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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

Crônica de Ademar Rafael

LIBERDADE, O QUE É?

Quando nos dispomos a apresentar nossa ideia para julgamento dos leitores e das leitoras em um espaço da mídia virtual devemos estar conscientes que alguns textos serão contestados. Nesse ponto sou muito tranquilo, sempre saberei suportar as críticas. Assim sendo apresento meu ponto de vista sobre o que é liberdade, sem o intuito de ter aceitação plena.

Durante esta quarentena imposta pela pandemia da COVID-19 descobri, entre outras coisas, que liberdade não é apenas o que eu julgava ser. Para mim, antes desta experiência, liberdade era poder ir e vir, era agir conforme seu livre arbítrio sem ter restrição prévia.

Alguém pode indagar: “Novamente Ademar não tomou o remédio tarja preta?” Quem assim estiver pesando fique certo que estou com pleno domínio da minha capacidade de pensar.

Se durante esta quarentena muitos queriam ter a liberdade de não sair para trabalhar e outros tantos lutavam pelo direito de sair de casa, de manter sua rotina sem alteração, de fazer suas escolhas como sempre fizera. Vejam que para cada grupo a liberdade tinha um significado diferente. O primeiro grupo desejava se proteger e o segundo grupo não via necessidade para tanta proteção.

O que mais assustou nesse dilema. De uma hora para outra cada habitante da terra foi jogado numa “sala contaminada” e suas escolhas, antes livres, passaram a depender de protocolos impostos por pessoas alheias a sua vontade.

Neste jogo de cartas marcadas descobri que liberdade não é um bem individual, é uma conquista coletiva. Não terei liberdade se os que me cercam estão sem liberdade. Ser livre é não criar embaraços para ninguém, é ser humano de dentro para fora, é zerar o egoísmo e dar asas para liberdade dos que nos rodeiam.

Crônica de Ademar Rafael

Nossa Academia

Em uma cantoria na cidade de Apodi – RN, em 2007, o poeta Raimundo Nonato da dupla dos Nonatos inseriu nos versos centrais de uma sextilha a seguinte assertiva: “…Se a cultura vai mal/quem faz não pode estar bem…”. Esta ponderação continua atual no Brasil. Se perguntarmos a cem jovens que com seus fones de ouvido escutam músicas dos diversos aplicativos quem foi Jackson do Pandeiro, Cartola e Noel Rosa é possível recebermos respostas corretas de minúsculo número dos entrevistados.

De fato, fazer cultura em nosso país é para os fortes. Entre tais seres podemos identificar o poeta e produtor Iranildo Marques em Serra Talhada. Com a coragem que marca os sertanejos Iranildo ciou um Festival anual de poesias, dando-lhe o nome: “Vamos fazer poesias”. Sua tenacidade e a participação de poetas de vários estados materializou o sonho.

Com o crescimento do evento veio novo projeto, o “Clube da Poesia Nordestina”. Ancorado no festival o clube ganhou musculatura em 2020, com pandemia e tudo, foi criada a “Academia Literária Virtual do Clube da Poesia Nordestina”. A entidade nasceu com mais de cem membros, seus objetivos são assim sintetizados: a) Sem qualquer preconceito, reunir poetas visando o aprimoramento cultural: b) Perpetuar a memória dos que lutam pelo desenvolvimento da Cultura Popular; c) Manter, nos formatos impresso ou virtual, acervos de publicações dos acadêmicos e/ou parceiros; d) Promover atividades que assegurem a divulgação da Academia no âmbito nacional e internacional, inclusive com venda de publicações pelos meios eletrônicos e convencionais; e) Estimular, por meio de certames a concessão de premiação aos participantes assim como conceder honrarias para pessoas que agiram em favor da cultura.

Mesmo com a pandemia foram publicadas seis coletâneas e realizadas dezoito lives em 2020 e duas em 2021.  Mais de vinte vídeos superaram mil acessos, alguns superaram a marca de cinco mil visitas. Vandré ensinou que “…quem sabe faz a hora…”. Iranildo fez, parabéns. Viva a cultura.

Crônica de Ademar Rafael

SEM ESTOQUE

O ano de 2020 acabou sem que o isolamento social imposto pela CONVID-19 chegasse ao fim e com registros de altas dos preços nos artigos da cesta básica, no último quadrimestre. Para o primeiro fenômeno não precisa procurar culpados, as causas são sabidas. Quanto ao segundo é necessário dar nome aos reais interessados nas altas ocorridas na arroba de boi, no arroz e no feijão, para ficar apenas com este trio.

Não tenho procuração para defender ninguém. Mas é preciso descartar a hipótese de que a culpa dos aumentos dos preços, ocorridos nos últimos cem dias de 2020, seja dos produtores rurais. Neste quesito é fundamental entendermos o impacto de dois fenômenos econômicos que aconteceram no período. O primeiro foi o valor do dólar, que tornou a exportação mais atrativa do que a comercialização no mercado interno e o segundo a falta de estoque regulador.

