Os fatos, personagens e movimentos que marcaram a semana eleitoral
A eleição entrou na margem de erro
Pernambuco chega à reta decisiva da campanha com uma palavra cada vez mais presente no vocabulário político: aperto.
O Datafolha divulgado nesta sexta-feira (11) mostrou a governadora Raquel Lyra (PSD) com 47% das intenções de voto e João Campos (PSB) com 42%. Com margem de erro de três pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. Nos votos válidos, Raquel chega a 51%, contra 46% de João – cenário que, se reproduzido nas urnas, daria à governadora a vitória no primeiro turno.
Em eventual segundo turno, o levantamento aponta 51% para Raquel e 44% para João. A pesquisa ouviu 1.204 eleitores em 48 municípios, entre os dias 8 e 10 de setembro. Outro dado ajuda a explicar o desempenho da candidata à reeleição: 65% aprovam sua gestão. Já a rejeição registra 32% para João e 29% para Raquel.
A fotografia do Datafolha se soma a outros retratos recentes. A Quaest havia apontado Raquel com 43% e João com 37%, também em empate técnico, enquanto a RealTime Big Data mostrou 44% a 44%. São institutos, metodologias e períodos de coleta diferentes – portanto, não devem ser tratados como uma única série histórica.
O que parece menos discutível é que a eleição pernambucana entrou numa fase em que há pouco espaço para desperdício.
O que isso muda?
Com a disputa apertada, crescer continua importante. Errar passa a ser perigosíssimo. Em eleição assim, o acerto quase sempre cumpre expediente em silêncio. O erro costuma chegar fazendo barulho.
FRENTE A FRENTE
A sexta-feira também colocou os principais adversários frente a frente. Raquel Lyra, João Campos e Ivan Moraes (PSOL) participaram, em Caruaru, do primeiro debate da campanha reunindo os três candidatos.
Saúde, abastecimento d’água, segurança e economia dividiram espaço com cobranças sobre as gestões estadual e municipal. João confrontou resultados do Governo; Raquel respondeu trazendo para o debate o legado das administrações do PSB; Ivan procurou se apresentar como alternativa aos dois principais polos da disputa.
Mas há algo além das falas que merece atenção: o endereço. O primeiro grande encontro aconteceu em Caruaru. Em uma eleição disputada município a município, agenda também é estratégia.
PRESTE ATENÇÃO NISSO
Candidato tem dinheiro, equipe, guia eleitoral e estrutura. Mas existe um recurso que nenhum deles consegue aumentar: tempo. Por isso, observe onde cada candidato decide gastá-lo.
Em campanha, o relógio também vota.
A ELEIÇÃO DENTRO DA ELEIÇÃO
Se o Governo concentra os maiores holofotes, o Senado começa a produzir uma disputa própria.
O Datafolha desta sexta-feira mostra Marília Arraes (PDT) com 18%, Humberto Costa (PT) com 16%, Mendonça Filho (PL) com 12%, Eduardo da Fonte (PP) com 10% e Túlio Gadêlha (PSD) com 5%.
Como Pernambuco elegerá dois senadores, cada eleitor terá direito a dois votos. Talvez o número mais interessante esteja, porém, fora da liderança: na pesquisa espontânea, 58% ainda não sabem em quem votar para o Senado.
É uma avenida aberta para as próximas semanas.
Marília e Humberto tentam consolidar as duas vagas da chapa de João; Mendonça busca espaço por uma faixa distinta do eleitorado; Eduardo da Fonte amplia articulações municipais; e Túlio tenta crescer numa corrida em que boa parte do eleitor ainda está escolhendo seus dois nomes.
O que isso muda?
Na disputa pelo Governo, o desafio parece ser convencer um eleitor cada vez mais decidido. No Senado, ainda existe muito voto procurando candidato.
NO TABULEIRO
Prefeitos entram na conta
Quando a urna chega às disputas proporcionais, os prefeitos ganham outro tamanho. Levantamento atualizado em agosto pelo Blog Ponto de Vista, a partir de manifestações públicas e consultas a atores políticos, colocou Lula da Fonte (PP) na liderança em número de prefeitos apoiadores para deputado federal, com 20 prefeitos.
Silvio Costa Filho (Republicanos), Marcelo Gouveia (Podemos), Fernando Monteiro (PSD) e Waldemar Oliveira apareciam com 13, cada; Felipe Carreras (PSB) e Guilherme Uchôa Júnior tinham dez apoios.
Prefeito não transfere voto por decreto. Mas oferece estrutura, articulação, presença territorial e capacidade de abrir portas.
Nas proporcionais, antes de contar votos, vale contar pontes.
Henrique Filho põe a PE-45 na campanha
Na disputa pela reeleição à Assembleia Legislativa, Henrique Filho (PP) comemorou nesta semana a restauração e revitalização da PE-45, intervenção que havia solicitado ao Governo do Estado.
O parlamentar atribuiu a recuperação da rodovia à articulação de seu mandato e agradeceu à governadora Raquel Lyra pelo atendimento do pleito. Segundo Henrique, a obra melhora segurança, rapidez e condições de deslocamento para quem utiliza a estrada.
Aqui, a notícia não é apenas a rodovia. É o uso eleitoral de uma entrega concreta.
Para deputados que buscam renovar o mandato, a reta final costuma ser também uma prestação de contas: mostrar ao eleitor aquilo que a atuação parlamentar conseguiu tirar do papel.
Preste atenção nisso: para candidato à reeleição, entrega também é argumento eleitoral.
