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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

CRÔNICA DE ADEMAR RAFAEL

João Pedro
Faço o relato a seguir para descrever o estilo de gestão de João Pedro recentemente falecido. Em 1993 pagávamos os aposentados que recebiam no Banco do Brasil de São José do Egito da seguinte forma: Todos os dias – em espaço cedido por Antônio Valadares, prefeito municipal, – eram feitos os pagamentos dos benefícios vinculados aos municípios da sede e de Brejinho. Em dois ou três dias de cada semana efetuávamos os pagamentos dos “velhinhos” de Tuparetama.
O amigo e colega Carlos Alexandre, o “Véi”, disse-me: “Ademar João Pedro, prefeito de Brejinho, quer falar contigo sobre o pagamento dos benefícios daquele município”. Atendi prontamente e fui surpreendido com uma proposta.
Sem arrodeio João Pedro foi direto ao assunto: “Seu Gerente” queria que o Banco pagasse “meus velhinhos” lá em Brejinho, esta vinda deles para receber em São José do Egito, prejudica o comércio de lá. Aqui mesmo eles terminam fazendo suas compras e quem ganha é o comércio daqui e os donos dos carros que fazem o transporte de inda e vinda. 
Ponderei as dificuldades, principalmente quanto ao deslocamento, o local para instalar o caixa, a segurança e funcionários, ele facilitou as coisas para as três primeiras variáveis e jogou a quarta em minhas costas. Sugeriu na hora que precisava ir somente um dia por semana, na sexta-feira, e que a prefeitura cederia o espaço e ficaria também responsável pelo transporte e segurança no trajeto e durante o horário do atendimento.
Lula de Chico Mansinho topou ir, João Henrique, o Gerente Geral, concordou com a aventura, eu, Marquinhos e Lúcia fizemos os arranjos necessários. Assim atendemos ao pedido de um gestor municipal que tinha como premissa a proteção dos seus munícipes. 
Com sua liderança João Pedro convenceu os aposentados do Brejinho a esperar pelo pagamento em um único dia, ou seja, quem receberia da segunda a quinta deixaria para receber com o pessoal da sexta-feira. 
Descanse em paz João Pedro.
Por: Ademar Rafael

CRÔNICA DE ADEMAR RAFAEL

Zé Adalberto 
A primeira pessoa que me falou sobre o poeta Zé Adalberto foi o amigo e também poeta Diomedes Mariano, recitou vários trabalhos e ficou em minha mente a quadra: “Esse meu coração só pensa nela/apesar de bater no meu reduto/cento e vinte pancadas por minuto/são as vinte por mim, as cem por ela”. Isto não é uma quadra é um estádio padrão FIFA.
Posteriormente comecei a ouvir e a ler produções deste poeta magistral, ora através dos “Nonatos”, ora via “face book”, finalmente em dezembro de 2012, no Pajeú em Poesias, conheci pessoalmente o poeta do Juá.
Na primeira quinzena de setembro recebi um exemplar do livro “No Caroço do Juá”. Sai do correio lendo e até a hora que terminei a primeira leitura pouco me afastei do livro. Serão muitas leituras, o que existe na obra tem que ser saboreado aos poucos, não tenho capacidade de absorção no curto prazo.
Saulo Passos, no prefacio do livro, ao falar sobre as pérolas ali inclusas, afirma: “esses versos eu pesquei sem isca”. É um comentário de extrema felicidade. Na obra as iscas são as palavras é como pescar em cardume, em função da abundância a isca é detalhe.
Com nítida preservação da marca sertaneja é uma obra onde são identificados vestígios de Homero, Ovídio, Bocage, Castro Alves, Ferreira Gullar e outros poetas imortais. Os poemas, em seus diversos formatos, exprimem; amor, revolta, natureza, cidadania, histórias e “estórias” tudo sob o manto da erudição matuta, endêmica na região do Pajeú. 
Itapetim, mais uma vez, oferta ao mundo um talento impar, não há instrumento capaz de medir obra desta envergadura. No entanto, ela cria um grande problema. Depois que você ler uma produção deste nível fica com medo de dizer que é poeta. O interlocutor pode perguntar: “Se você se diz poeta fazendo o que faz quem escreveu um livro deste é o que”?
Doravante direi que sou apenas cronista, é mais seguro.


Por: Ademar Rafael

CRÔNICA DE ADEMAR ARAFEL

Respeitem o Brasil, senhores “lordes”.

A revista britânica “The economist”, da mesma forma que havia feito em 2009 com a capa “Brasil decola” (Brazil takes off) na última semana de setembro voltou sua artilharia em direção ao nosso pais com a reportagem “O Brasil tem estragado tudo?” (Has Brazil blown it?), além das mentiras em excesso na primeira oportunidade abusou de inverdades no artigo recém-publicado.

Registro, para os desavisados, que a publicação londrina segue a cartilha do mercado livre, desde que beneficie o reino unido, e teve seus editoriais “ditados” pela Dama de Ferro (Margaret Thatcher) e seus coleguinhas durante anos. A tinta utilizada em suas impressões é fabricada com o sangue o suor dos trabalhadores dos países explorados pelos “esquemas” dos amigos da “Pearson PLC”.
A infeliz ideia de utilizar a figura do Cristo Redentor, em forma de foguete subindo, para ilustrar a primeira reportagem foi repetida na segunda matéria, desta feita em forma de foguete em queda livre após explosão. Caso um veículo de comunicação do Brasil utilize “O grande roscofe”, conhecido como o Big Ben será um Deus nos acuda, eles serão capazes de fuzilar o editor da mesma forma que fizeram com Jean Charles de Menezes, no metrô de Londres.

