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Afogados da Ingazeira sob Águas: O preço do crescimento desordenado e da omissão pública

Por: Dr. Décio Petrônio

A cada temporada de chuva, o cenário em Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú, repete-se como uma tragédia anunciada. Ruas transformadas em rios, casas invadidas pela lama e prejuízos materiais incalculáveis são apenas os sintomas visíveis de uma doença mais profunda: décadas de negligência urbanística, falta de planejamento e ausência total de investimentos estruturais.

Um dos pontos mais críticos é a recente pavimentação asfáltica de diversas vias. Embora o asfalto traga uma falsa sensação de modernidade, em Afogados ele se tornou um vilão ambiental. Sem um sistema de drenagem e galerias pluviais que acompanhassem as obras, o solo foi impermeabilizado. A água, impedida de infiltrar no subsolo, corre com velocidade destrutiva pela superfície, buscando saídas inexistentes e invadindo as residências dos cidadãos.

Recentemente, o poder público municipal criou a Secretaria de Meio Ambiente, mas, na prática, o órgão nasceu natimorto. Sem estrutura física adequada, orçamento próprio ou corpo técnico suficiente, a pasta funciona apenas como uma peça decorativa no organograma da Prefeitura.

A secretaria não possui “braço” para realizar o trabalho social necessário junto às comunidades, nem capacidade de fiscalização para coibir crimes ambientais e ocupações irregulares. É uma estrutura de fachada que serve para passar uma imagem de preocupação ecológica enquanto a cidade padece com o descaso real.
A cidade cresceu, mas não evoluiu. O Plano Diretor, que deveria nortear a ocupação do solo, é uma peça meramente teórica. O resultado é a ocupação desordenada de áreas de risco e terrenos historicamente impróprios, como uma antiga lagoa que foi aterrada e loteada.

Enquanto a infraestrutura básica de escoamento é inexistente, a aplicação do dinheiro público em obras que não têm trazido benefícios para a população gera revolta. Nos últimos anos, cerca de R$ 8 milhões foram destinados à construção de uma usina solar e de um pátio de feira, sem qualquer utilidade para a população, já que a usina não funciona e pátio encontra-se em abandono há anos, um verdadeiro elefante branco.

O Rio Pajeú, artéria vital da região e da cidade, padece com o assoreamento severo e o acúmulo de lixo. Sem projetos de desassoreamento e com as margens ocupadas de forma desordenada sob o olhar complacente da gestão, o rio perdeu sua capacidade de vazão, contribuindo diretamente para o represamento das águas durante as cheias.

Para interromper esse ciclo de negligência que já dura mais de duas décadas, é necessário que a gestão municipal deixe o marketing de lado e foque em ações estruturantes:
• Infraestrutura Real: Construção imediata de canais de drenagem e galerias pluviais de grande porte em pontos críticos.
• Plano de Contingência: Implementação de um plano emergencial real para salvar vidas e bens durante as tormentas.
• Reforma da Secretaria de Meio Ambiente: Dotar a pasta de estrutura funcional e capacidade técnica para realizar fiscalização e trabalho social permanente.
• Recuperação do Rio Pajeú: Desassoreamento urgente e limpeza permanente dos leitos.
• Pacto Legislativo: Criação de leis rigorosas junto à Câmara de Vereadores para punir o descarte irregular de lixo e auxiliar na fiscalização do ordenamento urbano.

A omissão dos últimos 20 anos cobrou um preço alto demais. Resta saber se a gestão continuará investindo em asfalto sem bueiro, ou se finalmente enfrentará o desafio de estruturar a cidade para que o povo de Afogados da Ingazeira possa dormir em paz, mesmo sob chuva.

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