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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

Crônica de Ademar Rafael

CIDADE CIDADÃ

Partindo da tese que um Plano Diretor de uma cidade é muito mais que uma Lei Municipal porque alcança variáveis relacionadas com qualidade de vida e convívio harmonioso entre os bens e seus usuários, existe o conceito de “Cidade cidadã”, inclusive com prêmios para municípios que, de fato, promovem benefícios para seus munícipes em escala crescente.

Isto, no entanto, é fato raro. O que vimos em nosso cotidiano são situações onde o ser humano vale pouco na hora que transita em espaços de livre acesso, tais como: ruas, praças, estacionamentos, etc. Este texto foca nos casos de pessoas sem dificuldade de locomoção, se falarmos sobre os cadeirantes a situação é vexatória ou se preferir vergonhosa.

Na esmagadora maioria das nossas cidades as faixas de pedestres não passam de “pinturas em vias públicas”, ninguém obedece. A uniformidade do nível das calçadas é outro tormento. Recentemente em uma importante cidade fiz questão de medir as seguintes variáveis. Em um espaço de menos de duzentos metros encontrei mais de cinquenta níveis diferentes nas calçadas, cada uma delas com um tipo de piso. Cimento puro, cerâmica, tijolinhos de cimento, porcelanato, etc.

Caminhar numa via pública dessa é um convite para torcer o pé ou ser vítimas de mal maior advindo de uma queda provocada pelos desníveis enfrentados na travessia. A pergunta a ser feita é: Tem solução para isto? Defendo a tese que sim. Ao meu juízo de valor seria necessário um Plano Diretor ou um Código de Postura que normalize e fiscalize.

Para agravar a situação clientes de pontos comerciais, usuários de serviços públicos ou privados e moradores sentem-se no direito de estacionar seus carros nas calçadas jogando os pedestres para o espaço reservado aos veículos automotores e bicicletas, o risco fica dobrado.

Política pública onde o ser humano não é fator determinante não merece este nome. Acessibilidade é direito e assegura a segurança para ir e vir.

Crônica de Ademar Rafael

LÍDERANÇA E COERÊNCIA

Muitas vezes sou questionado por amigos sobre minha visão pragmática e realista sobre o Brasil. Sempre ponderam que não me permito cair na tentação dos otimistas e nem trânsito pelo mundo do pessimistas. A origem desse posicionamento é que busco coerência entre o que penso e a forma que atuo como cidadão e como profissional na formação de jovens ou em consultorias às organizações empresariais do setor privado ou em órgãos públicos.

No mundo onde as redes sociais ditam regras de comportamento ser coerente é algo cada dia mais raro, no meio político é praticamente impossível a identificação. Sobre a coerência de um político ao ler o livro “Arraes”, de autoria de repórter Tereza Rozowykwiat, identifiquei claramente essa característica no líder de Araripe que mudou a cara da cidade do Recife e do estado de Pernambuco ao exercer os cargos de prefeito, secretário de estado ou governador.

Na obra identificamos que a conduta do velho Arraes leva fortes traços de coerência com sua linha ideológica e sua capacidade de olhar para os excluídos. Permitam-me, com os riscos presentes em todas as escolhas, separar três momentos em que o eterno governador de Pernambuco se manteve fiel às suas convicções.

Mesmo entendendo que poderia ter sido escolhido para o cargo de governador na eleição de 1982, ao perder a indicação para Marcos Freire durante a campanha não fez boicote à candidatura do senador do slogan “Sem ódio e sem medo”. Na eleição de Jarbas Vasconcelos para prefeitura de Recife, em 1985 contra Sérgio Murilo o velho Arraes ficou com Jarbas e se empenhou na campanha. Após a derrota de Emenda Dante de Oliveira, mesmo criticando a legitimidade do Colégio Eleitoral, deu apoio para candidatura de Tancredo Neves. Em todos estes momentos Arraes preferiu ser coerente e dar ao sentido de missão maior importância do que aos interesses próprios e/ou percepção míope dos políticos comuns.

Crônica de Ademar Rafael

CONSCIÊNCIA

O professor Saulo Gomes, em algumas das suas ponderações toda manhã através do da Rádio Pajeú, tem demonstrado apreensão sobre o mergulho que a sociedade de consumo tem dado nas águas profundas da alta tecnologia. Expressa sua preocupação sobre os impactos da inteligência artificial no destino das pessoas. Ignorar os alertas do professor Saulo é um risco grande, temer o que pode vir também não é recomendável, cabe-nos digerir o que nos for útil e expurgar o que nos causar danos. Essa missão não é fácil, diferente dos remédios não tem bula com as contra indicações e os efeitos colaterais.

