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Crônica de Ademar Rafael

SEPSE

O título desta crônica pode remeter a atenção da leitora ou do leitor para um órgão público do estado de Sergipe, contudo, não se refere a esse assunto e sim ao nome dado para “infecção generalizada”.

Mas, hoje não vamos falar sobre a maior causa de mortes evitáveis no mundo. Falaremos sobre o sistema político brasileiro que sob o olhar deste modesto cronista se encontra com alto nível de infecção. Não existe medicamentos capazes de combater os danos causados ao país, ao seu povo e aos interesses coletivos.

Que fique claro e evidente que não podemos nem devemos culpar cidadãs e cidadãos que disputam os pleitos eleitorais e são eleitos, concorrendo aos cargos pretendidos sob o manto da legislação vigente.

Qualquer brasileira ou brasileiro que resida no espaço compreendido entre a nascente do Ailã, no Monte Caburaí estado de Roraima, ao Arroio do Chuí, no Rio Grande do Sul e entre a Ponta do Seixas na capital do estado da Paraíba e a Serra da Contamana, na nascente do Rio Moa no estado do Acre sabe que com os mecanismos atuais jamais reduziremos o fosso social e a lama em estado de putrefação do nosso sistema.

Por meio do voto poderíamos mudar algo se não continuássemos votando nos mesmos, elegendo os de sempre. Se colocarmos os eleitos para os cargos de governador, senador, deputado federal e deputado estadual em ordem alfabética encontraremos nomes de famílias que estavam nos cartazes preto e branco da época dos nossos avós.

Isto mesmo, famílias que receberam votos dos nossos avós continuam recebendo nossos votos. A proliferação de familiares na política ganha das duplas sertanejas no Centro Oeste do Brasil e é páreo duro para o cupim “coptotermes gestroi”, que povoa o mundo. Em resumo: “Votando nos mesmos, vamos continuar na mesma.” Que venham 2024, 2026…

Crônica de Ademar Rafael

REMÉDIOS AMARGOS

Ainda na ressaca das eleições vamos refletir hoje sobre algo com complexidade no nível da retirada do nosso país da crise moral e institucional em que se encontra, falaremos sobre a crise climática.

O capitalista americano, John Doerr, acredita que para cumprimos desafios que permitam atender propostas inseridas no Acordo de Paris precisamos mergulhar em direção a objetivos que se encontram submersos nos interesses de alguns países que seguem ignorando acordos feitos no encontro realizado na capital francesa. Em livro lançado no final no ano de 2021, ainda sem tradução para português, o autor relaciona dez objetivos. Dentre estes o consultor Leandro Franz nos apresenta seis em recente publicação da HSM Management.

São estes os pontos destacados: Eletrificar o transporte, por meio da produção de carros elétricos em troca de veículos que usam combustíveis fosseis; descarbonizar o sistema, com utilização massificada dos sistemas eólicos e solares; consertar nossa alimentação, através da redução dos desperdícios e consumo seletivo; proteger a natureza, com abandono de práticas que agridem fauna e flora; limpar o indústria, especialmente cimento e aço com a troca dos modelos atuais por plantas que inovem os processos em direção à redução de emissões de carbono e recapturar carbono da atmosfera via inovações tecnológicas ou reflorestamento.

São posicionamentos que alteram regras que imperam no mundo há muito tempo. Três indagações ficam no ar. A indústria do petróleo vai aceitar passivamente a troca dos automóveis atuais por carros elétricos? Os “donos” das indústrias poluentes estão dispostos a investir altas somas para mudar o sistema em uso? Os indivíduos estão dispostos a alterar a forma de consumo de alimentos em favor da sociedade? Como tais perguntas não serão respondidas as teses de Doerr ficarão no livro e na cabeça dos que as defendem, os remédios sugeridos são amargos. Sem ação essas boas intenções ficam apenas como teses salutares.

Crônica de Ademar Rafael

AMIGOS DE QUINCAS RAFAEL – III

Fechando a primeira parte desta série de seis crônicas sobre os amigos do poeta Quincas Rafael, com os três residentes nos município de Iguaracy, vamos falar sobre Gonçalo Severo Gomes. Diferente dos outros dois amigos, José Lopes Torres e Francisco Vicente Sobrinho, Gonçalo não adicionou a carreira política em seu currículo. Viveu e criou a família com muita dignidade como agropecuarista e vaqueiro por excelência.

