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Carnaíba: A terra onde o Sertão aprendeu a cantar

“Carnaíba de Zé Dantas,
Meu abraço fraternal.
Terra que no beira rio
Jogava o comercial
Nos deu Gilson Malaquias
Um músico fenomenal.”

Ademar Rafael

Por Rinaldo Remígio*

Existem cidades que são lembradas por seus monumentos, suas paisagens ou pela força de sua economia. Carnaíba, porém, é reconhecida principalmente por aquilo que não se pode tocar, mas que todos conseguem sentir: a música.

No coração do Sertão do Pajeú, onde a caatinga aprende a resistir e o povo transforma dificuldade em esperança, Carnaíba construiu uma identidade própria. É uma cidade que parece ter nascido acompanhada por uma sanfona, pelo toque dos metais de uma filarmônica e pelos versos daqueles que aprenderam a traduzir o Sertão em poesia.

Com uma população estimada em aproximadamente 19.551 habitantes, Carnaíba preserva a tranquilidade das pequenas cidades sem abrir mão do desejo de crescer. Sua maior riqueza continua sendo o povo carnaibano: trabalhador, hospitaleiro, religioso e profundamente ligado às tradições culturais do Pajeú. São pessoas que carregam no cotidiano a resistência de quem conhece as limitações do clima, mas também a criatividade de quem aprendeu a florescer em meio à caatinga.

Segundo nossa pesquisa, alguns historiadores e registros locais narram que a história de Carnaíba começou muito antes de sua organização como povoado. Inscrições e desenhos encontrados em pedras da região indicam a presença de povos indígenas, especialmente dos Cariris, primeiros habitantes destas terras.

O próprio nome do município guarda uma relação profunda com a natureza sertaneja. Carnaíba teria surgido como uma variação de “carnaúba”, palmeira que existia em abundância na região. Suas folhas eram utilizadas para cobrir barracas durante as festividades de Santo Antônio, ligando, desde os primeiros tempos, o nome da cidade à fé, ao trabalho e à convivência comunitária.

Em meados do século XIX, João Gomes dos Reis e o tenente-coronel Saturnino Bezerra estabeleceram-se na localidade. Por volta de 1870, João Gomes dos Reis construiu uma capela dedicada a Santo Antônio e um pequeno cemitério nas terras da antiga Fazenda Lagoa da Barroca. Ao redor da capela, as casas foram surgindo, as famílias foram chegando e a comunidade começou a ganhar forma. Assim, como aconteceu com tantos municípios sertanejos, Carnaíba cresceu sob a proteção da fé e pela força do trabalho de sua gente.

O distrito foi criado em 29 de julho de 1893. Décadas depois, a Lei Estadual nº 1.818, de 29 de dezembro de 1953, criou oficialmente o município, cuja emancipação política é celebrada em 30 de dezembro. Era o nascimento administrativo de uma terra que já possuía história, identidade e um sentimento coletivo de pertencimento.

Mas Carnaíba não se tornou conhecida apenas por sua trajetória política. O município conquistou o título de Terra da Música porque fez da arte uma de suas formas mais legítimas de expressão. Aqui, a música não é somente entretenimento. É herança, educação, memória, identidade e oportunidade.

Foi neste chão que nasceu José de Sousa Dantas Filho, o inesquecível Zé Dantas, médico, poeta, compositor e pesquisador das tradições populares. Ao lado de Luiz Gonzaga, Zé Dantas ajudou a revelar ao Brasil a linguagem, os costumes, as dores e as alegrias do povo nordestino.

Canções como Vem Morena, A Volta da Asa Branca, Sabiá, Cintura Fina e Riacho do Navio atravessaram gerações. Mais do que composições, tornaram-se retratos cantados do Nordeste. Zé Dantas compreendeu que o Sertão não precisava esconder seu sotaque para ser ouvido pelo país. Pelo contrário: quanto mais autêntica fosse sua linguagem, maior seria sua força.

Se Zé Dantas transformou o sentimento sertanejo em canção, outro filho ilustre de Carnaíba ajudou a dar elegância, ritmo e grandeza orquestral à música pernambucana: Egerton Verçosa do Amaral, conhecido como Beto da OARA e também como Beto do Trombone.

