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Últimas publicações do quadro “Crônicas de Ademar Rafael”

Crônica de Ademar Rafael

ANTÔNIO XAVIER DE OLIVEIRA

Existe uma sabedoria popular que garante: “Educação vem do berço”. Sobre isto podemos até discordar, mas, jamais podemos dizer que não tenha verdade e comprovação em muitos casos. Toinho Xavier é um dos exemplos.

Jovem começou a trabalhar na Mercearia de João Nunes e seus irmão, com enorme capacidade de tratar bem as pessoas teve atuação destacada no atendimento. Nas salas de aula do nosso querido Ginásio Industrial teve seu potencial descoberto pelo gênio da comunicação Waldecyr Menezes. Foi levado para um teste na Rádio Pajeú. Diante do mestre da radiofusão da época, de Dom Francisco e João Gomes, nervoso e com muita simplicidade cumpriu as tarefas indicadas. Ao final os avaliadores perguntaram a Waldecyr: “Este menino dará certo como locutor?”. Com sua experiência o ‘mago dos microfones’ disse: “Agora não, com um pouco de tempo provarei que sim.”

Com esta injeção de ânimo, Toinho Xavier abraçou a oportunidade e começou comandar os programas “Festival dos Brotos”, “As quinze mais da faixa quente” e “Clube do Disco”. O sucesso junto aos ouvintes ratificou a premonição de Waldecyr Menezes após o teste. O programa “Clube do Disco”, cuja interface com os fãs era via cartas pagas, foi um marco na Rádio Pajeú. Para dar vencimento ao número de pedidos e de mensagens dos ouvintes era um trabalho imenso. A quantidade de cartas a serem atendidas exigia ação, respeito e, principalmente, compromisso.

Aprovado em todas as missões recebeu, com muito orgulho e sem vaidade, o encargo de substituir seu patrono nas folgas e conduzir o sucesso absoluto que era o programa “Parabéns pra Você”, aos domingos. Todos sabem que os programas apresentados por Waldecyr Menezes eram sinônimo de sucesso, substituir o titular era missão árdua, Toinho Xavier com muita espontaneidade e estilo próprio cumpriu a delegação recebida com êxito.

Paralelamente ao comando dos programas na Rádio Pajeú Toinho Xavier tinha tempo para encantar cantando em conjuntos locais ou animando festas familiares. Além da bela voz um destaque a ser registrado era o respeito que ele tinha com seus fãs. Nunca se utilizou a fama e a popularidade para benefício próprio.

Esta forma de tratar as pessoas e a educação esmerada foram com Toinho Xavier para as outras atividades que desenvolveu na CELPE e no IBGE. Atualmente na loja de artigos religiosos. No famoso ‘Beco de Zezé’, nosso querido radialista e cantor atende seus clientes com esmero, paciência e com sua marca: muita educação. O sertanejo hoje incluído na galaria “Pessoas do meu sertão” nos ensina que gentileza gera gentileza e respeito gera respeito. Obrigado meu amigo, você é professoral com seus gestos e suas ações.

Crônica de Ademar Rafael

POUCA EVOLUÇÃO

Se fizéssemos uma comparação entre as práticas dos donos do poder e a Teoria da Evolução, defendida por Charles Darwin em “Origem das Espécies” publicado no ano de 1859, observaríamos total incompatibilidade na relação dos estudos do biólogo e naturalista britânico com as práticas brasileiras. Leiam e tirem suas conclusões.

O escritor Laurentino Gomes, no segundo livro da trilogia “Escravidão”, cita um registro da inglesa Jemima Kindersley, datado de 1764, do qual transcrevemos uma parte. “…É política assente do governo manter o povo na ignorância, já que isso o faz aceitar com mais docilidade as arbitrariedades do poder.”

Na mesma obra o jornalista paranaense relata com extrema clareza o loteamento das capitanias entre “amigos do rei”, o compadrio e as nomeações de parentes. Considerando que a questão das capitanias é mencionada em nossa história, vamos aqui citar o caso em que o poderoso ministro do rei Dom José I, Sebastião José de Carvalho e Melo – Marquês de Pombal, nomeou seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado como Governador do Grão-Pará e Maranhão.