Como os demais, carregou consigo valores como lealdade, compromisso suas obrigações e um caráter digno de ser copiado. Aos domingos passava em frente a nossa residência na Quixaba montado em um animal cujos arreios figurariam na capa de qualquer revista que abordasse o tema: “Harmonia entre arreios e animal.”

Sobre o vaqueiro Gonçalo a estrofe abaixo, feita por mim para Festival de Poesia realizado anualmente pelo poeta Iranildo Marques em Serra Talhada, cairia como um luva. Sem tirar uma vírgula e adicionando muitas reticências chegaríamos ao seu perfil perfeccionista: “É o vaqueiro um amante do forró/Tem as mãos marcadas pelos calos/Seus parceiros nas lutas são cavalos/Seus redutos, Cariri e Moxotó/Espinharas, Pajeú e Seridó/Para honrar sua nobre profissão/Sofre mais com a falta de ração/Do que com a falta de dinheiro/Desce o pranto no rosto do vaqueiro/Quando a seca se hospeda no sertão.”

Seu zelo aos animais da sua Fazenda Santa Tereza era comentado em qualquer rodada de conversas sobre fazendeiros da região. O dilema entre ração para os animais x dinheiro talvez tenha sido a maior
preocupação do sertanejo aqui citado, foi um devotado para causas criar e cuidar bem.

Tenho a obrigação de mencionar ainda outras duas características de Gonçalo. A primeira, a forma educada que ele tratava todo mundo e a segunda, mesa farta. Da sua casa ninguém saia com fome. Seu carisma e sua capacidade de juntar amigos para uma boa conversa fazem falta.

Crônica de Ademar Rafael

MENTIRAS SEM LIMITES

Quando terminamos a leitura do um livro com as características de “Você foi enganado”, de autoria dos jornalistas Chico Otávio & Cristina Tardáguila nos sentimos lesados e impotentes.

A tentativa dos autores em abrandar os estragos que o texto provoca em uma pessoa de bem não reduz a sensação de revolta. Escreveram os repórteres no epílogo: “Importante ressaltar que não se pretendeu aqui fazer um julgamento moral dos políticos citados, tampouco de seus partidos ou apoiadores, É fato que, ao recuperar alguns acontecimentos históricos em que homens e mulheres agiram em desacordo com a vontade, esta obra deixa de exaltar virtudes que eles apresentaram sobre si mesmos enquanto comandavam Brasil. Naturalmente, nem só de mentiras, exageros e contradições viveu o governo federal nos últimos cem anos – aliás, pensar dessa forma já seria, no mínimo, um exagero.”

A introdução acima leva a leitora ou o leitor a perguntar: De que fala referida obra, caro Ademar? Prontamente respondo: O livro cita, com riqueza de detalhes, inúmeras mentiras deslavadas que nossos governantes jogaram sobre nosso país para chegarem ou se manterem no poder. De Artur Bernardes até Temer o estoque é grande. Tudo isto sob o lençol de legislação abrangente em normas e zero de controle sobre o que fala e como age cada governante na campanha e no exercício dos mandatos.

Existem em nosso Brasil dois documentos exigidos por leis, sem qualquer efeito prático, são os Programas de Governo exigidos pela lei eleitoral e as propostas de orçamento que a legislação fiscal ordena. O
eleitor inerte é ludibriado há cem anos e assim permanecerá por muitos séculos.

Outro assunto que os jornalistas destaca é a questão dos vice. Getúlio x Café Filho; Tancredo x Sarney e Dilma x Temer. O que motivou o titular aceitar um suplente que não era da sua confiança? Eles seriam escadas uteis para alcançar o desejado poder, neste jogo vale tudo.

Crônica de Ademar Rafael

OS PINGOS DOS ‘IS”

Hoje nosso diálogo fica por conta da “impaciência”, da “irritabilidade” e da “imprudência”. Esses fenômenos estão presentes em nosso cotidiano e se não cuidamos deles em tempo hábil iremos nutrir outros fenômenos capazes de gerar grandes conflitos em nossa individualidade e na convivência em ambientes sociais. Sempre que saio de casa busco controlar e se possível extinguir estes direcionamentos e sem julgamentos verificar sua presença no comportamento das pessoas com que me relaciono.

