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Sou o que Você me Faz

Por: Milton Oliveira

Se pudéssemos conservar os bons momentos que a vida nos proporciona, certamente eles seriam imorredouros; ocorre, porém, que nossas emoções são como as nuvens; ora nos protegem com a sombra; ora liberam a chuva para irrigar a terra e nos dar alimentos e conforto; ora se dissipam e deixam brilhar o sol escaldante, para que possamos sentir o desconforto do suor, que é a lágrima do corpo.

Lágrimas outras, porém, nos lavam o rosto, quando o espanto da dor sufoca nosso agoniado coração e deixa nossa alma embriagada pelo desgosto. Esses momentos aziagos passam, como os demais também; só nos resta, enfim, o azul do céu profundo, para que entendamos que há algo grandioso acima de nós, basta ter paciência; então, a bem-aventurança se esparge como um bálsamo no nosso raciocínio conturbado.

Fazemos parte de uma construção que se renovar a cada dia, não só na beleza dos sonhos realizados, na dor a espicaçar o coração confrangido, nos malgrados acenos de adeus e nos gratificantes abraços nas pessoas que chegam; sobretudo, naquilo que aceitamos com resignação, capaz de dar ensejo a evolução do nosso espírito.

Não somos, totalmente, senhores das nossas ações; dependemos uns dos outros, ainda mais quando o amor enclavinha seus tentáculos como se fossem dedos de nervosas mãos.

São essas razões, pois, que me vazam os olhos e só consigo enxergar algo através da luz dos seus, castanhos e serenos.

Da sua têmpera de fêmea discreta e consciente dos atos postos à prova do ciúme, resultam o que de mais belo sinto em você: a discrição e a consciência dos seus anseios.

Nos seus lábios macios, carmíneos e sensuais, experimento a seiva da vida, que me renova a cada manhã raiada, como se eu acabasse de nascer, tão logo desfaleci em seus braços, ao embalo da embriaguez das suas ternuras.

No seu corpo esvelto, de linhas bem definidas e tez amorenada, desperto toda vez que morro de prazer, saciado, à semelhança de um enfermo à procura do capitoso encanto com o qual a alma se inebria.

Sou o que você me faz.

Se tenho os olhos ressumados de lágrimas, ou brilha o sorriso nos meus lábios trêmulos; se canto como um louco, ou se me lamento como um desesperado, é porque trago, nas mãos súplices, as emoções que você me presenteia como dádivas divinas.

E se você quiser manter-me aferrado aos seus carinhos, basta dizer-me: Eu te amo. E eu te amo mil vezes mais, bem mais, com intensidade infinda e sempre entorpecido pelo seu amor. Jungida minha alma à sua, o que são algumas variações de sentimento, se a eternidade é o berço do que nós somos?

Se um dia, entretanto, você se cansar dos meus carinhos e desejar partir, pouca preocupação dedique à minha dor e à minha aflição a me fazerem rolar pelo chão como um réprobo ensandecido; deite-me ao lado do caminho e siga sem olhar para trás. Estarei transvestido de negro e do meu peito verterá o vurmo asqueroso que só a anafrodisia consegue prover nesses casos de amor, estupidamente, desfeito.

Porém, se jamais lhe assaltar esse intento tresloucado e miserando, então, você terá, sempre, a paciência e o carinho de um homem, profundamente, apaixonado, que descobriu o amor nas arestas do corpo da mulher amada. Saiba, estarei, hoje e sempre, pronto para lhe adorar e lhe fazer feliz.


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1 Comentário
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Roberto Sampaio
3 meses atrás

Excelente livro, adorei e recomendo.