Press "Enter" to skip to content

Itapetim: o Ventre Imortal da Poesia e suas potencialidades

“Meu abraço carinhoso
Ao povo de Itapetim
A terra dos Batistas,
Do grande Pedro Amorim.
Do Mestre Zé Adalberto
Que não faz um verso ruim.”

Ademar Rafael

Por Rinaldo Remígio*

Com esta estrofe poética do meu irmão Ademar Rafael, vamos falar um pouco desta terra de tantos poetas. Itapetim é um dos municípios mais representativos do Sertão do Pajeú. Conhecida como “Ventre Imortal da Poesia”, a cidade transformou a cantoria, o repente e a literatura de cordel em marcas de sua identidade. Ao mesmo tempo, possui potencialidades econômicas na agricultura familiar, na criação de animais, no comércio, no turismo cultural e na economia criativa.

Localizado no extremo norte de Pernambuco, fazendo divisa com a Paraíba, Itapetim possui 411,8 quilômetros quadrados de território. O Censo de 2022 registrou 13.791 habitantes, enquanto a estimativa do IBGE para 2026 aponta aproximadamente 14.240 moradores. A sede municipal está a cerca de 637 metros de altitude.

História e formação
A região foi habitada originalmente por povos indígenas, entre os quais registros locais mencionam os Babicos. O primeiro nome do povoado foi Umburanas, em referência à grande quantidade dessas árvores existentes às margens do Rio Pajeú.

O crescimento da povoação esteve relacionado às viagens de tropeiros e almocreves que transportavam mercadorias entre localidades pernambucanas e paraibanas. As sombras das umburanas serviam como ponto de descanso para os comerciantes e seus animais. Com o aumento dessas paradas, surgiram as trocas comerciais e, por volta de 1878, a chamada Feira das Umburanas.

O lugar posteriormente recebeu os nomes de São Pedro das Lages e Itapetininga. Em 1943, passou a se chamar definitivamente Itapetim. O município foi criado pela Lei Estadual nº 1.818, de 29 de dezembro de 1953, sendo desmembrado de São José do Egito. Sua instalação administrativa ocorreu em 1º de junho de 1954, com a posse do primeiro prefeito nomeado, Francisco José de Maria, conhecido como Chico Santos.

Além da sede, o município possui os importantes núcleos de São Vicente e Piedade do Ouro, além de dezenas de comunidades rurais.

Clima e geografia
Itapetim apresenta clima semiárido, com temperaturas elevadas durante boa parte do ano, chuvas irregulares e longos períodos de estiagem. Entretanto, sua altitude contribui para noites mais agradáveis e temperaturas relativamente mais amenas em determinados períodos, principalmente entre junho e agosto.

A vegetação predominante é a Caatinga, com espécies resistentes à falta de água. O município é cortado pelo Rio Pajeú e possui um relevo marcado por serras, lajedos, formações rochosas e grandes pedras, elementos que compõem uma paisagem sertaneja de grande beleza.

Como acontece em praticamente todo o Pajeú, a irregularidade das chuvas exige investimentos permanentes em barragens, açudes, poços, cisternas, adutoras e sistemas de abastecimento. A segurança hídrica é fundamental para garantir qualidade de vida e fortalecer a produção rural.

A força da cultura e da poesia
A maior riqueza cultural de Itapetim está na poesia. O município é terra de importantes nomes da cantoria e da literatura popular, como Rogaciano Leite e os irmãos Dimas Batista, Otacílio Batista e Lourival Batista Patriota, o Louro do Pajeú.

Rogaciano Leite, nascido na comunidade de Cacimba Nova, projetou-se como poeta, escritor e jornalista. Os irmãos Batista, por sua vez, ajudaram a engrandecer a cantoria de viola e o repente nordestino, levando a poesia do Pajeú para diferentes partes do Brasil.

Outros nomes, como Pedro Amorim, Gera Marques, Zé Adalberto e Leonardo Bastião, também representam essa extraordinária capacidade de fazer versos. Em Itapetim, a poesia não está apenas nos livros: ela aparece nas feiras, nos encontros familiares, nas mesas de glosas, nas cantorias e nas conversas cotidianas.

O Festival de Poetas Repentistas Profissionais é uma das principais manifestações culturais do município. O calendário também inclui o Carnaverso, festivais de poetas locais, mesas de glosas, lançamentos de livros, festejos religiosos e apresentações de artistas populares.

Festas e tradições
A principal celebração do município é o tradicional São Pedro de Itapetim, realizado no período junino. A festa reúne manifestações culturais, quadrilhas, forró, gastronomia e apresentações de artistas locais e nacionais, movimentando o comércio e recebendo visitantes de várias cidades da região.

