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Quando a memória se torna alma de uma cidade

Por Rinaldo Remígio*

Toda cidade carrega em suas ruas, praças e instituições muito mais do que concreto e movimento. Há nelas uma espécie de pulsação silenciosa, feita de afetos, lembranças e histórias que, mesmo quando não registradas, permanecem vivas na memória de seu povo. É essa memória — pessoal e coletiva — que sustenta a alma de uma cidade.

Recentemente, um amigo me provocou com uma pergunta direta: “Professor Remígio, não seria mais importante destacar apenas o que está acontecendo hoje?”. O questionamento, embora legítimo, revela um equívoco comum. O presente importa, sim, mas jamais pode caminhar divorciado do passado. Cada avanço que celebramos hoje só existe porque muitos abriram caminhos quando sequer havia estrada. Negar o passado seria arrancar as raízes que sustentam o que somos.

Em minha casa, costumo ser chamado de saudosista — e assumo essa condição sem reservas. Revisito fotos antigas, releio relatos, mergulho em lembranças das cidades onde vivi e fiz amigos. Para mim, cada imagem é uma viagem, cada registro é uma ponte entre tempos diferentes. E, como toda boa viagem, traz emoção: muitas vezes, escrevendo, as lágrimas chegam antes das palavras. Viajar na memória é um gesto de cura; é reencontrar, reviver e agradecer.

Em fevereiro deste ano, ao visitar minha querida Afogados da Ingazeira, vivi um reencontro que reafirmou essa convicção. Ao lado do jornalista e blogueiro Júnior Finfa, amigo de longas décadas, conversei longamente sobre a importância de resgatar a história de quem construiu a cidade. Naquele diálogo, nasceu a proposta — e o compromisso — de escrever conteúdos voltados à memória dos afogadenses que deixaram legado. Desde então, seguimos firmes nessa tarefa: registrar, honrar e manter viva a história que não pode desaparecer.

E, para quem deseja fazer a mesma viagem no tempo, sem pagar passagem ou reservar hotel, fica a dica: acessem o blog ou o Facebook do historiador Fernando Pires. Talvez não exista em Afogados da Ingazeira acervo mais rico, variado e fiel à história local. Fotografias, vídeos, relatos e documentos formam um mosaico vivo da cidade, onde cada nome encontra seu lugar e cada rosto reocupa o cenário ao qual pertence.

Registrar memórias, no entanto, exige coragem. Quem escreve, quem expõe fatos, quem ilumina o passado, naturalmente se coloca diante das críticas. Aprendi a aceitá-las com serenidade. Críticas passam; o legado permanece.

Porque a memória não é apenas lembrança. Ela é identidade, raiz e pertencimento. Quando celebramos quem fez, reconhecemos quem faz e inspiramos quem ainda fará, edificamos uma cidade mais consciente de si e mais preparada para o futuro.

Preservar a memória — individual ou coletiva — é, antes de tudo, um ato de amor. Amor por quem veio antes, respeito por quem está agora e esperança em quem ainda virá. Uma cidade que cuida da sua história cuida também da sua própria alma.

*Professor universitário aposentado e memorialista!

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