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FLORES: a histórica “Mãe dos Sertões”

“Flores do meu Pajeú,
Hoje eu abraço você.
No meu abraço a essência
De tuas flores porque.
Em origem na história
De Moema e Aracê”

Ademar Rafael

Por Rinaldo Remígio*

Flores está localizada no Sertão do Pajeú, a aproximadamente 394 quilômetros do Recife por via rodoviária. Seu território possui cerca de 995,6 km². O Censo de 2022 registrou 20.347 habitantes, enquanto a estimativa oficial para 2025 chegou a 20.776 moradores. Portanto, a expressão “aproximadamente 22 mil habitantes” corresponde melhor às estimativas anteriores. O gentílico é florense.

Administrativamente, o município é formado pela sede e pelos distritos de Fátima e Sítio dos Nunes, além de povoados e numerosas comunidades rurais, como São João dos Leites, Tenório, Santana de Almas, Saco do Romão e Matolotagem.

História e origem
Flores é considerada uma das povoações mais antigas do interior de Pernambuco. Antes da ocupação europeia, seu território era habitado por povos indígenas. A penetração colonial ocorreu entre o final do século XVI e o século XVII, acompanhando o curso do Rio Pajeú e a expansão da pecuária promovida por sertanistas ligados à Casa da Torre, da Bahia.

A antiga denominação Pajeú das Flores ou Flores da Ribeira do Pajeú aparece em registros históricos. Existem duas versões principais para a origem do nome. A mais popular fala de belas jovens conhecidas como “moças flores”, associadas às personagens Aracê e Moema. Os estudos históricos, entretanto, consideram mais provável que o nome tenha vindo de uma propriedade denominada Fazenda ou Sítio dos Flores, pertencente a uma família conhecida por esse sobrenome. Assim, a história das “moças flores” deve ser apresentada como uma bela lenda local, e não como fato documentalmente comprovado.

Entre os principais marcos históricos estão:
• 11 de setembro de 1783: criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Flores do Pajeú;
• 15 de janeiro de 1810: instalação da Comarca do Sertão na Vila de Flores;
• 1833: consolidação de Flores como importante sede judiciária do interior;
• 1851: transferência da sede municipal e da comarca para Vila Bela, atual Serra Talhada;
• 1858: reorganização de Flores como município;
• 1892: reconhecimento da autonomia municipal no período republicano.
Há divergências entre os pesquisadores sobre qual desses atos representa propriamente a emancipação. O município, entretanto, celebra oficialmente sua emancipação em 11 de setembro, data relacionada à criação da antiga freguesia.

O título de “Mãe dos Sertões” decorre da enorme importância territorial, administrativa, religiosa e judiciária exercida por Flores. A antiga comarca abrangia áreas onde posteriormente surgiram municípios como Serra Talhada, Afogados da Ingazeira, São José do Egito, Triunfo, Carnaíba, Tabira, Floresta e outros. Durante muito tempo, Flores foi ponto de passagem de boiadas e centro de decisões para uma extensa parte do interior nordestino.

Economia
A economia florense mantém forte ligação com a zona rural. A agricultura familiar produz principalmente milho, feijão e culturas de subsistência, enquanto a pecuária envolve bovinos, caprinos, ovinos, suínos e criação de aves.

Na área urbana, destacam-se o comércio varejista, os pequenos mercados, as panificadoras, as lojas de materiais de construção, móveis e produtos agropecuários, além de serviços contábeis, financeiros, educacionais e de saúde.

Em 2023, o Produto Interno Bruto de Flores foi estimado em aproximadamente R$ 245,7 milhões, com PIB por habitante de R$ 12.074,47. A administração pública representa parcela expressiva da atividade econômica, seguida pelos serviços, indústria e agropecuária. Esse perfil demonstra a necessidade de ampliar a iniciativa privada, estimular o empreendedorismo e agregar valor à produção rural.

Historicamente, Flores já contou com engenhos de rapadura, casas de farinha, produção de doces de leite e goiaba, fabricação de cordas de caroá e beneficiamento de algodão. A antiga fábrica da Anderson Clayton, popularmente chamada de “Americana”, tornou-se uma referência da memória econômica municipal.

O município também possui recursos naturais importantes, como áreas com ocorrência de calcário e parte da chamada Bacia de Fátima, relevante reserva subterrânea de água para a região.

Cultura
A cultura de Flores reúne religiosidade, música, costumes rurais, culinária sertaneja e celebrações populares. Entre os principais eventos estão:
• Festa das Rosas, que chegou à 75ª edição em 2026;
• Festival de Carros de Boi, realizado durante os festejos juninos;
• São João, com forró, bacamarteiros, comidas de milho e manifestações tradicionais;
• festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira municipal;
• comemorações da emancipação política;
• vaquejadas, pegas de boi, festas comunitárias e celebrações religiosas nos distritos e povoados.

O Festival de Carros de Boi é uma das manifestações mais representativas. Além de preservar um instrumento secular do trabalho sertanejo, valoriza agricultores, carreiros, vaqueiros e famílias da zona rural. Em 2024, segundo a prefeitura, o evento reuniu mais de 15 mil pessoas.

Flores também é o berço do maestro, compositor e arranjador Moacir Santos, um dos grandes nomes da música brasileira. Autor do histórico álbum Coisas, lançado em 1965, ele construiu uma carreira de projeção internacional e influenciou importantes músicos brasileiros. Sua trajetória constitui um dos maiores patrimônios culturais do município.

Turismo
Flores possui potencial para o turismo histórico, cultural, religioso, arqueológico, rural e de eventos. Entre os lugares e experiências que podem integrar um roteiro municipal estão:
• Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição;
• antigo prédio da cadeia e da Casa de Câmara, hoje integrado à sede municipal;
• paisagens e caminhos do Rio Pajeú;
• distritos de Fátima e Sítio dos Nunes;
• Serra das Letras e seus registros rupestres;
• Riacho das Letras, Lagoa do Pinheiro e Vale do Cafundó;
• Sítio Tamboril e Riacho da Velha;
• propriedades rurais, serras, açudes e comunidades tradicionais;
• Festa das Rosas e Festival de Carros de Boi.
As pinturas rupestres representam um patrimônio arqueológico valioso, mas algumas áreas ainda precisam de mapeamento, sinalização, preservação e estrutura adequada para receber visitantes. O ideal é que as visitas sejam realizadas com orientação local e respeito às normas de proteção do patrimônio.

Flores integra, em 2026, o Mapa do Turismo Brasileiro, dentro da região turística denominada “Cangaço e Lampião”, juntamente com Betânia, São José do Belmonte, Serra Talhada e Triunfo. Essa inclusão favorece a divulgação do município e a captação de recursos para infraestrutura e qualificação turística.

Gestão municipal
A administração municipal é atualmente conduzida pelo prefeito Cícero Gilberto Cavalcanti Ribeiro, tendo como vice-prefeito Francisco Miguel de Lima, no mandato iniciado em 2025.

A estrutura administrativa possui áreas específicas para educação, saúde, agricultura, infraestrutura, planejamento e finanças, meio ambiente, assistência social, políticas para as mulheres, esportes, turismo e eventos. O município registrou aproximadamente R$ 129,5 milhões em receitas brutas realizadas em 2025, conforme dados disponibilizados pelo IBGE.

Um dos principais desafios da gestão é conciliar a manutenção dos serviços públicos com a geração de oportunidades econômicas. Flores pode avançar especialmente por meio do apoio à agricultura familiar, do fortalecimento dos pequenos negócios, da valorização de sua memória histórica e da estruturação de roteiros turísticos.

Flores não é apenas uma cidade do Pajeú. É um território que ajudou a formar outros municípios, abriu caminhos pelo Sertão e preserva uma memória que se confunde com a própria história do interior pernambucano. Por isso, o título de “Mãe dos Sertões” não é apenas uma expressão afetiva: é o reconhecimento da grandeza histórica de uma cidade que já exerceu influência sobre uma imensa parte do Nordeste.

*Professor universitário aposentado e memorialista!

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