São Pedro é também o padroeiro da sede municipal, celebrado em 29 de junho. Em São Vicente, destaca-se a festa de São Vicente Férrer, enquanto Piedade do Ouro mantém sua devoção a Nossa Senhora da Piedade.

Esses eventos representam mais do que entretenimento: fortalecem a identidade coletiva, movimentam pousadas, restaurantes, bares, vendedores ambulantes, costureiras, músicos e prestadores de serviços.

Turismo
Itapetim ainda possui um turismo em desenvolvimento, mas apresenta expressivo potencial cultural, religioso, rural e ecológico. Entre os locais identificados para a formação de uma rota turística municipal estão:
• Casa do Poeta Rogaciano Leite;
• Praça Poeta Rogaciano Leite;
• Cruzeiro-Mirante, espaço de fé e contemplação da paisagem;
• Igreja Matriz de São Pedro;
• Cachoeira do Querqueré;
• Engenho dos Sampaio;
• Cruz do Cangaceiro Zezé Patriota;
• Pedra da Bastiana;
• áreas com pinturas rupestres;
• Fonte de Água da Gameleira;
• associações de artesãos, produtores de mel e mulheres rurais;
• comunidades de São Vicente e Piedade do Ouro.

Em parceria com o Sebrae, o município iniciou um trabalho de identificação e organização desses atrativos. Em 2026, a gestão anunciou um projeto iconográfico destinado a reunir informações sobre turismo, cultura e empreendedorismo, fortalecendo a identidade visual e a divulgação de Itapetim.

Economia
A economia de Itapetim está concentrada no setor público, no comércio, nos serviços e na agropecuária. O município registrou, em 2023, um Produto Interno Bruto próximo de R$ 170,3 milhões, com PIB per capita de aproximadamente R$ 12,3 mil. O mercado formal possui cerca de 1,2 mil empregos registrados.

No comércio predominam supermercados, farmácias, lojas de roupas, materiais de construção, oficinas, restaurantes e pequenos estabelecimentos familiares. As microempresas, os empreendedores individuais e os trabalhadores autônomos exercem papel importante na circulação da renda municipal.

Na zona rural, destacam-se:
• agricultura familiar;
• produção de milho, feijão, mandioca e culturas destinadas à alimentação animal;
• criação de bovinos, caprinos, ovinos e aves;
• produção de leite de cabra e de vaca;
• fabricação artesanal de queijos e outros derivados;
• apicultura e produção de mel;
• artesanato e produtos alimentícios regionais.

A criação de caprinos e ovinos possui boas perspectivas, especialmente com organização dos produtores, melhoramento genético, assistência técnica e implantação de pequenas agroindústrias. A atual gestão vem mantendo diálogo com a Associação de Produtores de Leite e Carne de Caprinos e Ovinos para fortalecer essa cadeia produtiva.

Gestão municipal
Em 2026, o município é administrado pela prefeita Aline Karina Alves da Costa, eleita pelo PSB para o mandato iniciado em janeiro de 2025. O vice-prefeito é Francisco de Assis Gonçalves, conhecido como Chico de Laura.

Entre as iniciativas divulgadas pela administração municipal estão a implantação do Sistema Eletrônico de Informações — SEI, a digitalização de processos administrativos, a instalação de centros administrativos em São Vicente e Piedade do Ouro e projetos direcionados à cultura, ao turismo e ao empreendedorismo.

Os grandes desafios da gestão continuam sendo:
• ampliar a segurança hídrica;
• melhorar as estradas rurais;
• fortalecer a saúde e a educação;
• gerar empregos para os jovens;
• apoiar o pequeno agricultor;
• diversificar o comércio e os serviços;
• preservar a tradição poética;
• transformar cultura e turismo em renda;
• atrair investimentos sem perder a identidade municipal.

Principais potencialidades
Itapetim possui condições para avançar por meio da integração entre tradição e desenvolvimento. Suas principais oportunidades estão na criação de uma rota da poesia, no turismo rural e religioso, na realização de festivais, na valorização dos poetas, na produção de leite e derivados, na apicultura, no artesanato e na energia solar.

A cidade carrega uma riqueza que nenhum período de estiagem consegue apagar: a criatividade de sua gente. Em Itapetim, o Sertão aprende a falar em versos, e a poesia pode ser não apenas memória e identidade, mas também instrumento de educação, turismo, emprego, renda e desenvolvimento.

*Professor universitário aposentado e memorialista!

Seja o primeiro a comentar

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *