Por Rinaldo Remígio*
“Ao povo de Iguaracy
Cidade que tenho laço
Feito com amor de mãe
E a resistência do aço.
E como diz Maciel:
‘Isto vale um abraço’.”
— Ademar Rafael Ferreira

Rinaldo Remígio — professor universitário aposentado e memorialista.
Os versos do meu amigo e irmão poeta Ademar Rafael Ferreira abrem esta matéria traduzindo o sentimento que me une a Iguaracy: um laço de afeto, de origem materna e de resistência sertaneja.
Há cidades que conhecemos pelas estradas, outras pelos livros, e algumas que carregamos dentro de nós antes mesmo de compreender a dimensão de nossa própria história. Iguaracy reúne, para mim, esses caminhos: é terra de memória, cultura e trabalho, mas também o chão onde estão fincadas minhas raízes maternas.
Foi nesse município do Sertão do Pajeú que nasceu minha genitora, Maria de Lourdes Mendes Gomes (in memoriam), filha do saudoso vaqueiro Joaquim Mendes da Silva (in memoriam), meu avô materno. Ele residiu durante muitos anos no sítio Mandacaru, atualmente propriedade do meu querido mano, professor Reginaldo Remígio. Por isso, escrever sobre Iguaracy é também prestar uma homenagem à minha família e reconhecer o lugar de onde veio parte dos valores que orientaram minha caminhada.
Mandacaru representa mais do que uma propriedade rural. É uma referência de pertencimento, um elo entre gerações. Ao recordar meu avô, homenageio também os vaqueiros sertanejos, trabalhadores cuja coragem e conhecimento da caatinga ajudaram a sustentar famílias e comunidades. Na história desses homens, o Sertão encontra uma parte essencial de sua identidade.
A formação de Iguaracy guarda marcas dessa vida ligada à terra. Antes da cidade, havia a área de pastagem conhecida como Logrador, associada a Antônio Rabelo. A doação de terras para o patrimônio de São Sebastião e a atuação religiosa do padre Carlos Cottart contribuíram para o surgimento do povoado. Conhecida posteriormente como Macacos e, depois, Iguaraci, a localidade conquistou sua emancipação de Afogados da Ingazeira em 20 de dezembro de 1963, passando a adotar a grafia Iguaracy.
Desde então, sua trajetória se confunde com o esforço de uma população que constrói, diariamente, as condições para viver e prosperar no semiárido. A sede, os distritos de Jabitacá e Irajaí, o povoado da Caatingueira e as comunidades rurais compõem um município de muitas histórias, unido pelo trabalho e pelos vínculos de convivência.
Na economia, a agricultura familiar, a criação de animais, o comércio e os serviços fazem parte desse cotidiano. O cultivo de milho e feijão e a criação de bovinos, caprinos e ovinos expressam a ligação do município com o campo. Por trás de cada produção estão famílias que conhecem o valor da chuva, acompanham o ritmo das estações e insistem em produzir mesmo diante das dificuldades.
Vejo nesse patrimônio produtivo possibilidades que merecem atenção permanente. Assistência técnica, segurança hídrica, organização dos produtores e beneficiamento dos alimentos podem ampliar a renda e fortalecer a permanência das famílias no meio rural. Apoiar o pequeno empreendedor e melhorar as condições de comercialização significa permitir que uma parcela maior da riqueza gerada permaneça no próprio município.
Também há espaço para desenvolver, com planejamento, um turismo apoiado na cultura, na paisagem sertaneja, na culinária e na experiência da vida no campo. As festas religiosas, os encontros comunitários e as manifestações artísticas oferecem caminhos para receber visitantes e movimentar pequenos negócios. Esse desenvolvimento precisa respeitar o ambiente e valorizar, antes de tudo, quem vive no lugar.
Na música, Iguaracy possui motivos especiais de orgulho. Maciel Melo, cantor, compositor e poeta, é uma de suas expressões mais conhecidas. Sua obra traduz afetos, saudades e experiências do povo sertanejo. Em suas canções, o Pajeú ganha voz e encontra ouvintes muito além das fronteiras pernambucanas.
Outro capítulo marcante é a ligação da cidade com a banda Trepidant’s. Embora sua trajetória tenha se desenvolvido a partir do Recife, suas raízes familiares alcançam Iguaracy, onde nasceu José Geraldo da Silva, o Geraldo Trepidant’s, um de seus fundadores. Lembrar essa origem é reconhecer a contribuição do interior para a música pernambucana e brasileira.