Os donatários das capitanias ocupam atualmente áreas menores, divididas em estados e municípios e os critérios de indicação para cargos vitalícios e de alta gestão continuam com os vícios do tempo do império.

Ainda segundo Gomes, no século XVIII várias áreas do país eram infestadas por bandos de salteadores que dominavam o espaço à revelia da lei e da ordem, extorquindo, roubando e matando. Com o tempo os nomes destes foras da lei foram sendo alterados: Cangaceiros, pistoleiros de aluguel, esquadrão da morte, crime organizado, milícias, novo cangaço e outros, as práticas e os objetivos seguem os mesmos. Com as ponderações acima, mesmo sendo variáveis diferentes, podemos afirmar que as espécies evoluíram mais que o jeito brasileiro de ser?

Crônica de Ademar Rafael

HERÓIS ANÔNIMOS

Dias atrás eu estava em frente à casa onde nasci no Sítio Quixaba, nas margens da estrada que liga o Distrito de Jabitacá à cidade de Monteiro-PB, quando vi passar um veículo da Prefeitura Municipal de Iguaraci-PE com uma equipe da Saúde da Família.

Por estar de saída, para retornar a minha residência em João Pessoa-PB, segui referido veículo até o seu destino final nas imediação do Caroá na divisa do estado de Pernambuco com a Paraíba e consequentemente limite dos municípios de Iguaraci-PE e Monteiro-PB.

Por ter exercido a cargo de Secretário Municipal de Saúde e ser casado com uma defensora intransigente da municipalização da saúde sei da importância das ações básicas e do seu baixo custo perante os benefícios gerados, tive muita vontade de sinalizar para que o veículo parasse e eu, ali no meio da caatinga, fizesse uma homenagem a equipe. Como meu gesto em nada contribuiria com a missão de equipe, fiquei na vontade.

Neste texto quero prestar minha homenagem a todos esses “heróis anônimos” que levam, além da prevenção, muito amor e compromisso com a saúde das pessoas que residem nas comunidades atendidas pelo programa. Sintam-se abraçados e saibam que a falta de reconhecimento de muitos não invalidam o trabalho de você. Nosso sistema público da saúde, sem estes profissionais, não precisava de pandemia para entrar em colapso. Ações tempestivas no atendimento primário, calendário de vacinas cumprido e orientações salvam vidas, muitas vidas.

Não poderia encarrar esta crônica sem registrar que o custo mensal de uma dessas equipes é muito inferior ao que gasta em um dia, nos seus exames de rotinas pagos com dinheiro público, alguns tecnocratas liberais defensores da privatização do sistema de saúde por achar que é

muito oneroso para os cofres públicos. Para estas figuras o custo com ação básica é muito alto, quanta ignorância.

Crônica de Ademar Rafael

MALDADE EXTREMA

Cada dia que passa tenho clareza que é necessário nos apegarmos ao ser superior que devotamos nossa fé, no meu caso a Deus, para não cairmos na tentação de abrirmos nossa “caixa de maldades”. Somente com essa ajuda usaremos a magia do lado bom e justo dos seres humanos, a estrada do bem é feita sobre terreno acidentado.

Fomos criados para praticar o bem, contudo, com nossas escolhas muitas vezes praticamos atos que envergonham qualquer pessoa de bom senso. Esta constatação ganha musculatura ao observamos o comportamento de alguns no decorrer de história. Atrocidades em tempos de guerra são jogadas debaixo do tapete do admissível em época de conflitos, mesmo que tais alegações não justifiquem tais práticas.