Nascido em Carnaíba, Beto da OARA saiu ainda jovem em busca de seus sonhos. A música o conduziu a novas cidades e experiências, mas suas raízes permaneceram ligadas ao Pajeú. Com talento, disciplina e visão artística, tornou-se maestro, instrumentista e um dos grandes nomes da música de baile em Pernambuco.

Em 28 de outubro de 1958, Beto fundou, em Arcoverde, a Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos — OARA. A iniciativa atravessou décadas, embalou casamentos, formaturas, festas tradicionais e grandes celebrações. A orquestra conquistou públicos dentro e fora do Brasil, tornando-se patrimônio afetivo de várias gerações.

Beto da OARA é, portanto, uma ponte entre Carnaíba e Arcoverde. Carnaíba lhe deu o berço, as primeiras referências e o sentimento musical; Arcoverde ofereceu o espaço onde seu sonho ganhou forma e se transformou em uma das mais respeitadas orquestras de baile do Nordeste. Seu nome honra as duas cidades e engrandece toda a cultura pernambucana.

Ao fundar a OARA, o maestro não criou apenas um conjunto musical. Criou uma escola de profissionalismo, disciplina e respeito ao público. Muitos músicos encontraram na orquestra uma oportunidade de trabalho e aprendizado. Muitas famílias guardam até hoje lembranças de momentos especiais embalados por seus arranjos.

A trajetória de Beto da OARA confirma algo que Carnaíba parece ensinar desde cedo aos seus filhos: a música é capaz de atravessar fronteiras sem abandonar suas raízes. Pode sair do Pajeú, percorrer o Brasil e chegar a outros países, mas sempre carregará consigo alguma lembrança do chão onde nasceu.

E essa herança musical não parou em Beto. Ao lado de Dona Marli, ele constituiu uma família numerosa, e quase todos os seus dez filhos encontraram, de alguma forma, um caminho ligado à música. Entre os grandes destaques estão os meus amigos Elaque Amaral, Gertinho e Betinho. Elaque, músico e cantor, assumiu a direção da Super OARA, enquanto os irmãos também fizeram da música parte de suas trajetórias e ajudaram a manter vivo o legado artístico iniciado pelo pai. Assim, Carnaíba não colocou no mundo apenas um grande maestro: ajudou também a formar uma família que transformou a música em vocação, trabalho e continuidade.

Outro nome que merece lugar de destaque nesta história é o do meu amigo de adolescência Daniel Bueno, cantor, compositor, escritor e dedicado pesquisador da música brasileira. Filho de Carnaíba, Daniel construiu uma trajetória marcada tanto pela música romântica quanto pelos ritmos nordestinos, especialmente o forró pé de serra. Em suas composições e pesquisas, preserva a memória de Luiz Gonzaga, de Zé Dantas e de tantos artistas que deram voz ao povo nordestino. Sua produção artística e intelectual confirma que a vocação musical carnaibana continua viva, renovando-se sem perder suas raízes.

A vocação musical do município também está presente em suas bandas filarmônicas, nos professores de música, nos instrumentistas populares e nas crianças e nos jovens que encontram na arte uma oportunidade de formação. A tradicional Filarmônica Santo Antônio, fundada em 1917, é uma das expressões dessa continuidade cultural. Cada jovem que aprende as primeiras notas ajuda a manter viva uma história iniciada muito antes de seu nascimento.

Carnaíba demonstra, assim, que investir em cultura não é luxo. É cuidar da memória, formar cidadãos e oferecer caminhos para as novas gerações. Uma escola de música pode afastar um jovem da vulnerabilidade, despertar talentos e revelar ao mundo novos Zés Dantas, novos Betos da OARA, artistas com a sensibilidade de Daniel Bueno e tantos outros talentos que ainda esperam sua primeira oportunidade.

A economia carnaibana acompanha as características dos pequenos municípios sertanejos. A administração pública e o setor de serviços possuem grande participação na movimentação econômica, enquanto o comércio, a agricultura familiar, a pecuária e as pequenas atividades produtivas garantem renda e ocupação para muitas famílias.