Uma indagação que gostaria de ter a resposta: Se eles são tão bons por que não desenvolveram algo em favor da inerte economia do velho continente? Tenho certeza que ficarei sem reposta, afinal a linha editorial do “The economist”, assim como as embaixadas inglesas sempre funcionaram muito bem em favor dos interesses das empresas e do governo do país da rainha.

A única verdade em tudo isto é que quem bancou as duas versões ganha muito dinheiro sacrificando economias de países periféricos, assim tem sido desde a revolução industrial e vai permanecer por muito tempo. Nada estanca o jeito britânico de conspirar, manipular informações e explorar parceiros comerciais.
Todos podem discordar deste texto, contudo, antes de atirar pedras em minha direção leiam qual a forma utilizada pelos “lordes” para tirar o Barão de Mauá e Delmiro Gouveia de circulação.

Por: Ademar Rafael

CRÔNICA DO ADEMAR RAFAEL

Trânsito que mata
Roberto da Matta, em seu livro “Fé em Deus e Pé na Tábua – Ou como e por que o trânsito enlouquece o Brasil” revela uma terrível fotografia do trânsito em nosso país. O famoso antropólogo detalha o comportamento das pessoas quando estão na condição de pedestre, guiando uma bicicleta, uma moto ou um carro. Em cada momento temos um comportamento e uma expectativa diferente.
Quando uma pessoa morre fazendo um “pega” foi em função de dose exagerada de irresponsabilidade e loucura, no momento em que o óbito advém de uma ultrapassagem irregular ou avanço em sinal fechado percebe-se que as aulas de direção defensiva e de cidadania foram gazeadas pelos condutores, ao vermos uma morte causada por imprudência do pedestre que ignora a passarela e cruza uma avenida sem proteção percebe-se um tipo de suicídio involuntário.
Exigir colocação de faixas de pedestre, construção de ciclovias e outros arranjos da engenharia urbana, sem educar e punir exemplarmente os infratores é continuar enchendo as clinicas ortopédicas e os cemitérios com as vítimas do sistema. A pergunta que não quer calar é: Quem é mesmo este tal de trânsito? O trânsito é cada um de nós, nobre leitor.
Uma legislação fajuta, um sistema de fiscalização alimentado pela indústria da multa e por corruptos e corruptores, infraestrutura deficiente e um elenco de condutores inadequadamente habilitados formam a perigosa mistura que gera este resultado nocivo ao país.
Os municípios, os estados e a união estão pagando um preço muito alto. As sequelas deixadas pelo trânsito tem dilacerado famílias e prejudicado a força laboral das vítimas e dos que são obrigados a cuidar delas.
Por falta absoluta de habilidade, de coordenação motora e de paciência dirijo somente a parte que posso da minha vida. Sou assumido pedestre e usuário de ônibus coletivos. Nesta condição assisto cenas de imperícia, de irresponsabilidade e de “cidadania reversa” que elevam os riscos do caótico trânsito.  
Por: Ademar Rafael

CRÔNICA DE ADEMAR RAFAEL

O livro de Maciel Melo
Desde seu aparecimento o livro traduz muitas vertentes de pensamento. Existe livro imprescindível, “Bíblia”; livro que foi transformado em filme, “Olga”; livro que virou novela, “Tieta do Agreste” e assim por diante.
O livro “A poeira e a estrada”, de Maciel Melo é um livro diferente porque tem cheiro. Cheiro de coentro tirado do canteiro de cima da cerca de faxina e colocado na panela de feijão, cheiro da caieira de tijolo imortalizada por Sebastião Dias, no poema “Cenário do Pajeú”, cheiro de terra molhada, cheiro do povo do sertão, conforme receita de Heleno Louro, pai do autor e outros cheiros sertanejos.
As poesias inseridas no texto são equivalentes a esmeraldas espalhadas sobre uma joia de alto valor, estão ali para realçar o brilho, agregar valor e não como concorrentes.
O conteúdo do livro atesta que um pequeno “veio d’água” transformou-se numa imensa Itaparica em homenagem a represa que no Velho Chico – através do Rio Pajeú – recebe as águas que banharam o Neguinho. Águas que lavaram os pés do caboclo sonhador, deixando marcas da poeira das estradas.
Os relatos da obra dão relevo a paisagens do interior, narráveis somente por quem habitou uma terra que racha durante as estiagens e que nas primeiras chuvas cura os rachões e faz brotar frutos cujo gosto só é perceptível por quem descansou na sombra de um juazeiro, ouvindo o som ambiente emitido por um galo da campina e conhece um ninho de fura barreira.
Maciel, que inovou o ritmo magistralmente difundido por Luiz Gonzaga, presenteia os amantes da boa leitura com uma obra capaz de demonstrar para João Guimarães Rosa que no interior de Pernambuco, na pequena Iguaraci, existem muitas veredas, um grande sertão e um poeta múltiplo.  
O devoto de São Sebastião não é guerreiro por acaso, suas armas são poemas, textos e músicas unidas pela mesma cola que uniu o lirismo a Jó Patriota, o trocadilho a Lourival Batista e mentira a João Furiba, talvez até extraída do leite de aveloz.

Por: Ademar Rafael