A revista “HSM Management”, na sua edição número 156, nos apresenta como matéria central o tema “Consciência, o outro lado da moeda digital”. No editorial Reynaldo Gama, principal executivo da publicação
nos alerta sobre os impactos que a alta tecnologia pode causar no ”bem estar” das pessoas e nos conteúdos temos lições para evitarmos o pior.

Na matéria “Um conselho de administração sempre em evolução” o executivo Sérgio Simões aborda que os conselheiros do futuro precisam estar atentos a comportamentos relacionados com resiliência e flexibilidade. Tais fatores são exclusivos de seres humanos, as organizações podem até precisar da alta tecnologia, mas, nunca estarão prontas para dispensar a presença de pessoas que pensam a agem movidos com fatores não encontrados na inteligência artificial.

Maria Clara Lopes, especialista em comunicação corporativa, na matéria “Melhores para o Brasil 203: Uma evolução” cita o caso da empresa “Tia Sônia” com sede em Vitória da Conquista. Na época que atuei naquela
cidade atendi Marcos Fenício, filho da fundadora e principal executivo. Posso garantir tecnologia nenhuma mudará a cultura organizacional dessa empresa, seus valores estão alicerçados em variáveis que a inteligência artificial não muda, entre eles a consciência e a responsabilidade social. Assim sendo, entendo que precisamos continuar
sendo gente.

Crônica de Ademar Rafael

POUCA SERVENTIA

Desde que iniciei minha caminhada neste espaço tenho por critério não apontar o dedo para ninguém, o propósito principal sempre foi e será expressar minha opinião sobre algo que ao meu juízo de valor merece uma reflexão. Algumas vezes pode haver enxergo na crítica em outras situações pode ser visto como uma mensagem a ser levada adiante.

Esta semana vamos falar sobre o troço chamado de “sabatina” que vez por outra é praticado nos ricos salões do Senado Federal, muitas delas “sem serventia”, quando avaliado sobre o prisma da sua essência que é a aplicação do sistema de “freios e contrapesos dos poderes”, no caso com intuito de evitar que o Presidente da República indique alguém por critérios não defensáveis. Os defensores das sabatinas indicam sua importância para a democracia do país, uma vez que é decisiva para que seja ou não autorizada a posse da autoridade indicada. Tenho minhas dúvidas;

O Artigo 52 da Constituição Federal em seu inciso III diz que cabe ao senado: “aprovar previamente, por voto secreto, após arguição pública, a escolha de: a) magistrados, nos casos estabelecidos nesta Constituição; b) Ministros do Tribunal de Contas da União indicados pelo Presidente da República; c) Governador de Território; d) presidente e diretores do banco central; e) Procurador-Geral da República; f) titulares de outros cargos que a lei determinar.” Como é perceptível na leitura, a sabatina no texto constitucional ganha o nome de “arguição”.

Quando assistimos a tal sabatina vemos, com extrema clareza que os senadores que apoiam o governo usam o tempo para enaltecer a figura indicada e os senadores oposicionistas buscam forma de constranger a personalidade sabatinada. Nesse jogo de cena a finalidade da “arguição” que seria identificar habilidades e conhecimento para exercer o cargo fica em segundo plano. A constatação dos bons antecedentes e boa reputação ficam restrita às informações trazidas pelo sabatinado em currículo algumas vezes inflado pelas conveniências que o sistema permite.

Crônica de Ademar Rafael

FRASE REAL

Recentemente, em julgamento de extrema importância para o cenário político nacional e realizado no Tribunal Superior Eleitoral – TSE, membro do colegiado e titular do Supremo Tribunal Federal disse a seguinte frase: “Não há democracia sem judiciário independente.”

Poucas vezes em minha vida vi uma frase contendo tanta realidade.Quando dita em uma republiqueta como a caso brasileira ganha um peso maior. De fato, depois de trinta e seis anos, não fomos capazes de criar mecanismos que nos levem ao pleno cumprimento do preceito constitucional que textualmente diz: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.” – Artigo 2 da Constituição Federal.

Sempre, por motivos diversos, percebemos a interferência de um poder sobre a área de autuação do outro. Sob nosso ponto vista isto deriva da nossa incapacidade para atendermos plenamente outro artigo da nossa Carta Magna que assegura: “A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência…”

Quando um dos poderes deixa de cumprir um dos cinco princípios citados na Artigo 37º da Constituição Federal outro poder sente-se no direito de interferir para reparo da omissão. O poder omisso sente-se invadido e a frase inicialmente citada ganha veracidade e consistência. A citação da democracia é acessório, o principal é a interferência que de certa forma reduz a independência pensada pelos constituinte de 1988.

Se os detentores de cargos públicos cumprissem as obrigações previstas na legislação a interferência deixaria de existir e a tal democracia teria terreno fértil para germinar. Em um país onde a frase “Manda quem pode e obedece quem tem juízo” é lei, falar em democracia é piada.