Por Rinaldo Remígio*
Há homens cuja biografia não começa nos gabinetes nem termina nos títulos. Começa no chão duro da vida e se alonga na dignidade com que enfrentam cada etapa do caminho. Assim foi a história de José Virgínio Nogueira, magistrado que honrou a toga porque, antes dela, aprendeu o valor do trabalho, da família e da perseverança.
Filho do senhor Manoel José Virgínio e da senhora Quitéria Nogueira de Souza, José Virgínio nasceu em 15 de setembro de 1929, em Afogados da Ingazeira (PE). Desde cedo conheceu o esforço cotidiano. Trabalhou por muitos anos na colheita do algodão, experiência que moldou não apenas suas mãos, mas, sobretudo, seu caráter. Ali, entre o sol forte e o trabalho árduo, aprendeu que nenhuma conquista verdadeira prescinde de sacrifício. Foi desse chão simples que brotou o sonho do estudo, alimentado pela disciplina e pelo desejo de ir além, sem jamais negar suas origens.
Ao formar-se em Direito, seguiu para a Paraíba, onde construiu uma carreira reconhecida como brilhante no Tribunal de Justiça daquele Estado. A toga que passou a vestir não o afastou da humanidade; ao contrário, foi instrumento para exercê-la com equilíbrio, justiça e sensibilidade social. Magistrado respeitado, fez do Direito não um exercício frio da lei, mas um compromisso com a justiça possível, humana e responsável.
Sua vida familiar foi o alicerce silencioso dessa trajetória. No ambiente do lar, firmaram-se os valores que ele levaria para a vida pública: responsabilidade, retidão, respeito às pessoas e profundo senso de dever. Foi na família que encontrou forças para perseverar e referências para decidir, sempre guiado pela consciência de que o êxito profissional só tem sentido quando sustentado por princípios sólidos.
Guardo, ainda, uma lembrança pessoal que ajuda a compreender a grandeza simples desse homem. Eu, ainda adolescente, conheci José Nogueira quando ele vinha visitar sua terra natal. À época, residíamos em um imóvel de sua propriedade, situado na Avenida Rio Branco, nº 92, no centro da cidade. Ali tive também a oportunidade de conhecer sua esposa, dona Terezinha, e três de seus filhos: Alberto e Cláudio, que mais tarde se tornariam desembargadores do Tribunal de Justiça de Pernambuco, e Márcia Lúcia. A esta última tive, inclusive, o privilégio de apresentar meu primo Flávio Patriota, que também trilhou o caminho do Direito, exercendo a magistratura, quando de uma visita à nossa querida Afogados da Ingazeira. Eram encontros breves, mas suficientes para revelar um homem afável, respeitoso e profundamente ligado à família — traços que explicam, em grande medida, a solidez de sua trajetória humana e profissional.
Além das informações colhidas nos escritos do historiador Fernando Pires e de sua nora Lúcia Nogueira, escritora e poetisa, registro também o testemunho do meu irmão, Reginaldo Remígio, que foi seu colega quando ambos lecionaram no Ginásio Monsenhor Pinto de Campos. Dele ouvi reiteradas referências à idoneidade moral, à amizade sincera e, sobretudo, ao compromisso firme desse educador e magistrado com o ensino e com a formação do povo de sua terra — um traço menos conhecido do grande público, mas essencial para compreender a inteireza do homem para além da toga.
À luz dos registros reunidos e sistematizados por Fernando Pires e Lúcia Nogueira, sua trajetória também foi marcada por intensa atuação no serviço público, no magistério e na vida institucional. Ainda jovem, exerceu funções técnicas e administrativas, lecionou em instituições tradicionais de Afogados da Ingazeira e teve passagem pela vida política local, sendo eleito vereador como o mais votado. Por coerência ética e respeito às instituições, renunciou ao mandato ao assumir a magistratura. Na Paraíba, exerceu com zelo o cargo de juiz de Direito em diversas comarcas, atuando como titular e substituto, sendo reconhecido e homenageado pelos relevantes serviços prestados à sociedade.
José Virgínio Nogueira partiu em 2006, mas permanece vivo na memória da cidade que o viu nascer, na história do Judiciário nordestino e, sobretudo, na lição que deixou: a de que é possível sair da lavoura para a magistratura sem perder a simplicidade, subir sem esquecer de onde se veio, julgar sem jamais deixar de ser humano.
Sua vida é prova de que a verdadeira grandeza não está no cargo que se ocupa, mas na forma como se chega até ele — e no legado de valores que se deixa para as próximas gerações.
Fica registrada esta homenagem que fazemos ao ilustre filho de Afogados da Ingazeira, Doutor José Virgínio Nogueira.
*Professor universitário aposentado e amigo da família.
**Foto e informações: Fernando Pires e Lúcia Nogueira.