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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

Crônica de Ademar Rafael

REMÉDIOS AMARGOS

Ainda na ressaca das eleições vamos refletir hoje sobre algo com complexidade no nível da retirada do nosso país da crise moral e institucional em que se encontra, falaremos sobre a crise climática.

O capitalista americano, John Doerr, acredita que para cumprimos desafios que permitam atender propostas inseridas no Acordo de Paris precisamos mergulhar em direção a objetivos que se encontram submersos nos interesses de alguns países que seguem ignorando acordos feitos no encontro realizado na capital francesa. Em livro lançado no final no ano de 2021, ainda sem tradução para português, o autor relaciona dez objetivos. Dentre estes o consultor Leandro Franz nos apresenta seis em recente publicação da HSM Management.

São estes os pontos destacados: Eletrificar o transporte, por meio da produção de carros elétricos em troca de veículos que usam combustíveis fosseis; descarbonizar o sistema, com utilização massificada dos sistemas eólicos e solares; consertar nossa alimentação, através da redução dos desperdícios e consumo seletivo; proteger a natureza, com abandono de práticas que agridem fauna e flora; limpar o indústria, especialmente cimento e aço com a troca dos modelos atuais por plantas que inovem os processos em direção à redução de emissões de carbono e recapturar carbono da atmosfera via inovações tecnológicas ou reflorestamento.

São posicionamentos que alteram regras que imperam no mundo há muito tempo. Três indagações ficam no ar. A indústria do petróleo vai aceitar passivamente a troca dos automóveis atuais por carros elétricos? Os “donos” das indústrias poluentes estão dispostos a investir altas somas para mudar o sistema em uso? Os indivíduos estão dispostos a alterar a forma de consumo de alimentos em favor da sociedade? Como tais perguntas não serão respondidas as teses de Doerr ficarão no livro e na cabeça dos que as defendem, os remédios sugeridos são amargos. Sem ação essas boas intenções ficam apenas como teses salutares.

Crônica de Ademar Rafael

AMIGOS DE QUINCAS RAFAEL – III

Fechando a primeira parte desta série de seis crônicas sobre os amigos do poeta Quincas Rafael, com os três residentes nos município de Iguaracy, vamos falar sobre Gonçalo Severo Gomes. Diferente dos outros dois amigos, José Lopes Torres e Francisco Vicente Sobrinho, Gonçalo não adicionou a carreira política em seu currículo. Viveu e criou a família com muita dignidade como agropecuarista e vaqueiro por excelência.

Como os demais, carregou consigo valores como lealdade, compromisso suas obrigações e um caráter digno de ser copiado. Aos domingos passava em frente a nossa residência na Quixaba montado em um animal cujos arreios figurariam na capa de qualquer revista que abordasse o tema: “Harmonia entre arreios e animal.”

Sobre o vaqueiro Gonçalo a estrofe abaixo, feita por mim para Festival de Poesia realizado anualmente pelo poeta Iranildo Marques em Serra Talhada, cairia como um luva. Sem tirar uma vírgula e adicionando muitas reticências chegaríamos ao seu perfil perfeccionista: “É o vaqueiro um amante do forró/Tem as mãos marcadas pelos calos/Seus parceiros nas lutas são cavalos/Seus redutos, Cariri e Moxotó/Espinharas, Pajeú e Seridó/Para honrar sua nobre profissão/Sofre mais com a falta de ração/Do que com a falta de dinheiro/Desce o pranto no rosto do vaqueiro/Quando a seca se hospeda no sertão.”

Seu zelo aos animais da sua Fazenda Santa Tereza era comentado em qualquer rodada de conversas sobre fazendeiros da região. O dilema entre ração para os animais x dinheiro talvez tenha sido a maior
preocupação do sertanejo aqui citado, foi um devotado para causas criar e cuidar bem.

Tenho a obrigação de mencionar ainda outras duas características de Gonçalo. A primeira, a forma educada que ele tratava todo mundo e a segunda, mesa farta. Da sua casa ninguém saia com fome. Seu carisma e sua capacidade de juntar amigos para uma boa conversa fazem falta.

Crônica de Ademar Rafael

MENTIRAS SEM LIMITES

Quando terminamos a leitura do um livro com as características de “Você foi enganado”, de autoria dos jornalistas Chico Otávio & Cristina Tardáguila nos sentimos lesados e impotentes.

A tentativa dos autores em abrandar os estragos que o texto provoca em uma pessoa de bem não reduz a sensação de revolta. Escreveram os repórteres no epílogo: “Importante ressaltar que não se pretendeu aqui fazer um julgamento moral dos políticos citados, tampouco de seus partidos ou apoiadores, É fato que, ao recuperar alguns acontecimentos históricos em que homens e mulheres agiram em desacordo com a vontade, esta obra deixa de exaltar virtudes que eles apresentaram sobre si mesmos enquanto comandavam Brasil. Naturalmente, nem só de mentiras, exageros e contradições viveu o governo federal nos últimos cem anos – aliás, pensar dessa forma já seria, no mínimo, um exagero.”