Na zona rural, o agricultor continua enfrentando os desafios da irregularidade das chuvas, do calor intenso e das limitações naturais do semiárido. Ainda assim, planta, cria, produz e resiste. Na cidade, comerciantes, servidores públicos, profissionais liberais, artesãos, empreendedores e trabalhadores movimentam diariamente a economia local.

A Festa de Santo Antônio reúne religiosidade, reencontros e tradição. É o momento em que filhos da terra retornam, famílias se reúnem e a cidade reafirma sua fé. Os sinos da igreja, os instrumentos das bandas e as conversas nas calçadas compõem uma mesma melodia: a melodia da vida carnaibana.

Administrar um município com tamanha riqueza histórica e cultural exige responsabilidade. A atual gestão é conduzida por Wamberg Antônio Gomes Amaral, popularmente conhecido como Berg Gomes, ao lado do vice-prefeito Cícero Batista Lima, conhecido na cidade como Cícero Batista. Registramos os nomes dos gestores da forma como são efetivamente conhecidos pela população, sem afastar suas identificações oficiais.

Cabe à atual administração dar continuidade ao trabalho construído ao longo do tempo por diferentes gestores, servidores e lideranças comunitárias. Cada governo, dentro de suas possibilidades, deixou alguma contribuição para o desenvolvimento do município. Estradas, escolas, unidades de saúde, espaços públicos, ações sociais e projetos culturais são resultados de uma história administrativa que não começou agora e que deverá continuar depois dos atuais ocupantes dos cargos.

Berg Gomes e Cícero Batista têm diante de si a responsabilidade de cuidar de uma cidade que exige investimentos em saúde, educação, abastecimento de água, infraestrutura urbana, estradas rurais, agricultura familiar, geração de emprego e preservação cultural. Governar a Terra da Música significa também garantir que a cultura permaneça acessível às crianças e aos jovens, alcançando tanto a sede quanto os distritos, povoados e comunidades rurais.

A população, por sua vez, também participa dessa construção. Uma cidade não é feita somente por seus gestores. É construída pelo professor que ensina, pelo agricultor que planta, pelo profissional de saúde que acolhe, pelo comerciante que acredita, pelo músico que ensaia, pelo servidor que atende e por cada cidadão que acompanha, cobra e colabora com a administração pública.

Carnaíba é pequena quando observada apenas pelos limites do mapa. Culturalmente, porém, é imensa. Poucos municípios podem se orgulhar de ter oferecido ao Brasil talentos como Zé Dantas, Beto da OARA, seus filhos — com destaque para Elaque Amaral, Gertinho e Betinho — e Daniel Bueno. Zé Dantas ajudou a transformar a alma do Nordeste em canção; Beto e sua família mostraram que a música nascida no Sertão poderia ganhar arranjos grandiosos, atravessar salões, estados e países; e Daniel Bueno continua honrando essa herança como cantor, compositor e estudioso da música brasileira.

Talvez seja por isso que, em Carnaíba, o silêncio nunca seja completo. Mesmo quando os instrumentos descansam, permanece no ar alguma lembrança musical. É o eco de uma filarmônica atravessando a praça, o som distante de uma sanfona, a poesia de Zé Dantas, a elegância de um arranjo conduzido por Beto da OARA, a continuidade musical representada por Elaque, Gertinho e Betinho ou a voz de Daniel Bueno celebrando as raízes do Nordeste.

Carnaíba é a terra onde a carnaúba ajudou a dar nome ao lugar, onde Santo Antônio reuniu os primeiros moradores ao redor da fé e onde a música encontrou morada permanente.

Enquanto houver uma criança aprendendo as primeiras notas, um agricultor acreditando na próxima chuva, uma família preservando suas tradições e um gestor compreendendo a importância de cuidar de seu povo, Carnaíba continuará cumprindo sua missão.

Porque Carnaíba não é apenas a Terra da Música.

Carnaíba é uma canção que o Sertão compôs — e que o tempo jamais conseguirá silenciar.

*Professor universitário aposentado, administrador de empresas, contador, historiador e mestre em economia.

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