Por Alê Cavalcanti/ Blog Do Elielson
A campanha eleitoral mal chegou às ruas e eu já recebi uma sugestão curiosa: votar em branco. Não porque eu esteja indecisa. Justamente o contrário. Eu sei em quem pretendo votar para presidente. O problema é que meu voto não coincide com o de uma pessoa muito próxima. E, diante da impossibilidade de me convencer a escolher aquilo que ela considera a melhor opção, veio a alternativa:
A frase ficou comigo. Não pelo candidato. O nome dele é, talvez, a parte menos importante desta crônica. Tampouco pela discordância. Convivo muito bem com pessoas que pensam diferente de mim e espero continuar convivendo. Política deveria comportar debate, argumento, mudança de opinião, divergência – e, principalmente, a possibilidade de duas pessoas se quererem muito bem sem precisar apertar os mesmos números numa urna.
O que me inquietou foi outra coisa. Sou mulher. E talvez por isso a frase tenha encontrado em mim uma história muito mais antiga do que aquela conversa. A campanha começou oficialmente no último domingo, 16 de agosto e propaganda eleitoral vem aí neste dia 28. O primeiro turno será em 4 de outubro.
Teremos semanas de campanha pela frente. Ruas ocupadas, bandeiras, jingles, debates, entrevistas, pesquisas, discussões em mesas de almoço, grupos de WhatsApp pegando fogo e famílias descobrindo, mais uma vez, que amor e concordância política definitivamente não são sinônimos.
Ainda ouviremos muito. E deveríamos. Quero ouvir argumentos. Quero conhecer propostas. Quero ter o direito de concordar, discordar, reconsiderar. Posso, inclusive, mudar de voto. Mas, se mudar, a escolha da mudança também será minha.
Talvez seja essa a palavra desta crônica: escolha. Porque houve um tempo, não tão distante assim, em que mulheres brasileiras precisaram lutar justamente para que essa palavra também lhes pertencesse. O voto feminino só foi reconhecido nacionalmente pelo Código Eleitoral de 1932, que passou a considerar eleitor o cidadão maior de 21 anos “sem distinção de sexo”.
Dois anos depois, a Constituição de 1934 assentou esse direito em bases constitucionais – naquela etapa, porém, a obrigatoriedade do voto ainda não alcançava todas as mulheres, mas as que exerciam função pública remunerada. E há um detalhe histórico que me impressiona ainda mais.
Durante a elaboração do Código de 1932, houve proposta de regras muito mais restritivas para o alistamento feminino. O anteprojeto previa condições específicas para mulheres solteiras, viúvas e casadas; para estas últimas, apareciam inclusive hipóteses relacionadas ao exercício profissional com autorização do marido. Essas limitações não prevaleceram no texto final.
Leio isso em 2026 e penso no tamanho de menos de um século. Não estou falando da Idade Média. Estou falando das nossas bisavós. De mulheres que nasceram num país em que escolher os governantes não era um direito político assegurado a elas nos termos em que é para nós hoje.
Houve pioneiras antes da conquista nacional. Celina Guimarães conseguiu alistar-se no Rio Grande do Norte, em 1927; Alzira Soriano seria eleita prefeita de Lajes, no mesmo Estado, em 1928. Depois vieram tantas outras mulheres que ajudaram a transformar participação política feminina em cidadania efetiva.
E talvez seja importante lembrar uma coisa: o voto feminino não foi conquistado para que as mulheres finalmente pudessem votar igual aos homens de sua casa. Foi conquistado para que pudessem escolher. Parece uma diferença pequena, mas é imensa.
Nenhuma mulher precisa votar diferentemente do marido para provar independência. Também não precisa votar diferentemente do pai, do namorado, do irmão ou dos amigos. Se chegou às próprias convicções e elas coincidem com as de quem está ao lado, ótimo. Liberdade não é discordar obrigatoriamente. Liberdade é não precisar concordar obrigatoriamente.
E é aí que volto àquela sugestão: não tenho absolutamente nada contra quem decide votar em branco. Esse pode ser um posicionamento consciente do eleitor, e a consciência alheia merece o mesmo respeito que reivindico para a minha. Mas eu pessoalmente não quero votar em branco. E votar em branco apenas para que meu voto deixe de contrariar alguém seria uma contradição difícil de engolir.
