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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

CRÔNICA DE ADEMAR RAFAEL

Um livro para os cinco sentidos.
Por absoluta falta de adjetivos para qualificar o livro “Cenário de Roedeira”, de Zé Adalberto vou caminhar por um “campo” imaginário que compara a arte do poeta do Juá com uma fruteira que hoje habita nosso estado, especialmente o Vale do São Francisco.
Vamos imaginar que a inspiração ilimitada de Zé Adalberto seja uma videira e que as uvas ali produzidas ofertaram-nos um suco de valor incalculável para alimento da alma em “No caroço do Juá”. 
Como é farta a produção outras uvas foram separadas para produzir um vinho raro. Os amantes desta bebida defendem a tese de uma lenda sobre a apreciação do vinho que envolve os cinco sentidos.
Se na lenda ao segurarmos a taça usamos o “tato”, Zé Adalberto entre outros momentos registra nos versos para o tema “O seu rosto me lembra o por do sol”, esta pérola: “… Com a isca de um beijo apaixonado/ consegui lhe fisgar sob um lençol…”, é muito tato.
Segundo a “estória” ao olharmos a cor do vinho fazemos uso da “visão”, neste quesito nosso Zé foi longe em “Mais eu sinto que falta ver ainda”, vejam caros leitores: “… Mais eu sinto que falta ver ainda/Como é que ela faz pra ser mais linda/Quando eu fico pensando que lhe vejo.”.
De acordo com a tese do vinho x sentidos os aromas da bebida acionam nosso “olfato”, ao afirmar “Ela é a razão das razões minhas/A beleza maior do meu retrato/O perfume melhor por meu olfato…” o poeta de Itapetim resgata esta outra dívida.
Para atendermos o “paladar” os amantes da lenda apontam o sabor da bebida e Zé Adalberto encaminha a solução deste problema ao dizer: “… A saliva mais doce da gamela/que engenho do beijo tem moído…”, nada escapa da sua lupa poética.
E a “audição”? Os enófilos asseguram que o som produzido com o contato das taças durante o brinde aguça tal sentido. Aqui Zé Adalberto extrapolou todas as regras ao contar as batidas de um coração que torce pela adversária, vejam: “Esse meu coração só pensa nela/Apesar de bater em meu reduto/Cento e vinte pancadas por minuto/São as vinte pra mim e cem por ela…”.
No livro os também poetas Dedé Monteiro, Ésio Rafael, Alexandre Morais e Genildo Santana, com autoridade, definiram a obra com exemplar clareza. Nesta crônica espero ter despertado os sentidos de cada leitor para leitura de “Cenário do Roedeira”. Zé Adalberto, não é por acaso que você vai do “A” ao “Z”, na forma invertida, és completo amigo.
Por:Ademar Rafael, 

CRÔNICA DE ADEMAR RAFAEL

Voto é coisa séria.
Um político da minha região em Pernambuco fez uma visita ao “seu” Deputado Federal para pedir umas emendas. Foi bem recebido no gabinete, mas, ao formular o pedido ouviu: “Caro amigo os votos que recebi em sua cidade foram muito bem pagos, proporcionalmente foram os mais caros. Portanto, nosso compromisso cessou no final do pleito.”.
Um empresário do agronegócio ao chegar a uma nova fronteira agrícola foi ao Banco do Brasil e apresentou uma proposta. Trinta dias depois o gerente deu o veredito: “Amigo não temos como atender o seu pleito, você não é conhecido na região, tivemos dificuldade para coletar informações a seu respeito. Vamos aguardar um pouco mais, quem sabe no próximo ano”. O empresário rural coçou o queixo e disse: “Ficou difícil, em minha região anterior não era atendido com crédito porque as pessoas me conheciam, aqui não recebo o empréstimo em função de não ser conhecido”.
Estas duas “estórias” servem de base para a tese a ser defendida nesta crônica, que se destina aos eleitores da nossa região. Caros amigos ao entrarem na cabine de votação evitem votar em políticos com o perfil do que citamos no paragrafo inicial, assim como fuja daqueles que quando mais conhecemos mais percebemos que não merecem confiança.
Enquanto o voto distrital não chega vamos votar em quem realmente tem compromisso com nossa região, chega de políticos “Copa do Mundo”, aqueles que aparecem de quatro em quatro anos, esqueçamos os candidatos representados por “cabos eleitorais”, vamos votar em pessoas que sabemos onde mora, que temos informações sobre seus atos e, principalmente, que possamos medir o grau de responsabilidade com nossas causas no curto e longo prazo.
É hora de nos orgulharmos dos votos dados, político nenhum se arrepende de votos recebidos, o arrependimento sempre fica com o eleitor. Nossa região, nosso Estado e nosso Brasil jamais mudarão somente pelo voto. O voto é uma das ferramentas da democracia, não foi não é e nunca será a única. Quando é feito de forma “irresponsável” o dano torna-se irreparável, façamos uso deste instrumento democrático em favor do coletivo, jamais do interesse particular, assim procedendo as mudanças que carecemos terão espaço para acontecer.
O processo eleitoral no Brasil tem muitos vícios, alguns deles alimentados pelos eleitores que em nome do imediatismo são tentados a votar no candidato “bonzinho”, aquele que ajuda. O gestor público sobe pelo voto e pelo voto cai, quem segura este “controle remoto” precisa fazer valer a sua força. Pesem antes do voto, depois é tarde.
Por: Ademar Rafael 

