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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

Crônica de Ademar Rafael

VOTO POR NECESSIDADE

No mundo dos negócios as ações iniciais do empreendedores são analisadas na perspectiva de dois grupos. O primeiro é o empreendedorismo por oportunidade, assim entendidos os casos em que os empreendedores, mesmo tendo acesso à outras alternativas de emprego e renda, passam a empreender ao identificarem opções de gerar riqueza em determinadas áreas. O segundo é classificado como empreendedorismo por necessidade, nesta hipótese o empreendedor não dispõe de outras alternativas de sobrevivência e partem para um negócio próprio como única tábua de salvação.

Dados confiáveis que estudam os dois estilos demonstram que o segundo grupo tem maior índice de mortalidade. Os motivos são diversos, não é o caso de aqui detalharmos. Nosso intento é trazer esses fenômenos do universo dos negócios para falarmos sobre o que denominamos de voto por necessidade. Quando eleitores, sem outra alternativa para suprir as condições básicas que lhe proporcione uma vida digna, fazem do seus votos moeda de troca, baseada quase sempre nas questões imediatas.

Se fizermos as perguntas abaixo para um pai ou uma mãe sem renda suficiente de atender suas necessidades é possível que a opção escolhida seja a indicada em segundo lugar em cada indagação. Eis as perguntas: Você prefere a democracia ou um prato de comida? Você prefere um emprego formal ou o alimento de hoje? Você prefere um governante que cuide do seu país ou de você, mesmo que seja com migalhas? Você prefere um filho na escola ou trazendo comida para mesa? Você prefere um projeto de longo prazo ou solução para agora?

Para reflexão ora sugerida não nos interessa buscar culpados e sim caminhar à procura das causas que sustentam os políticos que compram votos e escravizam os eleitores que vendem. Avaliamos que enquanto não tivermos um país com políticas públicas de longo prazo continuaremos vendo o voto por necessidade induzindo escolhas e decidindo eleições.

Crônica de Ademar Rafael

 

BARRADOS NO BAILE

Novamente estamos assistindo a um filme repetido que narra a saga de cantores regionais que foram excluídos das grades de programação dos grandes eventos alusivos aos festejos juninos. Os eventos de Campina Grande e Caruaru, para não alongar muito o papo, deixaram fora dos palcos principais nome consagrados.

Toda vez que passa este filme lembro que, pelo menos em uma oportunidade, este “descaso” nos trouxe um benefício. A extraordinária música “Tareco e mariola”, de Petrúcio Amorim, nasceu após um atendimento dado ao artista por parte de organizadores da festa em Caruaru. Isto contudo não pode servir de compensação, é necessário que os cantores regionais sejam contemplados.

Diante da impossibilidade de ser formada uma organização no estilo das Ligas das Escolas de Samba do Rio e de São Paulo ou da blindagem dada aso grandes rodeios, em favor dos filiados no primeiro caso e das duplas sertanejas no segundo, cabe aos organizadores utilizar o bem senso. Mas, como sabemos, bom senso e dinheiro nunca caminham juntos.

Sem entrar e detalhes individualizados é preciso ter em mente que as festas grandes são administradas por grupos empresariais, da área de entretenimento, que visam o lucro por meio de venda de ingressos e de espaços publicitário e para o comercio de bebidas e comidas. Neste ponto o artista que colocar mais público será escalado. O que ele canta, como canta são detalhes periféricos e núcleo é receita.

Lembro que no auge do sucesso “Os trepidantes” tocavam na festa de São Sebastião em Iguaracy-PE todo ano. Nos últimos anos este fato não ocorreu com Maciel Melo em sua terra como também Maria da Paz pouco se apresentou nas festas de Afogados da Ingazeira. O entendimento equivocado de que santo de casa não obra milagre não é recente.

Sejamos justos e gratos aos nossos bons artistas. São raízes, merecem respeito.

Crônica de Ademar Rafael

ONDE FALHAMOS?

As ponderações adiante registradas foram inspiradas na mensagem que Cristovam Buarque nos apresenta no livro “Por que falhamos – O Brasil de 1992 a 2018”. Nele o ex Ministro de Educação sugere reflexões sobre os fatos que deslocaram o Brasil de um estágio de governos progressistas para o retrocesso, de acordo com sua percepção. No meu caso estendo o horizonte temporal para o período de 1982 até 2022. Nossa avaliação é que falhamos coletivamente nos quatro momentos a seguir detalhados, sendo que o último está acontecendo neste momento.

Por medo nos contentamos com a eleição indireta de Tancredo Neves e consideramos a derrota de Emenda Dante de Oliveira (Diretas Já) no parlamento como um fato normal. Nos faltou coragem ou sobrou covardia? Os resultados todos sabemos: Sarney com seus cinco anos, Plano Cruzado, etc.

Fomos buscar salvadores da pátria nos movimentos “Caras pintadas” de era Collor ou “Movimento Brasil Livre – MBL e Vem para rua” da era Dilma. Elegemos líderes que surgiram durante tais mobilizações que
gostaram do poder, traíram os ideais e contribuíram para legitimar a expressão portuguesa “A montanha pariu um rato.”

Passivamente deixamos ser aprovada a mais nefasta mudança do texto da Constituição de 1988, a reeleição. Esta medida cuja aprovação foi na base do toma lá dá cá e que beneficiou o “príncipe” que desgovernava o país. Neste caso, como nas Diretas Já, por omissão nos deixamos acreditar que o parlamento estava agindo patrioticamente.