Quero, no entanto, dedicar este texto para remeter nossa atenção e fazermos uma reflexão sobre os horrores narrados por Laurentino Gomes, nos volumes I e II da trilogia “Escravidão”, lançados em plena pandemia. O escritor paranaense, de forma lúdica havia publicado três livros sobre os fatos históricos de 1808, vinda da família real portuguesa para o Brasil; 1822, Independência do Brasil e 1889, Proclamação da República, deixa a leveza que caracteriza as obras anteriores para narrar atos e fatos, comprovados em suas pesquisas, que deslocam as pessoas que os praticam da categoria de “seres humanos”, para de animais com irracionalidade em excesso.

Sem descer para escala de valor da individualização dos atos, as pessoas que tiverem acesso as obras terão contato com extenso leque de aberrações praticadas na captura, no transporte nos navios negreiros e na compra e venda de escravos. Tudo sob o olhar conivente de autoridades da época, inclusive vinculadas as religiões. As ideias do iluminismo, a mudança de lado dos ingleses – estritamente por interesse econômicos -, em nada reduzem o tamanho dos crimes praticados pelos países centrais e absorvidos pelos países do novo mundo.

Crônica de Ademar Rafael

FRANCISCO DAS CHAGAS ALBUQUERQUE

Por: Ademar Rafael

Durante a época que participei de banca selecionadora de comissionados nas agências do Banco do Brasil, atuei com um colega que afirmava taxativamente: “Ademar, dentro da subjetividades que nos é delegada levo muito em consideração a inteligência musical de um candidato. Nunca encontrei uma pessoa dotada de sensibilidade para música que não seja flexível quanto a adaptação a mudanças e brando na relação pessoal.” Eu, por não ter argumento que negasse o critério do colega, seguia seu raciocínio e garanto que erramos muito pouco em nossa escolhas que eram calcadas em testes objetivos e desenvoltura nas entrevistas.

O critério de seleção indicado no parágrafo inicial ao ser aplicado no amigo Chagas atesta que a tese defendida por Vivi, músico da cidade de Angical na Bahia, está correta. Poucas pessoas conheci que tenha enfrentado tantas mudanças impostas em sua vida com tanta capacidade de superação, a lucidez advinda da memória musical com certeza ajudou.

A sua capacidade de aprender e as habilidades musicais extrapolam qualquer estudo sobre autodidatas. Toca, como poucos, uma dezena de instrumentos de sopro, cordas e teclados. Merecidamente muitos o chamam de maestro. Desde muito cedo, na carreira solo ou nas diversas bandas e orquestras tem dado contribuição excepcional para cultura regional com seu talento e sua extrema disponibilidade em realizar eventos culturais. Com parceiros de Afogados da Ingazeira ou liderando grupo de músicos regionais merece destaque os “concertos” realizados em locais públicos durante a época de natal. Certa vez, durante uma apresentação de Chagas e seus convidados em frente à loja de Horácio Pires, ouvi um visitante dizer: “Quantas cidades no Brasil podem contar com show deste gratuitamente?” Ele mesmo respondeu; “Muito poucas”.

Talvez por confiar em sua massa crítica e manter de pé suas convicções, Chagas é percebido, equivocadamente, como uma pessoa dura em seus propósitos. Quem dele se aproxima com isenção e sem julgamentos prévios descobre o cidadão que ele de fato é. Uma das maiores virtudes de Chagas, sob meu ponto de vista, é sua honestidade. Ele a pratica não com o viés do politicamente correto. O faz por carregar dentro de si conceitos inalienáveis. A ele se você entregar um feixe de lenha e for buscar dez anos depois pode ter certeza que não faltará um graveto. Assim foi em todos os cargos e as funções que exerceu no âmbito público ou privado. Saiu pela porta de frente. Deixando espaço para voltar.

Sempre que nos encontramos temos muito a conversar diante da compatibilidade de ideias e de valores que julgamos inegociáveis. Para alimentar nossa amizade a estes pontos convergentes é adicionada a admiração que Chagas tinha pelo poeta Quincas Rafael, com quem regularmente conversava na calçada da Casa de Pedra, durante o tempo que esteve trabalhando em Jabitacá. Siga nos encantando com sua arte, você meu irmão Chagas é caro para uma legião de amigos.