A cada dia é perceptível a nossa impaciência com a simples demora de um elevador, de um atendimento numa fila qualquer, uma explicação de um atendente ou de um médico. O mundo da competição nos remete para o universo onde a pressa detém todas as cartas do jogo, isto tem afetado nossa maneira de agir.

Na sequência somos atacados pelos vírus da irritabilidade, ou seja, a impaciência tem gerado alta dose da energia que move o gatilho da irritação e com ele atingimos todos, principalmente nós mesmo. Este caminho promove todo tipo de desentendimento em situações abaixo da banalidade, insignificantes e passiveis de ser ignoradas sem prejuízos. O conflito tem substituído o diálogo na maioria das ocasiões.

O terceiro degrau, após os sintomas anteriores, é a imprudência. Pessoas ponderadas estão perdendo o controle e pessoas que tinham pouco controle ficando brutalizadas no tocante a medir os efeitos dos
seus atos.

Se perguntarmos a um condutor de um veículo grande ou pequeno, com muitos passageiros ou sozinhos, o que motivou a opção para avançar um sinal iremos escutar: “Não tenho paciência com essa demora, fico irritado com a lerdeza desse ‘povo’, estou com pressa, não suporto essa letargia”. Como se ver as desculpas para imprudência são os primeiros fatores. Precisamos agir enquanto há tempo, neste caso com certa pressa.

Crônica de Ademar Rafael

BUSCA POR MENOS

Depois de uma tarde na praia em João Pessoa eu e meu amigo Adailton, filho do saudoso João Tavares, conversamos sobre estilo e qualidade de vida, seletividade natural após os sessenta anos e de vida e as renúncias naturais impostas pelos cuidados com a saúde. Ele me indicou a leitura do livro “Essencialismo”, escrito pelo professor Greg McKeown.

Por confiar plenamente no gosto de quem havia feito a indicação comprei um exemplar e ao receber me deparei com rica publicação que aborda com conteúdo fácil e contundente posicionamentos e escolhas do grupo formado pelos “Não essencialistas” e da turma denominada “Essencialistas”. Não é uma “receita de bolo” é um estilo de vida onde se fazem presentes algumas escolhas que quando feitas pelo primeiro grupo carregam consigo “quase tudo” e quando adotadas pelo segundo grupo conduzem “o suficiente”.

A tese apresentada em quatro capítulos: “Essência, Explorar, Eliminar e Executar”, cada um deles com seus desdobramentos apontam na direção de que para fazermos bem o que precisa ser feito devemos concentrar nossa energia em poucos faróis, quando a dividimos em muitos faróis a dispersão é natural e o resultado é menor. O foco é o caminho e a utilização do necessário torna-se uma aliada confiável.

As práticas indicadas na publicação são perceptíveis nos legados deixados por José do Egito, Buda, Maomé, Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, Mandela, Irmã Dulce entre outros. Portanto, não é modismo é rota salutar para não cairmos nas armadilhas do consumismo e da acumulação.

Este livro seria de muita valia para os postulantes ao cargo de piloto do barco com carga explosiva, furos por todo casco, tripulação viciada em benefícios e arredia ao trabalho duro, pouco combustível, que transita em mares bravios habitado por tubarões e popularmente conhecido pelo nome de Brasil. Com certeza gastariam menos e fariam muito mais.

Crônica de Ademar Rafael

AMIGOS DE QUINCAS RAFAEL – II

Dando sequência aos textos relacionados com os grandes amigos do meu pai hoje falaremos sobre o nobre Francisco Vicente Sobrinho, conhecido como Chiquinho Vicente.

É o segundo do grupo de três amigos que residiram no município de Iguaracy e estiveram presentes em boa parte das aventuras do contador de história de Jabitacá.

Desde meus tempos de criança convivi com os diálogos entre Quincas Rafael e Chiquinho Vicente. Com minha capacidade de absorção da época enxergava uma admiração e respeito mútuo não havia disputa e sim muita cooperação, um ouvia o outro com atenção dedicada aos irmãos.

