Por Rinaldo Remígio*
Na noite de ontem, nas dependências da Fundação Nilo Coelho, Petrolina não apenas celebrou uma data — reverenciou uma história. O centenário do Doutor Geraldo Coelho foi mais do que uma efeméride; foi um reencontro com as raízes de uma liderança que ajudou a moldar o destino de uma região inteira.
Engenheiro por formação, empresário por vocação e político por missão, Doutor Geraldo construiu uma trajetória que ultrapassa cargos e mandatos. Foi vereador, deputado estadual, homem público de decisões firmes e, sobretudo, um sertanejo que compreendia, como poucos, a alma do povo que representava.
Mas havia algo que o distinguia de maneira ainda mais profunda: carregava no sangue o desejo genuíno de ajudar. Não apenas com palavras ou promessas, mas mostrando caminhos, abrindo portas, criando oportunidades. Essa vocação se materializou de forma marcante quando esteve à frente da Fundação Nilo Coelho, onde dedicou anos de sua vida na busca incessante por formação profissional e inclusão social para a sua gente. Ali, mais do que gestor, foi um verdadeiro semeador de esperanças.
A solenidade reuniu autoridades, familiares e amigos — um público que não estava ali apenas por protocolo, mas por reconhecimento. Cada presença carregava uma memória, um gesto, um ensinamento. E foi justamente por meio dessas lembranças que a figura do homenageado ganhou ainda mais vida.
Chamaram atenção os relatos emocionados de ex-assessores que conviveram de perto com o líder. Nomes como Chico Tim, Flávio Cabral, José Batista e Beatriz Barreto e do vereador Wenderson Batista, trouxeram à tona não apenas fatos, mas o estilo peculiar de fazer política de Doutor Geraldo — uma política de proximidade, de escuta atenta, de compromisso com a palavra empenhada.
Não se tratava de uma política distante, de gabinetes fechados. Ao contrário. Era no contato direto com o homem simples do sertão que ele encontrava o verdadeiro sentido da vida pública. Sabia ouvir, sabia orientar e, acima de tudo, sabia respeitar. Talvez por isso tenha construído uma relação tão sólida com a população sertaneja, baseada na confiança e na presença constante.
Um dos momentos mais marcantes da noite veio através do depoimento de seu irmão, Doutor Augusto Coelho, que trouxe à memória passagens fundamentais da juventude do homenageado. Recordou que o pai, o Cel. Clementino Coelho, visionário e comprometido com a educação dos filhos, enviou o jovem Geraldo para estudar em uma das mais renomadas escolas de engenharia do país, a tradicional Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.
Ali começava a formação de um profissional que, logo após concluir seus estudos, participou de um dos maiores empreendimentos do Brasil à época: a construção da Hidrelétrica de Paulo Afonso. Experiência que não apenas consolidou sua base técnica, mas também ampliou sua visão de desenvolvimento e progresso.
Após esse período, como bem destacou o irmão, o jovem engenheiro fez o caminho de volta. Retornou a Petrolina — não por falta de oportunidades, mas por convicção. Sabia que sua missão estava aqui, junto ao seu povo, contribuindo para o crescimento de sua terra natal.
Permita-me, neste momento, um registro pessoal. O que me aproximou ainda mais da grandeza de Doutor Geraldo foi quando tive a honra de assumir a presidência da FACAPE. Ao buscar, nos registros históricos, compreender a origem e os primeiros passos da instituição, deparei-me com a coragem e a visão de quem ousou iniciar o ensino superior em nossa região.
Não apenas fundou a FACAPE, mas, nos momentos iniciais — marcados por limitações e desafios — não hesitou em buscar, no Recife, os primeiros professores que viriam dar sustentação ao projeto. As atividades começaram de forma provisória, nas instalações da antiga FFPP, hoje UPE – Campus Petrolina. Tudo isso constitui uma prova inconteste de sua profunda preocupação com a formação dos filhos desta terra.
Outro momento marcante da noite foi a participação do neto, o vice-prefeito de Petrolina, Ricardo Coelho, que, ao representar a nova geração, simbolizou a continuidade de um legado que não se limita ao sobrenome, mas se expressa nos valores transmitidos ao longo das décadas.
Falar de Doutor Geraldo Coelho é, inevitavelmente, falar de família. Uma família que sempre esteve ao seu lado, sustentando, apoiando e, muitas vezes, compartilhando dos desafios da vida pública. Sua história pessoal se entrelaça com a história de Petrolina, num testemunho de dedicação que vai além do indivíduo e alcança o coletivo.
Ao longo da cerimônia, ficou evidente que sua forma de fazer política permanece atual — talvez até mais necessária nos dias de hoje. Em tempos de distanciamento entre representantes e representados, sua trajetória nos lembra que a verdadeira liderança nasce do compromisso com as pessoas, do olhar humano e da responsabilidade com o bem comum.
Celebrar o seu centenário é, portanto, mais do que lembrar o passado. É reafirmar princípios. É reconhecer que o desenvolvimento de uma região passa, inevitavelmente, por homens e mulheres que compreendem sua missão com grandeza.
Doutor Geraldo Coelho não foi apenas um político. Foi um construtor de caminhos, um formador de gerações e um exemplo de que é possível fazer da vida pública um instrumento de transformação.
E, naquela noite, entre aplausos, memórias e emoções, Petrolina deixou claro: algumas histórias não se encerram — tornam-se permanentes.
*Professor universitário aposentado, administrador, contador, historiador e mestre em economia!