A introdução acima leva a leitora ou o leitor a perguntar: De que fala referida obra, caro Ademar? Prontamente respondo: O livro cita, com riqueza de detalhes, inúmeras mentiras deslavadas que nossos governantes jogaram sobre nosso país para chegarem ou se manterem no poder. De Artur Bernardes até Temer o estoque é grande. Tudo isto sob o lençol de legislação abrangente em normas e zero de controle sobre o que fala e como age cada governante na campanha e no exercício dos mandatos.

Existem em nosso Brasil dois documentos exigidos por leis, sem qualquer efeito prático, são os Programas de Governo exigidos pela lei eleitoral e as propostas de orçamento que a legislação fiscal ordena. O
eleitor inerte é ludibriado há cem anos e assim permanecerá por muitos séculos.

Outro assunto que os jornalistas destaca é a questão dos vice. Getúlio x Café Filho; Tancredo x Sarney e Dilma x Temer. O que motivou o titular aceitar um suplente que não era da sua confiança? Eles seriam escadas uteis para alcançar o desejado poder, neste jogo vale tudo.

Crônica de Ademar Rafael

OS PINGOS DOS ‘IS”

Hoje nosso diálogo fica por conta da “impaciência”, da “irritabilidade” e da “imprudência”. Esses fenômenos estão presentes em nosso cotidiano e se não cuidamos deles em tempo hábil iremos nutrir outros fenômenos capazes de gerar grandes conflitos em nossa individualidade e na convivência em ambientes sociais. Sempre que saio de casa busco controlar e se possível extinguir estes direcionamentos e sem julgamentos verificar sua presença no comportamento das pessoas com que me relaciono.

A cada dia é perceptível a nossa impaciência com a simples demora de um elevador, de um atendimento numa fila qualquer, uma explicação de um atendente ou de um médico. O mundo da competição nos remete para o universo onde a pressa detém todas as cartas do jogo, isto tem afetado nossa maneira de agir.

Na sequência somos atacados pelos vírus da irritabilidade, ou seja, a impaciência tem gerado alta dose da energia que move o gatilho da irritação e com ele atingimos todos, principalmente nós mesmo. Este caminho promove todo tipo de desentendimento em situações abaixo da banalidade, insignificantes e passiveis de ser ignoradas sem prejuízos. O conflito tem substituído o diálogo na maioria das ocasiões.

O terceiro degrau, após os sintomas anteriores, é a imprudência. Pessoas ponderadas estão perdendo o controle e pessoas que tinham pouco controle ficando brutalizadas no tocante a medir os efeitos dos
seus atos.

Se perguntarmos a um condutor de um veículo grande ou pequeno, com muitos passageiros ou sozinhos, o que motivou a opção para avançar um sinal iremos escutar: “Não tenho paciência com essa demora, fico irritado com a lerdeza desse ‘povo’, estou com pressa, não suporto essa letargia”. Como se ver as desculpas para imprudência são os primeiros fatores. Precisamos agir enquanto há tempo, neste caso com certa pressa.

Crônica de Ademar Rafael

BUSCA POR MENOS

Depois de uma tarde na praia em João Pessoa eu e meu amigo Adailton, filho do saudoso João Tavares, conversamos sobre estilo e qualidade de vida, seletividade natural após os sessenta anos e de vida e as renúncias naturais impostas pelos cuidados com a saúde. Ele me indicou a leitura do livro “Essencialismo”, escrito pelo professor Greg McKeown.

Por confiar plenamente no gosto de quem havia feito a indicação comprei um exemplar e ao receber me deparei com rica publicação que aborda com conteúdo fácil e contundente posicionamentos e escolhas do grupo formado pelos “Não essencialistas” e da turma denominada “Essencialistas”. Não é uma “receita de bolo” é um estilo de vida onde se fazem presentes algumas escolhas que quando feitas pelo primeiro grupo carregam consigo “quase tudo” e quando adotadas pelo segundo grupo conduzem “o suficiente”.

A tese apresentada em quatro capítulos: “Essência, Explorar, Eliminar e Executar”, cada um deles com seus desdobramentos apontam na direção de que para fazermos bem o que precisa ser feito devemos concentrar nossa energia em poucos faróis, quando a dividimos em muitos faróis a dispersão é natural e o resultado é menor. O foco é o caminho e a utilização do necessário torna-se uma aliada confiável.

As práticas indicadas na publicação são perceptíveis nos legados deixados por José do Egito, Buda, Maomé, Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, Mandela, Irmã Dulce entre outros. Portanto, não é modismo é rota salutar para não cairmos nas armadilhas do consumismo e da acumulação.

Este livro seria de muita valia para os postulantes ao cargo de piloto do barco com carga explosiva, furos por todo casco, tripulação viciada em benefícios e arredia ao trabalho duro, pouco combustível, que transita em mares bravios habitado por tubarões e popularmente conhecido pelo nome de Brasil. Com certeza gastariam menos e fariam muito mais.