O prudente, carismático e educado Chiquinho Vicente teve como principal atividade a agropecuária. Como tal foi cliente do Banco do Brasil, sempre honrando seus compromissos. Com essas qualidades e munido de extrema capacidade de fazer e manter sadias amizades foi eleito para os cargos de vereador e prefeito em sua terra. No exercício das funções nunca mudou seu jeito de ser, sua forma mansa e pacífica estiveram com ele em todas as oportunidades.

Teve como residência fixa a “Fazenda Passagem Funda”, local imortalizado na música “Que nem Vem Vem”, um dos sucessos de Maciel Melo, Lutou bravamente pela construção da Barragem do Rosário, obra
inaugurada durante seu mandato como prefeito. Em 2021 por deliberação de Assembleia Legislativa de Pernambuco a PE-282, que liga a sede do município ao Distrito de Jabitacá, seu caminho ao se deslocar da sua residência, passou a ter o seu nome. Merecida homenagem.

Chiquinho Vicente foi uma prova de que fidalguia e nobreza são qualidades inatas, quem as tem não perde em função de cargos que exerce e dos “encantos” do poder. Um exemplo que merece ser seguido.

Crônica de Ademar Rafael

TROCA INDEVIDA

Para retomar as atividades ligadas à formação jovens que buscam o primeiro emprego, em Programa conduzido pelo SENAR-PB, com preparação de material para volta das aulas presenciais tenho lido bastante sobre comportamento, mudança de atitude e adaptação.

Junto das leituras necessárias para bem executar as tarefas recebidas surge, com nitidez, a percepção que estamos, equivocamente, trocando a convivência harmoniosa pela discórdia no universo político e em áreas ligadas à família, à religião e ao trabalho, contaminando-os.

Mesmo reconhecendo as limitações naturais de um leigo em muitas destas áreas, tenho clareza que a cada dia estamos nos distanciando do perdão e nos aproximando da falta de piedade, da capacidade de ouvir e respeitar pensamentos diferentes dos nossos.

No livro “A sabedoria da transformação” a Monja Coen ao falar sobre encontros “inter-religiosos” que participa transcreve uma ponderação do 14° Dalai Lama em evento realizado na cidade de São Paulo. Diz a
Santidade Budista: “Todas as grandes religiões do mundo, com ênfase no amor, na paciência, na tolerância e no perdão promovem valores internos. Mas a realidade do mundo hoje é outra, e se apoiar apenas na ética religiosa já não mais adequado. Acredito que chegou o tempo de encontrarmos um caminho para pensar sobre espiritualidade e ética que vá além da religião.”

Se pegarmos esse pequeno texto, para uma reflexão, descontaminada dos efeitos negativos das escolhas acima citadas, vamos identificar muitos caminhos a serem construídos em cima de terra que nós mesmo arrasamos, vamos perceber que é necessário muita ação individual em nome do coletivo. As trilhas percorridas não nos levarão ao porto seguro. É imperioso que voltemos a ser seres humanos gregários, que a intolerância seja trocada pela harmonia que o sentimento do perdão retorne aos nossos corações e mentes.

Crônica de Ademar Rafael

A FOME INSISTE

No próximo mês o movimento idealizado por Betinho, o irmão de Henfil imortalizado na letra da música “O bêbado e o equilibrista” de Aldir Blanc e João Bosco, comemora trinta anos. Em setembro de 1992 as pessoas que ocuparam o Aterro do Flamengo na cidade do Rio de Janeiro estavam criando a mobilização que entrou nos registros históricos como “Ação da Cidadania contra a Fome a Miséria e pela Vida”.

O presidente Itamar Franco deu apoio governamental para o projeto. Betinho, alegando problema de saúde, não aceitou cargos no governo. Segui com na luta sem o tão sonhado crachá ou outros benefícios. Dessa mobilização inicial nasceu a campanha “Natal sem Fome” e com base no Mapa da Fome a necessidade de criar Comitês Locais. A lógica dos comitês, corretamente utilizada, tinha com base a seguinte indagação: “Como posso participar de uma campanha nacional se no meu entorno tem pessoas morrendo de fome?”