Ouricuri: o prefeito entra em campo
No Sertão do Araripe, o prefeito de Ouricuri, Victor Coelho, resolveu assumir pessoalmente a campanha de seu grupo. Na última quinta-feira (10), ele comandou um porta a porta no bairro Alto Paraíso pedindo votos para Raquel Lyra, Eduardo da Fonte para o Senado, Augusto Coutinho para deputado federal e Kaio Maniçoba para estadual. O ato reuniu vice-prefeito, vereadores, lideranças e apoiadores. Victor também coordena a campanha de Raquel no Araripe.
Mais que uma agenda municipal, o movimento revela uma das engrenagens que estarão funcionando intensamente até outubro: o prefeito transformado em cabo eleitoral de uma chapa montada para seu território.
Pernambuco tem uma eleição estadual. Mas, quando chegam as proporcionais, há também 184 pequenos mapas políticos sendo desenhados município por município.
O palanque de Zeca
E Arcoverde oferece uma fotografia ainda mais interessante. O prefeito Zeca Cavalcanti (Podemos) foi às ruas nesta semana defendendo uma composição que atravessa diferentes campos: Raquel Lyra para o Governo; Lula para presidente; Mendonça Filho e Túlio Gadêlha para as duas vagas do Senado; Marcelo Gouveia para deputado federal; e Gustavo Gouveia para estadual.
A montagem ajuda a lembrar algo que Brasília frequentemente faz parecer mais simples do que é: a política nos municípios nem sempre cabe nas fronteiras ideológicas nacionais.
PRESTE ATENÇÃO NISSO
Em Pernambuco, a urna tem várias teclas. E nem sempre elas obedecem à mesma aliança.
ALÉM DA MANCHETE
O encontro que não virou post
Talvez um dos movimentos mais curiosos da semana tenha sido justamente aquele que quase não apareceu.
Raquel Lyra esteve na Fazenda Normandia, em Caruaru, para um encontro com integrantes do MST e recebeu uma carta de compromissos do movimento.
A reunião não foi publicada nas redes sociais da governadora nem nas do MST e terminou provocando críticas de setores da direita e da esquerda. O episódio interessa menos pelo ruído e mais pelo que revela.
Raquel tenta ampliar pontes para além dos grupos mais previsíveis de sua base. O MST, historicamente ligado à esquerda, encontra-se diante de uma governadora apoiada por setores que estão no campo oposto ao movimento. Ambos conversaram. Nenhum pareceu interessado em transformar a conversa em vitrine.
E talvez esteja aí a notícia.
Numa campanha em que praticamente todo abraço ganha câmera, às vezes é a fotografia que não foi publicada que merece ser observada.
PELO MAPA
Ouricuri com Victor Coelho, Kaio Maniçoba e Augusto Coutinho; Arcoverde com Zeca Cavalcanti, Marcelo e Gustavo Gouveia; Caruaru recebendo o confronto entre candidatos ao Governo; prefeitos espalhando apoios por candidaturas proporcionais.
O mapa começa a falar. E falará cada vez mais alto.
Na reta final, não basta perguntar quem apoia quem. Será preciso perguntar onde esse apoio está localizado, qual liderança o carrega e que combinação eleitoral está sendo montada em cada município.
É assim que uma eleição estadual se transforma em muitas eleições locais.
TRE DE OLHO
A Justiça Eleitoral também entrou em campo.
Desde o início da campanha, o TRE-PE já contabilizou 4.136 materiais de propaganda apreendidos no Recife, Jaboatão dos Guararapes, Olinda e Petrolina. Só na capital foram 2.319 itens. Petrolina aparece em seguida, com aproximadamente 1.470. Bandeiras irregulares representam a maior parte das apreensões.
Em Caruaru, a estratégia tem sido diferente: diante das denúncias recebidas pelo Pardal, a Justiça Eleitoral vem priorizando notificações para que as próprias campanhas regularizem o material.
A campanha esquenta. A fiscalização, também.
DE OLHO
A próxima semana poderá mostrar se os números divulgados agora provocarão mudanças perceptíveis nas estratégias de Raquel Lyra e João Campos.
Raquel chega a esta etapa sustentada também pela avaliação de seu governo – 65% aprovam a gestão no Datafolha – e pelo esforço de interiorização de sua campanha. João precisa ampliar terreno e manter mobilizada uma frente que reúne importantes forças políticas do Estado.
No Senado, há muito mais espaço em aberto: 58% de indecisos na espontânea representam um eleitorado enorme ainda disponível.
E talvez seja nas proporcionais que os movimentos mais silenciosos aconteçam.
Acompanhe prefeitos. Observe dobradinhas. Repare em quem sobe no palanque de quem. Veja quais candidatos começam a aparecer juntos e quais fotografias antigas deixam de ser repetidas.
A gente não vai acompanhar apenas quem está na frente. Vai acompanhar quem está se mexendo.
A ÚLTIMA LINHA
Esta coluna nasce hoje com uma tarefa simples de explicar e trabalhosa de cumprir: percorrer, toda semana, a eleição pernambucana para separar aquilo que apenas fez barulho daquilo que realmente movimentou o jogo.
Governo, Senado, Câmara Federal, Alepe. Recife e Região Metropolitana, Zona da Mata, Agreste e Sertão. Pesquisa, palanque, prefeito, adesão, rompimento, dobradinha, bastidor.
Porque eleição também se conta pelas margens.
Às vezes, a notícia estará numa pesquisa. Em outras, numa estrada entregue, num prefeito que escolheu seus candidatos, numa cidade visitada repetidamente ou num encontro que ninguém publicou.
Aqui, a intenção é olhar para todos esses sinais. E, todos os sábados, tentar responder a uma pergunta: o que esta semana nos contou sobre o voto que Pernambuco está prestes a dar?
A urna dará a resposta definitiva. Até lá, ficaremos de olho nas pistas.
O voto é secreto. O caminho até ele, nem tanto.
*Jornalista e escritora






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