CRÔNICA DE ADEMAR RAFAEL

Só o voto não basta.
Sou do tempo que para um candidato ganhar uma eleição carecia somente de votos. Atualmente para sair vitorioso em um pleito o candidato tem que contar com muito dinheiro e uma banca de ótimos advogados, o voto virou detalhe. Romper o labirinto da legislação eleitoral é a mais árdua tarefa em tempo de urna eletrônica.
Enquanto no mundo corporativo a ordem é utilizar o bom senso e a simplificação dos processos no modelo eleitoral brasileiro a tônica tem sido um exagerado legalismo por meio de uma legislação que determina horário, tamanho de cartazes, formas de apoio financeiro, prestação de contas e outras “baboseiras” que de tão rígidas estressam o sistema.
Entre a data da apuração dos votos e o dia da diplomação os ganhadores ficam reféns de um modelo perverso, insano e feito por um bando de legalistas que tentam numa colcha de retalhos de Leis, Resoluções, Portarias e outros “artefatos” suprir a ausência de valores morais e éticos que grassa no meio político nacional. 
Os fabricantes de candidatos, os populares marqueteiros, e os juristas do comitê da campanha criam “verdades” em favor dos seus patrocinadores e “mentiras” contra os adversários. Os incautos julgam que o rigor da legislação legitima a vitória, muitas vezes obtida nos tribunais. É assustador o crescente número de empossados que receberam votação inferior e foram agraciados com decisões judiciais.
A batalha é iniciada no registro das candidaturas, segue durante a campanha, alcança o auge na véspera e no dia do pleito. Um deslize pode ser fatal e no afã de ganhar a tentação é grande. Todos burlam a 
legislação, alguns provam o contrário outros não. É neste ponto que aparecem os juristas que superam a vontade popular, a importância do voto sai de cena.
As provas que a legislação é “falha” são as modificações de sentenças das instâncias inferiores. Decisões de Juízes Eleitorais são reformuladas nos Tribunais Regionais e as destes são alteradas pelo Tribunal Superior 
Eleitoral e pelo Supremo, com alegações que sugerem análises de processos distintos, uma tese é ”desconstruída” com facilidade, uma prova decisiva rapidamente perde o sentido, pense num cipoal.
A pergunta que fica é: “Porque a legislação não é simplificada, voltando o poder para o eleitor?” A resposta é óbvia: “Muita gente ganha dinheiro com a situação posta”. Uma defesa custa muito dinheiro e assim caminham nossos “sofridos” políticos em direção aos sonhados assentos. Aplausos para democracia à moda brasileira.
Por:Ademar Rafael 