Na literatura e na poesia, faço questão de destacar meu amigo e irmão Ademar Rafael Ferreira, filho de Jabitacá e autor dos versos que abrem esta matéria, cuja sensibilidade e amor pelas palavras enriquecem a cultura do Pajeú. Ademar carrega uma herança especial: é filho de outro poeta, Joaquim Rafael de Freitas (in memoriam), conhecido como Quincas Rafael, que deixou sua marca na memória e na vida cultural daquela comunidade.
Ao cultivar a poesia, escrever suas crônicas e contribuir para a preservação da história local, Ademar honra o legado paterno e constrói sua própria trajetória. Sua atuação no Instituto Cultural Quincas Rafael, em Jabitacá, traduz esse compromisso com as raízes e com as novas gerações. Para mim, homenageá-lo é também celebrar uma amizade fraterna e reconhecer um homem que faz da palavra um instrumento de afeto, memória e valorização de sua gente.
Pai e filho representam a continuidade de uma riqueza que não se mede em posses, mas em sensibilidade, conhecimento e contribuição cultural. Na poesia de Quincas e nas palavras de Ademar, Jabitacá encontra motivos para se orgulhar de seus filhos e preservar suas histórias.
Muito bem lembrado por Ademar, registramos também nesta matéria uma homenagem ao saudoso Manoel Jerônimo Neto, pajeuzeiro que nos deixou recentemente. Líder sindical dos bons, atuou no Sindicato dos Produtores Rurais de Iguaracy, dedicando-se às causas do campo. Na lembrança de Ademar, sua atuação merece reconhecimento ao lado de lideranças como Braz Emídio, pela disposição de lutar por sua gente.
Manoel Jerônimo Neto também cultivava a poesia. Suas estrofes foram lidas por Waldeci Menezes, no programa Terreiro da Fazenda, da Rádio Pajeú, levando aos ouvintes sua sensibilidade e sua palavra sertaneja. Ao reunir a atuação sindical e o fazer poético, deixou uma contribuição à vida rural e à cultura de nossa região. Sua memória merece permanecer viva entre aqueles que reconhecem o valor de quem dedicou a voz e o trabalho à sua comunidade.
Ao lado desses nomes, existem os artistas que animam festas, os poetas que compartilham versos, os músicos que iniciam sua caminhada e os moradores que preservam histórias pela tradição oral. Todos merecem reconhecimento. Uma cidade conserva sua identidade quando oferece espaço tanto aos talentos consagrados quanto àqueles que ainda estão começando.
A fé também integra essa construção coletiva. A tradicional Festa de São Sebastião, na sede, e as celebrações das demais comunidades renovam encontros, aproximam famílias e fortalecem vínculos. São ocasiões em que a devoção se mistura à saudade dos que partiram e à alegria dos que regressam.
Na vida pública, cabe reconhecer os gestores e servidores que contribuíram, com responsabilidade, para a organização e o desenvolvimento municipal. A história administrativa reúne diferentes momentos e nomes que participaram dessa caminhada. O patrimônio público é resultado de uma construção que atravessa mandatos e pertence à população.
Atualmente, a Prefeitura é conduzida pelo médico Dr. Pedro Alves. A ele, à Câmara de Vereadores e às equipes de trabalho cabe a responsabilidade de cuidar das necessidades presentes e preparar oportunidades para o futuro. Saúde, educação, abastecimento de água, estradas, apoio à produção e valorização cultural são compromissos que precisam alcançar tanto a sede quanto as comunidades mais distantes.
Enaltecer um município significa reconhecer suas virtudes e acreditar em sua capacidade de superar dificuldades. A boa administração merece reconhecimento por seus resultados, assim como a população merece ser ouvida em suas necessidades. O progresso ganha sentido quando chega à mesa das famílias, ao atendimento de saúde, à escola e às oportunidades de trabalho.
Mas a maior riqueza de Iguaracy continua sendo sua gente: agricultores, vaqueiros, comerciantes, professores, artistas, servidores e tantos outros trabalhadores. São eles que abrem as portas pela manhã, mantêm os serviços funcionando e transmitem aos filhos o amor por essa terra.
Ao concluir estas linhas, volto ao sítio Mandacaru, à memória do meu avô Joaquim, à minha mãe Maria de Lourdes e ao vínculo preservado pelo meu irmão Reginaldo. Nesses nomes, encontro a razão mais íntima desta homenagem. E, ao lembrar amigos como Ademar Rafael, percebo que minhas ligações com Iguaracy também se fortalecem pela fraternidade e pelo amor compartilhado à memória sertaneja.
Iguaracy é parte da história do Pajeú e parte da minha própria história. Seu sol ilumina a terra; sua gente lhe dá propósito. E minhas raízes maternas me lembram que, por mais longe que a vida nos leve, há lugares que continuam morando em nós.
*Professor universitário aposentado e memorialista.







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