Brasil, o País dos absurdos.
No primeiro domingo de junho, ao folhear o Jornal do Comércio, começando pelas páginas esportivas, chamavam-me a atenção os preparativos para o amistoso entre Brasil e Inglaterra na reinauguração do Maracanã (RJ), que fora totalmente reformado visando à Copa do Mundo de 2014.
Em seguida fui folheando os outros cadernos, passando pelos “Classificados”, “Imóveis”, “Colunas Sociais”, “Economia” e, por último, cheguei ao caderno “Cidades”, ficando estarrecido com o que li. São coisas que você sabe que existem e não tem a dimensão da sua gravidade.
Faz apenas três anos. Naquele fatídico mês de junho de 2010, a televisão brasileira noticiava a tragédia que abalou a Mata Sul do Estado. Vimos o clamor daquele povo e a euforia das águas carregando tudo que encontrava pela frente. Agora, no final de maio, uma equipe do JC passou pelas três cidades mais atingidas (Água Preta, Barreiros e Palmares) e vejamos uma síntese do que ela apurou:
As cidades da Mata Sul atingidas pela enchente de junho de 2010 vivem entre a espera e o medo. A histórica cheia levou casas, móveis, pertences e uma paz que ainda não foi devolvida. Das 15.342 unidades habitacionais previstas pela Operação Reconstrução, somente 3.132 estão com os novos moradores, três anos depois. O prazo para entrega era março do ano passado. Cansados de aguardar o teto prometido, em discurso efusivo, pelo governador Eduardo Campos, ribeirinhos voltaram ao endereço da tragédia. Retornaram à vizinhança com o perigo e passaram a viver em condições precárias, em residências capengas às margens do Rio Una. Muito já foi reconstruído, mas a burocracia trava o retorno à normalidade.
Barreiros é o município em que a reconstrução caminha a passos mais lentos. A ponte Maria Amália, que dá acesso à região central, ainda não ficou pronta. As vigas enferrujaram. Simbolizam a demora. Uma passarela estreita foi erguida enquanto a obra não é finalizada. A ponte Baité, que liga a vila de mesmo nome ao resto da cidade, também se arrasta. Ainda hoje o cenário é paliativo: balsas atravessam centenas de pessoas por dia, em exercício de paciência e perigo. Estudantes precisam pegar a embarcação para ir à Escola de Referência Anthenor Guimarães. “Quando o rio sobe, a barca não passa”, conta Aldenir José da Silva, 23 anos, que trabalha como atravessador e ganha R$ 600 mensais.
Em Palmares, o Hospital regional, destruído pela enchente, foi reerguido em outro local, livre de risco e numa área duas vezes maior. O antigo prédio, no entanto, não foi demolido. Sem iluminação, atolado de mato e destroços virou ponto de tráfico e consumo de drogas à noite.
Um ano atrás, o governo do Estado apresentou projeto de revitalização da orla do Una em Palmares, com calçadão, ciclovia, pista de cooper e jardins, numa faixa de 1,1 quilômetro. A promessa era terminar a obra até o fim de 2012. A reportagem do JC esteve lá na quarta feira (29/05). Nada foi feito. A orla continua como dantes. Só se vê escombros retratando uma tragédia que só o tempo será capaz de apagar.
Em Barreiros, Palmares e Água Preta, a teimosia do povo é remédio contra a lentidão do poder público. Só 20,41% das habitações prometidas foram entregues. A solução foi fazer o caminho de volta para o que sobrou das antigas casas, às margens do Una, leito de seus dramas e pesadelos.
Paralelamente aos fatos narrados, vimos o andamento dos trabalhos para a realização da Copa do Mundo de 2014, aqui no Brasil. Como é do conhecimento de todos, ninguém acreditava que essas obras seriam concluídas em tempo hábil, mas, desafiando a tudo e a todos, a nossa competentíssima Dilma Rousseff inaugurou o Castelão (Fortaleza), o Mané Garrincha (Brasília), a Arena Pernambuco ou Itaipava, em São Lourenço da Mata, O Mineirão (BH) e o Maracanã, no Rio de Janeiro, por antecipação, por conta da Copa das Confederações..Problemas houve, mas foram superados.
O Mané Garrincha foi interditado várias vezes por denúncia de superfaturamento; outros, por contrariarem o projeto inicial ou por exigência de reajuste. O mais importante é que o Governo Federal e os Estaduais envolvidos cumpriram o seu papel. Isso aí só vem reforçar o que dizemos diariamente: “quando se quer, se faz”.
Aqui mesmo em Pernambuco, segundo matéria do caderno Economia do JC de 30 de maio, o valor inicial da obra era de R$ 532 milhões, mas, visando à conclusão para maio/2013 em função da Copa das Confederações, o preço passou para 650 milhões, ou seja, uma acrescimozinho bobo de 22,18%, o que representa em números 118 milhões. Não entendi bem essa distorção, porque, ao ser assinado o contrato com a Odebrecht, já se sabia que a Arena seria usada na Copa das Confederações. Mas, ao que se sabe, o Estado determinou que se concluísse o que era preciso, independentemente dos custos.
Não entendi, também, porque em tempo igual ou superior ao gasto com as obras da Copa, o governo do Estado só concluiu 20,41% do que foi pactuado com os nossos irmãos que correm o risco de serem engolidos pelo rio Una. As explicações devem ser: burocracia, falta de dinheiro ou porque gostamos de ser chamados de “o País dos absurdos”. Ou será falta de vontade política? E o slogan de campanha presidencial que o governador vem usando, quando diz que “É possível fazer mais”, aonde se encaixa nessa história?
Por: Danizete Siquera de Lima




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