CRÔNICA DE ADEMAR RAFAEL

Relatos reais.
Na época que trabalhava com o amigo Dimas Mariano de Brito na CRC – Companhia de Revenda e Colonização na loja em frente à Panificadora de Severino Lolô, muitas vezes ouvi conversas do Tenente João Gomes enquanto ele esperava “carro” para Carnaíba.
Referidos diálogos muitas vezes versavam sobre a pesquisa que o Tenente fazia para escrever um livro sobre o cangaço. Eu tinha informação que João Gomes havia perseguido Lampião e seu grupo, Quincas Rafael sempre citava João Gomes e Manoel Neto como valorosos combatentes na guerra contra os cangaceiros.
Recentemente, em visita a São José do Egito, comprei os dois volumes do livro “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante”, na livraria Sebo Cultural do poeta Antônio Batista. 
Os registros não representam uma apologia ao crime ou uma valorização da ação policial no combate aos crimes praticados pelos seguidores do Capitão Virgulino, são relatos que de forma contundente demonstram a forma primitiva que se davam os combates nas caatingas do sertão.
Encontramos no texto a forma como o Estado tratava a questão, submetendo os sertanejos a uma luta onde a coragem superava as desiguais condições de enfrentamento. A crueldade utilizada por Lampião e sua turma é a mesma que os assaltantes de bancos e traficantes de drogas dos dias atuais aplicam às suas vitimas. Também é igual a impotência do Estado no combate ao crime.
Reconhece o autor que Lampião era dotado de grande habilidade para superar as dificuldades ao desenvolver estratégias de combate muito superiores as das volantes, contando para tal com o irrestrito apoio de “coiteiros”. As barbaridades praticadas nas fazendas, vilas, povoados e cidades do sertão servem para fazermos uma reflexão sobre a brutalidade que os “seres humanos” utilizam para eliminar seus oponentes. O instinto perverso supera, com sobra, os animais irracionais em seus embates.
Padre João Carlos da Acioly Paz, ao prefaciar o livro “Jabitacá, segundo Quincas”, que também aborda assuntos relacionados com o cangaço ensina-nos que não devemos nos levar pelos acontecimentos e sim procurarmos entender o contexto da época. 
Tal lógica não nos impede de sonharmos com um mundo onde enredos da espécie sejam extraídos do nosso convívio, contudo, não podemos negá-los. Na época de Lampião, como hoje, a banda podre da sociedade ganha com a violência e as pessoas de bem perdem.
Por: Ademar Rafael 

CRÔNICA DE ADEMAR RAFAEL

Mesmo serviço, atitudes diferentes.
Em outubro de 2013 eu, minha esposa e um casal de amigos desembarcamos no aeroporto de Belém-PA às vésperas do Círio de Nazaré e como íamos para bairros próximos, com mesmo itinerário, compramos um “passe” de táxi pagando até o endereço mais distante.
Ao entramos no táxi e informamos os destinos fomos comunicados que deveríamos pagar uma diferença, tentamos argumentar que havíamos comprado o “passe” pelo preço mais caro, mas, nossos argumentos não foram absorvidos pela taxista.
Comentei com o amigo que caso estivéssemos numa negociação civilizada não seria necessário pagar qualquer diferença. A taxista afirmou que caso estivéssemos insatisfeitos poderíamos descer do seu carro. Solicitei que parasse e ela nos deixou na área entre o saguão de desembarque e o estacionamento.
Voltei ao balcão da companhia de táxi para comunicar o fato a despachante afirmou: “Aquele mulher fez novo barraco?”. Para não criar outro impasse paguei o valor cobrado e fomos em outro veículo. No caminho o motorista falou que a atitude da colega não foi adequada e que no máximo o condutor pode negociar uma compensação quando a rota é desviada. Não era o caso.
Na madrugada do dia 22.04.14 enquanto eu e minha esposa íamos para o mesmo aeroporto o motorista acertou um buraco na pista e cortou um pneu. Como estávamos próximos da hora limite para embarque 
sinalizamos para um táxi que passava em direção contrária. O motorista pegou o primeiro retorno e nos levou ao aeroporto. Perguntei quanto foi a corrida e ele disse que nada devíamos afinal ele apenas socorreu 
usuários do sistema e deu apoio a um colega.
Enquanto despachava as malas lembrei-me do primeiro caso e como gostamos de comparar tudo veio a reflexão: Porque pessoas que prestam o mesmo serviço agem de forma tão diferentes? 
Para evitar impasses entre usuários e prestadores de um serviço a literatura sobre o tema sugere a unificação de procedimentos ou a exposição clara no balcão de atendimento sobre a taxa extra para o caso de dois destinos, mesmo que um fique no trajeto do outro. Por não haver sistematização é possível interpretações diferentes, portanto, a prestadora do serviço poderia sim cobrar o valor adicional.
No segundo caso não existem regras na literatura sobre a atitude adotada, nesse caso o prestador do serviços utilizou ferramentas em desuso no universo dos negócios: O bom censo e a solidariedade.
Por: Ademar Rafael