes das festividades do Crato e outros tiram um tempo para curtir os balneários de Barbalha. Pode ser o sofisticado Arajara Park ou o Caldas, cada um ao seu modo tem muito a ofertar.

No carnaval carioca deste ano a Barbalha será tema do samba enredo da Escola de Samba “Acadêmicos de Santa Cruz”, que desfila no Grupo de Acesso, na madrugada de 21 para 22.02.2020. De autoria de Samir Trindade,
Junior Fionda, Elson Ramires e Rildo Seixas, com interpretação de Roninho, o samba “Santa Cruz de Barbalha – Um Conto Popular no Cariri Cearense” discorrerá sobre a festa de Santo Antônio e figuras regionais.

Eis a letra do samba: “Saudade tenho do meu Cariri/Minha terra onde nasci/E deixei meu coração/O verde admirava da varanda/Era doce minha lida/O suor do meu sertão/Êh muié guerreira/Batiza o meu lugar/A bênção
a Padim Padi Ciço/Vi capitão Virgulino/Que se chamou Lampião/Maria Bunita” da saia rendada/Me ensina menina prendada/A cantar como o Rei do Baião/Oh moça solteira/Oh pau da bandeira Iaiá/Oh moça solteira/Pede ao santo padroeiro um sinhô pra ser seu par/Onde versa o trovador/Nasce a fé e alegria/No Araripe o soldadinho/Anuncia um novo dia/Nos altares eu pedi… ao pai/E na fonte agradeci… em paz/Lava a minha alma e cura minha dor/No peito a Santa Cruz do amor/Vou voltar Santo Antônio de Barbalha/Ilumine essa Batalha minha gente pede ao céu/Vou voltar Santo Antônio de Barbalha/Ceará tem paraíso em forma de cordel/Onde plantei o meu valor/Colhi meus ideais/Vai ressoar o meu tambor/A voz que ecoa dos canaviais.” Alô gente! Olha Barbalha na avenida.

Crônica de Ademar Rafael

SEVERINO PIRES DE BRITO

Biu de Zeca, a primeira vez que ouvi seu nome foi pelas ondas da Rádio Pajeú, durante o jogo em Tuparetama quando ele fraturou a perna, no início dos anos 70. Com Geraldo Agostinho fez uma versão sertaneja da dupla palmeirense Dudu e Ademir da Guia.

Após o acidente em Tuparetama voltou a jogar, contudo, perdeu a desenvoltura anterior. Fez parte do time do CEUB que trouxe de volta jogadores “esquecidos” pelo Guarani. Este time tinha a juventude de Gena, a garra de Lila Alves – autor do gol da final -, a experiência de Clóvis de Doía, a potência do chute de Abraãozinho e a dupla Geraldo e Biu de Zeca, dentre outros.

Anos depois, durante o julgamento de Vanderley Galdino em expulsão causada por de uma cotovelada em Dinamérico durante jogo pelo campeonato de futebol de salão organizado pelo Ginásio Industrial, pude observar o poder de sua lucidez em suas ponderações. Na oportunidade Biu chamava atenção para o fato de não avaliarmos o lance isoladamente e argumentava: “Vanderley não é um jogador violento, deve ter sido
provocado durante o jogo para tomar tal atitude”. Ponderava, no entanto, que caberia uma suspensão para que atos da espécie não se repetissem o que de fato aconteceu.

Foi campeão afogadense pelo Barcelona e do banco de reservas
contribuiu com opiniões válidas em cada momento. Sempre gostou de futebol bem jogado. Nos anos 80 recebi algumas vezes Biu de Zeca e sua esposa Júlia em Barbalha – Ceará. Varávamos madrugadas no Balneário do Caldas na companhia de Luiz Alves e Dona Lucinda, falando sobre futebol, política e, principalmente, sobre pessoas amigas do Pajeú. Partiu para a outra dimensão antes do amigo Luiz Alves e consigo levou a
capacidade conciliatória que o mundo atual precisa tanto.

(*) – Publicado originalmente no site www.afgadosdaingazeir.com.br, como Pessoas do meu sertão XXII.

Crônica de Ademar Rafael

Por:Ademar Rafael

APRENDER NA LUTA

Do clássico “As mil e uma noites”, na versão de Antoine Galland, retirei o trecho a seguir para dar rumo ao tema desta crônica: “É bom que os príncipes tenham de enfrentar desgraças; a adversidade lhes purifica as virtudes e eles aprendem o governar melhor”.

O que foi escrito no fantástico livro serve como uma luva para o momento atual quando o quesito é comportamento humano. Nesta época de “comodidades” poucos topam enfrentar adversidades e muitos preferem caminhar no mar das facilidades que normalmente levam o lugar nenhum.

Meu pai, em tom de brincadeira, sempre falava: “De puder fique sentado em vez de ficar de pé e fique deitado em vez de ficar sentado.” Desconheço a origem dessa frase e reconheço que ela tem perfeita aderência com o pensamento atual.

Em nossos dias os alunos não copiam mais enunciados que os professores colocam nos quadros, batem fotos. Para esmagadora maioria escrever um texto de cinco linhas é uma tortura. Os textos das redes sociais são substituídos por imagens de tudo. São aplausos, sinais de positivo ou negativo, “carinhas” ou outros sinais.

