Por Rinaldo Remígio*
Recentemente, em uma conversa fraterna com meu irmão Reginaldo Remígio, fui provocado a revisitar memórias que o tempo não apaga. A essa reflexão somaram-se as valiosas sugestões do amigo Ademar Rafael, poeta de reconhecida sensibilidade, e do amigo Júnior Finfa, editor deste blog, que prontamente incentivaram a justa homenagem ao senhor João Alves Filho — o inesquecível Joãozinho Alves — figura que marcou profundamente a história político-administrativa de Afogados da Ingazeira.
Conheci o Sr. Joãozinho Alves não apenas como um nome inscrito nos registros históricos, mas como uma presença viva na memória coletiva. Desde cedo, aprendi a ouvir seu nome sendo mencionado com respeito — quase sempre acompanhado de histórias que revelavam sua integridade, sua simplicidade e seu compromisso com o povo.
Nascido em 1917 e falecido em 2006, Joãozinho viveu quase nove décadas de uma vida pautada por valores sólidos. Homem do sertão, carregava consigo a essência de quem compreendia que a política, antes de qualquer coisa, é serviço. Casado com a Sra. Stela Veras Alves, formou um lar alicerçado no amor e na dignidade, adotando Maria de Lourdes Veras Alves, a quem dedicou cuidado e afeto.
Sua trajetória pública é digna de registro e reconhecimento. Antes de alcançar o cargo de prefeito, serviu ao município por impressionantes 44 anos como fiscal da Prefeitura — um testemunho de dedicação contínua à coisa pública.
Ele governou Afogados da Ingazeira em dois períodos distintos, verdadeiramente dois tempos de uma mesma história.
No primeiro mandato (1969 a 1972), tendo como vice o senhor Gastão Cerquinha da Fonseca, pai do jornalista Magno Martins, liderou um grupo de vereadores comprometidos com o desenvolvimento da cidade. Foi um período de estruturação administrativa, em que as bases do crescimento municipal começaram a ser consolidadas.
Já no segundo mandato (1983 a 1988), com o vice Expedito Araújo da Silva, Joãozinho retorna à gestão em um momento emblemático da história nacional — o Brasil redescobrindo a democracia. E, mais uma vez, conduziu o município com firmeza, serenidade e espírito público.
O registro histórico nos mostra que sua vitória em 1982 foi apertada — apenas 35 votos de diferença —, mas suficiente para demonstrar a confiança popular em sua liderança.
Entre as obras que marcaram sua administração, destaca-se a construção do Fórum, edifício que hoje abriga a Secretaria de Ação Social do município, além de diversas intervenções urbanas que contribuíram para o desenvolvimento local. Soma-se a isso um legado simbólico e permanente: a ponte que liga o centro da cidade ao bairro São Francisco leva o seu nome — Ponte João Alves Filho —, reconhecimento justo a quem tanto contribuiu para a mobilidade e integração da cidade.
Mas Joãozinho Alves não era lembrado apenas pelas obras. Era também conhecido por sua postura ética e por frases que se tornaram parte do imaginário popular. Costumava dizer: “Não tem quem acabe com o dinheiro da Prefeitura”, uma expressão que, mais do que um jargão, refletia sua confiança na boa gestão e no uso responsável dos recursos públicos.
Era um homem de honestidade invejável. Na vida pessoal, adotava uma postura rigorosa: só comprava à vista. No trato com os recursos públicos, mantinha a mesma seriedade, mas com equilíbrio administrativo. Ao contratar serviços para a Prefeitura, negociava com firmeza — pechinchava, como bom sertanejo —, podendo, em alguns casos, adiantar 50% do valor e quitar o restante apenas após a entrega do serviço, garantindo responsabilidade e compromisso na execução.
Relatos como esses revelam não apenas o gestor, mas o homem — aquele que compreendia o valor do dinheiro público e o tratava com o mesmo zelo que dispensava à sua vida particular.
Joãozinho Alves foi, portanto, mais que um administrador. Foi um homem de dois tempos: o da experiência construída ao longo dos anos e o da esperança renovada em cada novo ciclo. Soube atravessar diferentes momentos da história mantendo coerência, equilíbrio e compromisso com o bem comum.
Seu legado não está apenas nas obras físicas, mas na forma de fazer política — com respeito, com responsabilidade e com senso de dever. Em tempos em que tanto se discute a qualidade da gestão pública, revisitar exemplos como o de Joãozinho Alves é mais que um exercício de memória; é uma necessidade.
Entretanto, ao recordar a postura firme e zelosa do saudoso João Alves Filho — o nosso querido “Joãozinho” —, não posso deixar de destacar um aspecto que lhe era particularmente sensível: o cuidado com a limpeza pública. Joãozinho não se limitava a administrar a cidade apenas em sua área central; tinha um olhar atento também para o interior do município, compreendendo que o desenvolvimento precisava alcançar a todos. Ainda assim, era notório que a limpeza urbana ocupava um lugar de destaque em suas preocupações administrativas.
Conversando recentemente com alguns moradores, ouvi relatos que merecem reflexão. Segundo eles, a cidade, no que diz respeito à limpeza pública, tem deixado a desejar. Espaços emblemáticos, como a Praça Monsenhor Arruda Câmara — um dos cartões-postais e pontos de convivência mais importantes —, carecem de maior zelo e manutenção. Da mesma forma, a Avenida Rio Branco, uma das principais vias da cidade, precisa de um tratamento mais cuidadoso, à altura de sua relevância histórica e funcional.
Faço esse registro não como crítica vazia, mas como contribuição cidadã. Aproveito este espaço para solicitar uma atenção mais efetiva por parte do secretário de Serviços Urbanos e, por conseguinte, do próprio prefeito. Ainda que não tenha a honra de conhecê-lo pessoalmente, entendo que é fundamental que tais observações cheguem ao seu conhecimento, pois a boa gestão pública se constrói também a partir da escuta da população.
Afinal, como nos ensinava Joãozinho, cuidar da cidade é, antes de tudo, respeitar o seu povo.
Porque há histórias que não se apagam.
E há homens que permanecem vivos naquilo que fizeram pelo seu povo.
E Joãozinho Alves — sem dúvida — é um deles.
*Professor universitário aposentado e memorialista
**Fontes de informações e imagem: Blog do Finfa e Fernando Pires







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