Na formação destes comitês os funcionários do Banco do Brasil, com apoio de entidades locais, dos clubes de serviços – especialmente Rotary, Lions e Maçonaria – e voluntários anônimos deram vida a milhares de base arrecadadoras de donativos e inúmeras equipes para entrega dos alimentos arrecadados. O projeto ganhou musculatura e mesmo com o falecimento do Betinho, dia 09.08.1997, continuou sua
espiral virtuosa.

Governos que sucederam Itamar Franco lançaram mão da ideia e criaram programas para assumir os encargos dos voluntários. Era a promessa que o inciso III do Artigo 3º da nossa Constituição deixaria de ser de ser letra morta. Nomes foram criados: “Bolsas, com FHC”; “Fome Zero, com Lula”, “Bolsa Família, com Dilma” e “Auxílio Brasil, governo atual”.

Todos, com intuito de gerar popularidade e votos, foram incapazes de trazer a solução definitiva para o problema, os números atuais são tão alarmantes e vergonhosos como os que tínhamos há trinta anos.

Crônica de Ademar Rafael

CENTENÁRIO – ZÉ VICENTE DA PARAÍBA

Ontem galáxias “Cultura Popular” e da “Cantoria de Viola” se unificaram para comemorar o centenário do poeta José Vicente do Nascimento, nascido em Pocinhos – PB em 07.08.1922. Defendo a tese de que ninguém, além deles, tem a sublime capacidade de escrever sobre um poeta. Esses seres iluminados, que Zé de Cazuza definiu em livro como “Poetas encantadores”, são detentores de ilimitada capacidade de criação. Definir isto é missão impossível.

Mesmo com essas limitações não poderia deixar esta data passar em branco. O poeta Zé Vicente da Paraíba, que para nosso orgulho residiu no Pajeú em outras cidades de Pernambuco, conviveu com poetas de várias gerações em seus oitenta e cinco anos e nove meses de vida terrena. Conviveu com Antônio Marinho e a turma de atualmente honra a profissão de violeiro, como tanto honrou o filho de Pocinhos.

Quem foi ouvinte de programas radiofônicos sobre cantoria de viola nos anos 1960 a 2000 ouviu Zé Vicente da Paraíba ao vivo ou por meio das suas gravações, afinal ele tem participação ativa no LP “Violeiros” o primeiro do gênero, gravado em 1955 em inúmeros outros títulos.

Com o brilhantismo que caracteriza as suas ponderações, Bráulio Tavares no prefácio do livro de Zé Vicente da Paraíba “Fiz do choro das cordas da viola/o maior ganha-pão da minha vida”, obra organizada por José Mauro de Alencar e publicada em 2009, escreveu: “Querem ver o tamanho da Cantoria de Viola? Vejam este livro, pequena amostra da produção de um poeta que nem sequer é um dos mais famosos de sua arte. Quem conhece Zé Vicente, fora do âmbito dos admiradores da Cantoria? Muito pouca gente, embora – para dar só um exemplo – seus versos sobre a natureza tenham sido gravados por Alceu Valença, Marília Pêra, Ruy Maurity e outros. Zé Vicente, como tantos parceiros seus que figuram nestas páginas, foi em certo momento saudado como pioneiro por ter sido um dos primeiros cantadores a gravar seus versos no vinil. Vejam as ironias da História. O disco de vinil acabou. As gravadoras de discos estão acabando. O mercado fonográfico onde não cabia a Cantoria de Viola está desmoronando em câmara lenta até onde a vista alcança. Os improvisos e os poemas de Zé Vicente, preservados na memória de quem era capaz de entendê-los, ficaram, estão aqui, e serão passados adiante…” e arremata: “Zé Vicente, teu verso está escrito numa tinta que o tempo não desbota.”

Ler este livro é passear sobre nuvens carregadas de poesias. Como minúsculo aperitivo transcrevo a primeira estofe da música “O autor da natureza”, gravada por Zé Ramalho: “O que prende demais minha
atenção/É um touro raivoso numa arena/Uma pulga do jeito que é pequena/Dominar a bravura d um leão/Na picada ele muda a posição/Pra coçar-se depressa com certeza/Não se serve da unha nem da presa/Se levanta da cama e fica em pé/Tudo isso provando o quanto é/Poderosa e suprema, a natureza…” Poema feito em parceria com Passarinho do Norte.