Por Rinaldo Remígio
Conversando com o amigo Ednaldo Campos, depois de uma boa temporada, me veio a memória lembranças de um casal que deixou marcas profundas na história afetiva e social de Afogados da Ingazeira, os seus pais — Seu Décio Campos e Dona Isabel Gomes da Silva.
É impossível falar de sua trajetória sem sentir o peso nobre de suas responsabilidades — e, mais ainda, a leveza com que enfrentaram o que a vida lhes confiou. Não se trata de uma história comum. Trata-se de um legado. E legados não se medem apenas pelos feitos, mas pelo modo como se vive. E eles viveram com dignidade, fé e um compromisso inabalável com a família e com a comunidade.
Seu Décio, policial militar, não era apenas um servidor da segurança pública — era um homem de princípios, de palavra firme e coração atento às necessidades dos outros. Atuando com serenidade e coragem, sabia que sua farda representava mais do que autoridade: representava proteção, serviço e responsabilidade. Era, sobretudo, um homem de honra.
Partiu cedo demais, no dia 12 de outubro de 1972, aos 49 anos, deixando não apenas uma esposa e filhos, mas uma cidade inteira envolta em luto. Sua ausência foi sentida não só no seio familiar, mas também nas ruas, nos vizinhos, nos colegas de farda e nos muitos que, mesmo sem o conhecer de perto, aprenderam a respeitá-lo pela história que deixou.
Quando cheguei a Afogados da Ingazeira, em janeiro de 1973, ainda se falava com reverência sobre sua vida e sua morte. A cidade ainda estava sob o peso da saudade daquele homem que, mesmo ausente, permanecia vivo na memória coletiva.
Coube a Dona Isabel, mulher de fibra e sabedoria rara, a missão de seguir. Viúva aos 42 anos, com treze filhos para criar, não recuou. Pelo contrário: assumiu os negócios da família — bar, posto de combustível, além de outras movimentações — todos em seu nome, conduzidos com competência, discrição e uma coragem silenciosa que só as grandes mulheres possuem.
Lembro ainda, de um tempo em que, ainda menino, fui menor aprendiz no Banco do Brasil, em Afogados da Ingazeira. De vez em quando, eu ia ao posto de combustível da família, lhe entregar algum documento relacionado a empresa, localizado na Avenida Rio Branco, bem ao lado da agência dos Correios. Dona Isabel sempre me recebia com alegria, com aquele sorriso acolhedor. Era atenciosa, gentil, sempre disposta a ajudar. Aquela atenção, vinda de uma mulher já marcada pela vida, mas sem perder a leveza no trato, me marcou profundamente.
Os filhos, criados com amor, valores e firmeza, tornaram-se o maior reflexo do casal. Entre eles, a dedicação de Auda Maria, o senso de responsabilidade de Ednaldo, a presença marcante de Ione Márcia, esposa do meu amigo Pedro, a sensibilidade de Rosa, a energia de Luciano — todos contribuíram, e ainda contribuem, para manter viva a memória dos pais. E há também a lembrança saudosa de Reginaldo, que partiu em 2010, mas cuja ausência se preenche com carinho, honra e respeito entre os irmãos e familiares.
A vida social do casal — mesmo interrompida pela morte precoce do Seu Décio — seguiu viva nos frutos que deixaram: filhos que honram seu sobrenome, netos que atualmente carregam seus valores. Décio Petrônio, advogado militante, o único neto que o avô ainda conheceu em vida, é parte visível dessa continuidade. A família Campos da Silva seguiu crescendo, espalhando raízes fundas e sólidas por Afogados e além.
Hoje, ao recordar Seu Décio e Dona Isabel, não se trata de nostalgia, mas de reverência. Eles representam mais do que um casal — representam uma era, um modo digno de viver, um modelo de família que, mesmo com as dores da vida, jamais perdeu sua essência.
Professor universitário aposentado, memoriasta e amigo da familia.












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