Nas empresas os fluxogramas das rotinas de serviços e os manuais são substituídos por mensagens de aparelhos móveis em linguagem tão diversificada que a sistematização e a uniformidade de procedimentos saem de cena. Simplificar processos é diferente de banalizar, menor esforço não é o mesmo que abandonar rotinas. Neste ponto estamos falhando muito e os serviços prestados estão perdendo a eficácia em nome de uma “praticidade” prejudicial para empresas e usuários.

Não é salutar fugir dos obstáculos, precisamos assumir nossos papéis e,com denodo, superar as dificuldades para criar musculatura e massa crítica para enfrentarmos um mundo cada vez mais competitivo.

Crônica de Ademar Rafael

JORNALISMO IDEAL

Os jornalistas William Corrêa e Ricardo Taira que atuaram juntos na TV Cultura escreveram os livro “Jornalismo ainda é cultura”, publicação que deveria ser leitura obrigatória e diária para todos que atuam nos diversos
meios de comunicação de massa.

O livro aborda de forma exemplar como deve ser o comportamento da imprensa diante de fatos relevantes com impacto na vida das pessoas, sugerem imparcialidade e profissionalismo, defendem que o contraditório é salutar e que a diversidade de idéias contribui para o amplo debate.

Quem assiste o Jornal da Cultura nota que o formato em que as notícias são comentadas por convidados que formam a bancada com os apresentadores ou apresentadoras. Nos assuntos em que os comentaristas discordam os espectadores podem escolher a versão que seu juízo de valor mais se aproxima.

A obra não poupa críticas às pautas sensacionalistas, as notícias revestidas de interesses financeiros e o noticiário “chapa branca” que tanto agradam aos governantes de plantão. O patrulhamento também é criticado. A publicação é uma aula sobre o jornalismo ideal.

Sobre a interferência do poder nas publicações os autores citam o caso do primeiro jornal da história, a “Acta Diurna”, criado pelo imperador romano Júlio César em 59 a.C. Em referido jornal, segundo a versão apresentada, o General publicava suas grandes conquistas, a expansão do Império Romano e as notícias que fortaleciam sua imagem. Nele não havia registros das derrotas e nem dos escândalos que envolviam o Imperador ou deus aliados.

Portanto, a prática de governantes interferirem e ditarem as pautas de grandes veículos de comunicação não é fato novo. O jornalismo ideal é possível? Seguindo orientações do livro, talvez. Não seguindo, jamais.

Crônica de Ademar Rafael

DANIZETE DE SIQUEIRA LIMA*

O menino Danizete deixou sal casa no Sítio Barra de Solidão para vir trabalhar com o tio Aniceto, no Bazar das Miudezas. Morou com os avôs maternos Seu Elias e Dona Maria que, segundo Jurandir de Helvécio, colocou-lhe o apelido Perninha de Abelha. Detentor de uma memória extraordinária e de uma inteligência matemática acima das melhores médias era capaz de citar à distância o local das mercadorias dentro da loja.

Como seu primo, Dimas, dorme com facilidade, muitas vezes foi acordado em Vitória de Santo Antão, quando o destino era Caruaru para fazer compras. Quando residia no Recife, no final dos anos 70, foi acordado
algumas vezes na garagem dos ônibus por passar pelo ponto final, sonhando com o Pajeú.

Através de Danizete conheci os amigos Tota Flor, Saulo Gomes, Carrinho de Lica, Arnaldo de Luiz Ernesto e tantos outros. Coube-me a difícil missão de substituí-lo no Bazar das Miudezas. Apesar da paciência de Aniceto comigo não foi fácil. Ele trabalhou no escritório de João Mariano, na fábrica de doce, deu aulas, oportunidade em que conheceu a menina Betânia, filha do estimado Silvino Teles e de dona Sônia Quidute e mãe dos seus filhos Patrícia e Darlan.

Reencontramo-nos no Banco do Brasil no início dos anos 80. Intensificamos a convivência, inclusive nas farras. Foi o parceiro predileto para os “rodetes” da irresponsabilidade que consistia em após uma noite de “cana brava” sairmos de Afogados por volta de cinco horas da manhã para tomarmos “outras” no Hotel de Dolores em Jabitacá, na Barraca de Jaime e no Elite Bar em São José do Egito, no Bar de Adalberto em Tabira e encerrar as atividades em torno de meia noite em Afogados.

Fizemos juntos périplos mais arriscados, nas mesmas condições etílicas. Dentre os quais podem ser destacadas as viagens para Tavares na Paraíba, indo pela Quixaba e voltando por Princesa Isabel e para Juazeiro do Norte. Graças a Deus e seu famoso sono não bateu em nenhuma dessas viagens.

É contador de “estórias” e recitador de alto nível. Estar com Danizete é ter a certeza de boas risadas e muitos versos de Pinto, de Lourival, de Ivanildo, de Geraldo, de Dedé Monteiro e de Diomedes Mariano, seu irmão. Tem cabedal suficiente para escrever vários livros sobre nossa região, não o fez ainda por comodidade.

Doido pelo sertão, disse-me durante um almoço Povoado Brejinho de Tabira, na data em que foi publicada a aprovação do seu filho Darlan no vestibular: “Morro de saudade disto aqui, Recife é bom para passeio.”.

(*) – Publicado originalmente no site www.afgadosdaingazeir.com.br, como Pessoas do meu sertão XXI.