Depois de tantas mulheres terem lutado pelo direito de escolher, eu estaria usando a minha liberdade para tornar a minha escolha mais confortável para outra pessoa. Não. O direito de escolher só é verdadeiramente um direito quando continua valendo depois que alguém discorda da nossa escolha.
Posso estar errada. Essa frase também precisa caber aqui. Talvez o meu candidato não seja aquele que outra pessoa considera melhor para o país. Talvez eu interprete determinados acontecimentos de maneira diferente. Posso rever posições. Posso ser convencida por fatos, argumentos, propostas. Posso chegar à véspera da eleição e pensar novamente. Democracia também é a possibilidade de mudar de ideia. O que ela não pode exigir é que eu alugue minha consciência.
Há algo especialmente bonito no momento da votação. Entramos sozinhos. A mãe não entra. O pai não entra. O marido não entra. O namorado não entra. A amiga não entra. O chefe não entra. Nem o candidato entra. Talvez existam poucos lugares tão solitários e, ao mesmo tempo, tão povoados quanto aquele pequeno espaço diante da urna.
Porque entramos sozinhos, mas levamos muita gente conosco. Levamos a família que nos formou e as experiências que nos contrariaram. Levamos aquilo que estudamos, ouvimos, vivemos e testemunhamos. Levamos nossos interesses, valores, dúvidas, acertos, erros, esperanças e medos. Levamos até as nossas contradições. Mas há uma coisa que não deveríamos precisar levar: a licença de ninguém.
E penso especialmente nas mulheres porque nossa autonomia não termina na porta da seção eleitoral. Durante séculos, fomos ensinadas a pedir autorização para quase tudo. Para estudar. Trabalhar. Viajar. Casar. Separar. Administrar dinheiro. Ocupar espaços. Falar alto. Desejar. Decidir. Muita coisa mudou. Outras tantas ainda estão mudando. Talvez por isso eu tenha tanta resistência a qualquer ideia de que uma mulher deva neutralizar a própria decisão porque sua escolha desagrada a alguém que ama.
Não quero transformar uma divergência política numa guerra doméstica. Muito pelo contrário. Discordância não precisa ser divórcio afetivo. Talvez uma das provas mais bonitas de democracia nem aconteça no Congresso, num palanque ou num debate televisionado. Talvez aconteça dentro de casa.
Duas pessoas sentadas à mesma mesa. Uma pensa de um jeito. A outra pensa de outro. Discutem. Argumentam. Às vezes se irritam. Talvez até encerrem o assunto antes da sobremesa para preservar a paz familiar. Chega o dia da eleição. Cada uma vota segundo a própria consciência. Depois voltam para a mesma mesa. Isso também é democracia.
Nos próximos dias, ouviremos muito sobre candidatos. A campanha está nas ruas. Até 4 de outubro, haverá tempo para discursos, propostas, conversas, discordâncias e, espero, reflexão. Quero participar disso. Quero ouvir quem pensa diferente. Quero defender aquilo em que acredito sem transformar quem discorda em inimigo. E quero preservar o direito de mudar de ideia sem que ninguém possa reivindicar a autoria da minha consciência.
Não sei se Bertha Lutz, Celina Guimarães, Alzira Soriano e tantas mulheres que abriram caminhos imaginaram as brasileiras que viriam depois delas. Provavelmente não imaginaram a mim, quase um século mais tarde, ouvindo de alguém querido que seria melhor votar em branco porque minha escolha presidencial não coincide com a sua.
Mas gosto de pensar que toda aquela luta serviu também para situações pequenas assim. Não para garantir que eu escolhesse determinado candidato. Não para garantir que eu estivesse certa. Não para me impedir de mudar de opinião. Muito menos para me ensinar em quem votar. Lutaram para que a opinião pudesse ser minha. E isso muda tudo.
Na hora da urna, entrarei sozinha. Talvez eu mantenha o voto que tenho hoje. Talvez alguma coisa até lá me faça repensá-lo. Só existe uma condição que não negocio: se eu permanecer, a decisão será minha. Se eu mudar, também. Porque depois de tantas mulheres terem lutado para conquistar uma voz, seria uma ironia enorme usá-la apenas para repetir a escolha de outra pessoa. Meu voto pode coincidir com o seu. Pode não coincidir. Pode até incomodar você.
Só não precisa da sua licença para existir.
*Jornista e escritora






Seja o primeiro a comentar