Por conveniência ou ignorância estamos embarcando na falsa teoria que limitar o poder das redes sociais, no tocante a proliferação de notícias falsas, é agredir a liberdade de expressão. O preço desta esta falha, em curso, será cobrado para muitas gerações futuras em um país onde o futuro é negado, por omissão coletiva e esperteza dos “mandarins”.

Crônica de Ademar Rafael

ANTÔNIO MARTINS DE MORAIS

De forma simplificada entendo que o mundo é formado por dois grupos de pessoas. No primeiro grupo estão aquelas que ao tomarem lugar em uma mesa cheia fazem com que trinta minutos depois todos que antes estavam sentados tenham se retirado, ninguém suporta a enfadonha conversa do recém chegado. O grupo dois é integrado por pessoas disputadas pelos que estão no ambiente na hora da sua chegada, todos se sentem bem ao seu lado. Antônio Martins faz parte do segundo grupo. É, de fato e de direito, uma pessoa agregadora que por meio do seu carisma torna os ambientes mais leves e harmoniosos.

Recentemente numa conversa com o amigo Elias Mariano, Professor e comentarista esportivo dos bons, comentei que dos grandes times do futebol brasileiro eu classifico como a melhor dupla de defensores Figueroa e Marinho no Internacional e Antônio Martins e Clóvis de Dóia como a melhor nos clubes regionais. Bila, como carinhosamente o chamamos, ratificou meu comentário e mencionou momentos que viu a dupla neutralizar ataques de times adversários como se estivessem deitados numa rede, zero nível de estresse.

Sempre que encontro Antônio Martins nosso diálogo transita entre poesia, corrida de gado e futebol. Invariavelmente ele cita grande jogadores com quem atoou. A relação é longa e aqui registro quatro nomes citados em todas as oportunidades: Seu parceiro Clovis, Biu de Zeca, Pedoca da Estação e Ademir. Ouvi várias vezes: “Biu de Zeca e Ademir colocavam a bola em lugares inimagináveis para os comuns e deram muita fama para atacantes.” Como duvidar de quem esteve ao lado desse craques.

Em um desses diálogos ele relatou que na época que esteve no Ferroviário de Recife participou de um jogo treino contra o Santa Cruz. O tricolor do Arruda na época tinha o quinteto: Luciano, Betinho, Ramon, Fernando Santana e Givanildo. Segundo Antônio Martins com poucos minutos esse ataque já havia feito cinco, Ramon infernizou a vida dele. Muitos anos depois, quando estava trabalhando na CAVASA, construindo pontes na zona da mata de Pernambuco foi convencido por um amigo a disputar uma partida de futebol na cidade onde nasceu Ramon. Ao entrar em canto quem estava como centro avante do time adversário? Ramon. Veio o filme do jogo treino contra o Santa Cruz. A sorte é que a ausência dos quatros companheiros e a idade não permitiram que Ramon fizesse o estrago que havia feito nos anos 1970.

Hoje fora dos gramados Antônio Martins nos brinda com suas agradáveis histórias e cantando forró ou música “seresta raiz” acompanhando os amigos Genailson na sanfona ou Chico Arruda no violão. Se faltar tocador ele tira acordes e canta com a mesma espontaneidade. É titular do Programa “Vida de gado” aos sábados na Rádio Pajeú, atração que brevemente completará 40 anos no ar. Este programa já foi registrado neste espaço numa crônica de 15.07.2019, quando dos 35 anos de sucesso entre os amantes do esporte praticado pelos que vestem a “toga de couro”.

Crônica de Ademar Rafael

A VOLTA DO DINHEIRO

O termo acima é a tradução para nosso linguajar de terminologia utilizada no mundo das finanças utilizada para definir a mesma coisa. Lá o assunto e chamado pelo nome de Retorno do Investimento – RI.

Este breve enunciado tem como objetivo identificar a lógica que origina fatos que assustam “os nativos” ao retornarem a pontos turísticos que frequentaram na juventude, no caso dos pernambucanos as praias de Tamandaré, Porto de Galinhas e da Ilha de Itamaracá. Que sustos são esses Ademar? São dos valores pagos por serviços antes gratuitos, tais como, estacionamentos e acesso ao locais de banhos.

Então vamos colocar os pingos nos “is”. Todo investidor raiz quer o retorno do que investiu no menor espaço de tempo com o menor risco. Quem pensar diferente é ponto fora da curva ou filantropo. Em nossa língua, quem investe quer o dinheiro de volta, devidamente corrigido.

Portanto essas cobranças são baseadas nos princípios do “RI” e na terceirização dos espaços públicos promovida por gestores dos municípios, do estado da união. O investidor privado ao fazer um  empreendimento o faz pensando em retorno. Assim gira o mundo do capital, nesse caminho a única volta que existe é a do dinheiro investido.

Fora dos ambientes de lazer acima citados já convivemos com esta realidade há muito tempo. Os grandes centros comerciais, conhecidos com Shoppings, têm na cobrança dos estacionamentos uma das principais fontes de receita, clínicas, hospitais e restaurantes terceirizam as áreas do seu entorno para cobrar estacionamento dos usuários.

Algumas redes de hotéis que operam no Brasil retiraram o café da manhã da relação de serviços inclusos nas diárias, parte deles já cobram estacionamento. A regra é clara: “Não interessa de onde e como virá, preciso ter o que investi em meu bolso no menor espaço de tempo.”