Por Rinaldo Remígio
Há vidas que, mesmo após o fim, continuam ensinando. São como livros abertos que não se fecham com a última página, mas permanecem repousando sobre a mesa da memória, onde tantos já aprenderam a ler a esperança, a disciplina, a força e o amor pelo saber. Assim foi— a vida da professora Ione de Góes Barros, uma mestra em toda a extensão da palavra e em todos os cantos por onde passou.
Celebrar 101 anos do seu nascimento, não é por mera contagem do tempo, mas por reverência à grandeza de uma mulher que construiu sua história à base de esforço, vocação e paixão pela educação. Filha de João Cecílio de Barros e Julieta de Góes Barros, nasceu em 13 de setembro de 1924, no coração de Afogados da Ingazeira, numa casa onde as paredes guardavam tradição, e os livros, valores.
Educada primeiramente pelos próprios pais — uma herança que carregaria com orgulho, Ione traçou um caminho árduo, interrompido por dificuldades financeiras, atravessado por luto precoce com a perda do pai, mas jamais abandonado. Entre internatos e transferências, entre cidades e estações, foi vencendo, passo a passo, com a serenidade firme dos que sabem aonde querem chegar.
Diplomada como professora do Curso Normal Rural em 1944, iniciou sua carreira com os pés literalmente no barro, indo a pé ou na garupa de um cavalo para lecionar em Ibitiranga. A travessia era física, mas sobretudo simbólica: onde muitos viam cansaço, ela via missão. Depois, retornou a Afogados, e ali semeou décadas de ensino, de liderança e de transformação.
Dirigiu o Colégio Normal Estadual de Afogados da Ingazeira por 22 anos, com uma postura que misturava rigor e doçura, pulso firme e coração aberto. Com uma energia que parecia inesgotável, ela não apenas ensinava — empurrava os colegas e os tempos para frente. Convocava professores, inspirava gestores, provocava mudanças. Ela própria nunca se deu ao luxo de parar: fez Letras, Direito, Pedagogia, Administração Escolar, participou de congressos, fez cursos em diferentes regiões do estado, e ainda arranjou tempo para formar os irmãos e ajudar os que cruzavam seu caminho. Em tempos sem redes sociais, Ione era uma rede viva de apoio.
E o mais curioso: mesmo com diploma de Direito e carteira da OAB, nunca trocou a lousa pelo tribunal. Escolheu continuar sendo professora. Porque o que a movia não era status, nem salário — era um chamado. E como ela mesma disse com a sabedoria de quem viveu profundamente: “a melhor compensação é fazer o trabalho que você gosta, receber o agradecimento de pais, alunos, professores. Isso, não há dinheiro que pague.”
No fim da tarde do dia 22 de julho de 2011, aos 86 anos, ela se despediu deste mundo, e o céu ganhou uma educadora. Mas não se enganem: o corpo se foi, sim, mas a professora ficou. Ficou no Colégio que ajudou a erguer, nos cadernos dos seus alunos, nas conversas entre ex-professores que ela liderou, nos corredores da Faculdade de Formação de Professores, nas histórias contadas por quem teve o privilégio de cruzar com ela em sala de aula ou na vida.
Ione de Góes Barros vive em cada um que hoje ensina, que coordena uma escola, que acredita na educação pública, que luta contra as dificuldades, que não desiste de aprender. Porque ela não ensinava só conteúdos — ensinava coragem, responsabilidade, amor ao ofício.
Hoje, ao lembrarmos seu centenário, é impossível não sentir orgulho. Orgulho de ter tido, no sertão de Pernambuco, uma mulher à frente de seu tempo, que nunca parou de estudar, nunca parou de ensinar, nunca parou de acreditar.
Professora Ione, seu quadro negro virou memória viva. E sua lição mais bonita continua escrita em nós.
*Professor universitário aposentado e memorialista!
Fonte: Fernando Pires e Blog do Finfa