Estes dois fatores, cuja responsabilidade não pode ser imputada a quem corre o risco de produzir, foram determinantes para que os preços fossem majorados em perfeita consonância com a velha lei da “oferta e da procura”.

Na época, como sempre acontece quando as coisas não atendem as expectativas de quem governa, áreas do governo saíram à caça de bruxas. Pediram informações de atacadistas e das redes de supermercados, numa ação contrária ao que prega o gestor da economia nacional: “Livre mercado.”

Setores da imprensa, repetindo erros em situações da espécie, começaram a criticar os produtores que exportaram visando lucros, prejudicando a oferta. Tal alegação além de injusta não espelha a verdade em sua plenitude. Estes mesmos jornalistas, que se julgam economistas de plantão, quase nada citaram quanto a falta de estoque regulador, custo do frete e outras variáveis. Chega de injustiças, viva o produtor rural.

Crônica de Ademar Rafael

IMUNIDADE BAIXA

Pelo nosso bem e em favor dos que nos cercam, mudamos nossa forma de agir e pensar. Algumas coisas, no entanto, permanecem conosco. Comigo fica sempre o pensamento que tenho de que “lei não é sinônimo de justiça” e que “constituição e eleição não significam democracia”.

Para dar sustentação aos meus argumentos defendendo tais teses, no tocante as duas variáveis ligadas a democracia gosto de citar os conchavos fechados durante a elaboração da nossa Lei Maior no tocante aos cinco anos de Sarney, reforma agrária, estabilidade do emprego e jornada de quarenta horas semanais. Cito da mesma forma o monopólio de alguns grupos em eleição seguidas, em função do poderio gerado pelo dinheiro, pelo domínio de redes de comunicação em massa e pelo sobrenome. Para mim isto basta para comprovar a contaminação dos
dois sustentáculos da democracia, para muitos: Constituição e Eleição.

Os professores Steven Levitski & Daniel Ziblatt, ao escreverem “Como as democracias morrem”, nos dão pistas sobre as formas atualmente utilizadas para provocar “septicemia” em regimes democráticos. Escrevem os autores: “O paradoxo trágico da via eleitoral para o autoritarismo é que os assassinos da democracia usam as próprias instituições da democracia – gradual, sutil e mesmo legalmente – para matá-la.” Ao falarem sobre os EUA atestam: “Não há nada em nossa Constituição nem em nossa cultura que nos imunize contra colapsos democráticos.”

No livro, além de descobrir que o “U” da união entre os estados americanos está sendo minado por seguidas contaminações encontrei muitos outros argumentos para continuar como minha visão sobre o que, de fato, dar sustentação a uma democracia.

Que tal buscarmos a sabedoria do ditado popular: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” Sejamos vigilantes, voto e Carta Magna ajudam, mas, podem não ser suficientes. Cidadania seria uma boa vacina?

Crônica de Ademar Rafael

INVERDADES INSTITUCIONAIS

No Brasil muitos detentores de cargos perpetuados por uma legislação eleitoral feita sob medida para atender seus interesses defendem que não devemos mudar nada em nosso sistema. Alegam que mudanças podem ferir a democracia. Posso até não ter razão, mas, tenho o direito de perguntar que democracia é essa que obriga o eleitor a votar e dar pesos diferentes nos votos recebidos por Ademar e por Rafael?

Uma destas inverdades mantidas sob a cobertura da legalidade é sistema proporcional de votos utilizado para eleger vereadores e deputados. De onde tiro esta ideia? A resposta é a resistência que nossos “donos do poder” têm em aplicar o voto distrital misto ou puro. Outra resposta pode ser identificada na insistência em manter essa figura chamada de “quociente eleitoral”. Esta variável mágica é extraída do resultado da divisão do número de votos válidos pela quantidade de vagas no Legislativo em disputa, seja Câmaras Municipais, Assembleias Legislativa ou Câmara dos Deputados.

Decifrando melhor: Um determinado candidato pode receber três mil votos e ficar de fora e outro com apenas oitocentos votos ser eleito. Para isto basta que o partido do primeiro não alcance o famigerado “quociente eleitoral”. O que mais assusta é que para eleger senadores o sistema é outro, para tal cargo eletivo vale o modelo majoritário. Quem tem mais voto se elege.

Aleatoriamente busquei no site de Tribunal Superior Eleitoral – TSE os seguintes números, extraídos da capital e cidade de grande porte de determinado estado. Foram eleitos candidatos com 2.302 votos e 858 votos, enquanto em cada colégio eleitoral candidatos que receberam, respectivamente, 3.989 votos e 2.287 votos sequer ficaram na suplência. Mesmo sendo legal, tendo sido criado na virada do século XIX e sendo utilizado em vários países não retira o que de injusto há neste sistema. Quem pensar diferente tem meu respeito, não minha concordância.