*Por Rinaldo Remígio
Entre as montanhas e planície do Sertão do Pajeú, onde o céu parece tocar a alma e a terra guarda histórias de fé, resistência e esperança, nasceu um homem cuja vida foi mais que uma travessia – foi um testemunho. Monsenhor João Carlos Acioly Paz, partiu aos 61 anos, deixando um legado que se escrever com tintas de eternidade nas páginas da história de Afogados da Ingazeira, da Diocese de Afogados, e dos corações que o conheceram.
Nascido em 10 de julho de 1960 no distrito de Jabitacá, em Iguaracy, o Monsenhor João Carlos já trazia no nome a firmeza de um apóstolo e a leveza de quem carregaria o peso do mundo sem reclamar. Filho do Senhor Pedro Severo e Dona Cordeira, formou-se na simplicidade da roça, na dignidade do trabalho e na fé que se aprende mais com os olhos que com os livros.
Trabalhou ainda menino, vendendo chinelos, ajudando na panificadora de Severino Lolô – quem viveu em Afogados sabe o quanto essa padaria alimentou não só estômagos, mas memórias. A vida, contudo, não lhe foi leve. Uma atrofia na perna esquerda, causada por uma reação a vacina contra poliomielite e agravada por um acidente de moto, poderia ter limitado seus passos. Mas não limitou seus sonhos. Fez da sua dor, bandeira. E da sua limitação, força. Lutou pelos que sofriam o preconceito das deficiências. Era ali, na sua marcha compassada, que Deus mostrava o que é andar com propósito.
A vocação sacerdotal o encontrou ainda jovem. Foi acolhido por Dom Francisco, que o tratou como filho. E como filho da fé, João Carlos vestiu a batina e jamais a deixou enrugar nos cabides da omissão. Em mais de 37 anos de sacerdócio, foi mais que pároco. Foi construtor de templos e de almas. Esteve à frente das paróquias de Afogados, Iguaracy, Flores e Tuparetama, sendo sempre mais que um administrador: era um pastor que conhecia suas ovelhas pelo nome.
Estudioso, tornou-se Doutor em Direito Canônico pelo prestigiado Instituto Superior do Rio de Janeiro. Presidiu o Tribunal Eclesiástico do Regional Nordeste II da CNBB com o rigor de quem conhece a lei e a misericórdia de quem conhece o Evangelho. Sua inteligência era do tamanho de sua humildade, e sua firmeza nunca veio descolada da ternura.
No campo educacional, foi decisivo para a consolidação da FAFOPAI, atual FASP. Sonhava com um Sertão que pensasse, que refletisse, que tivesse universidade própria. Como professor, deixou discípulos; como gerente administrativo, deixou estrutura; como visionário, deixou sementes.
Também fez história na comunicação. Na Rádio Pajeú, foi gestor e articulador, dando voz à esperança e à fé do povo. Como Presidente da Fundação Cultural Senhor Bom Jesus dos Remédios, cultivou a identidade e o patrimônio do sertanejo. E como Vigário Geral da Diocese, foi conselheiro leal de bispos como Dom Luis Pepeu e Dom Egídio Bisol, com quem partilhou caminhos e decisões.
Nos bastidores da vida pastoral, João Carlos foi também confidente de famílias, orientador de casais, amigo dos aflitos. Seu dom era o da escuta. E sua força vinha de uma oração silenciosa, feita entre as paredes do presbitério e o coração do povo.
Conheci João Carlos ainda na adolescência, no auge da juventude, estudamos juntos no Colégio Normal, rapaz extrovertido, gentil, estudioso. Dividimos amizades, sorrisos e a alegria dos bailes no ACAI. Ninguém poderia prever ali que o menino risonho seria um sacerdote tão sério, tão comprometido, tão essencial. A vida, com seus mistérios, já o moldava para uma missão maior.
Hoje, Afogados da Ingazeira não tem mais o Padre João Carlos fisicamente, mas o o tem na memória. Porque, as memórias dele são muitas: um gesto acolhedor no confessionário, uma palavra firme no púlpito, um olhar sereno nas decisões difíceis. Deixa-nos não apenas a lembrança de um homem bom, mas o exemplo de um cristão completo.
Foi padre, foi doutor, foi líder, foi amigo, foi conselheiro. Mas, acima de tudo, foi servo. E serviu com alegria até o fim, mesmo enfrentando dois anos de luta contra o câncer com a mesma fé inabalável com que enfrentou a vida.
Fica aqui minha singela homenagem, com gratidão por tudo o que ele foi para tantos. Sua voz silenciou, mas sua obra ecoa – no altar, na sala de aula, no rádio, nas ruas, na história de um povo que hoje se curva, em respeito, diante de seu maior sacerdote.
*Professor universitário e memorialista!











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