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Brejinho: Onde nasce o Pajeú e floresce a força do sertão

“Hoje o meu abraço vai
Para o povo de Brejinho
Onde a poesias faz
Em cada arbusto um ninho
E a terra que João Pedro
Cuidou com todo o carinho”

Por: Ademar Rafael

Por Rinaldo Remígio*

Há cidades que nascem às margens de um rio. Brejinho possui um privilégio ainda maior: é em suas terras que nasce o próprio Rio Pajeú. Antes de atravessar o Sertão, alimentar histórias e inspirar poetas, suas águas brotam na Serra da Balança, na divisa entre Pernambuco e Paraíba. Por essa razão, o município carrega, com justiça e orgulho, o título de “Terra Mãe do Rio Pajeú”.

Localizada no Alto Sertão do Pajeú, a aproximadamente 415 quilômetros do Recife, Brejinho é uma pequena cidade em população, mas imensa em significado histórico, cultural e ambiental. Segundo estimativa do IBGE para 2026, o município possui pouco mais de oito mil habitantes. Além da sede, seu território compreende os povoados de Vila de Fátima, Lagoinha e Placas de Piedade, bem como diversas comunidades rurais onde permanecem vivos os costumes e os valores do povo sertanejo.

A história de Brejinho começou muito antes de sua emancipação política. Há registros da presença de famílias na região desde o século XIX, quando aquelas terras serviam de passagem para comerciantes que transitavam entre Teixeira, na Paraíba, e o Alto Pajeú pernambucano.

Entretanto, foi no dia 6 de fevereiro de 1928 que a comunidade começou efetivamente a tomar forma. Na casa de Manoel Simão da Silva, conhecido como Seu Paizinho, no sítio Brejo de José Nunes, o padre João Leite Gonçalves de Andrade celebrou a primeira missa daquela localidade. A partir daquele encontro de fé, o religioso também incentivou a criação de uma feira livre, atraindo comerciantes e moradores das redondezas.

Assim, Brejinho nasceu da união de três elementos fundamentais para a formação das cidades sertanejas: a fé, o trabalho e a convivência comunitária.

Pouco depois, iniciou-se a construção da Capela de São Sebastião, concluída em janeiro de 1932. Naquele mesmo ano aconteceu a primeira festa dedicada ao padroeiro. A celebração atravessou gerações e permanece como uma das manifestações religiosas e culturais mais importantes do município. Todos os anos, no mês de janeiro, filhos da terra, moradores das comunidades rurais e visitantes reencontram-se para renovar a fé, preservar as tradições e fortalecer os laços de pertencimento.

Brejinho pertenceu inicialmente a São José do Egito. Com a emancipação de Itapetim, em 1953, passou a integrar o território do novo município. Em 10 de abril de 1962, o povoado foi elevado à condição de distrito. A autonomia municipal veio por meio da Lei Estadual nº 4.996, de 20 de dezembro de 1963, que entrou em vigor no primeiro dia de 1964.

A instalação oficial do município ocorreu em 22 de fevereiro de 1964, com a posse do prefeito interino Ivo Vicente Ferreira. Em 1965, José Severino de Araújo tornou-se o primeiro prefeito escolhido pelo voto popular. Começava, assim, uma nova etapa da caminhada política e administrativa da cidade.

Mas Brejinho não guarda apenas a história mais recente. Em localidades como os sítios Belém, Caldeirão e Laje do Agostinho encontram-se formações rochosas e registros rupestres que apontam para ocupações humanas muito antigas. Pedra do Letreiro, Pedra Bonita, Pedra do Índio, Pedra do Milho, Pedra Grande e Gruta do Morcego formam um patrimônio natural e arqueológico que merece ser conhecido, estudado e preservado.

A Igreja Matriz de São Sebastião, o Açude da Serraria, a Casa de Manoel Lulu, a Pedra do Papa e, sobretudo, a nascente do Rio Pajeú completam um conjunto de riquezas com grande potencial turístico. Esse patrimônio ganhou maior projeção com a inclusão de Brejinho no Mapa do Turismo do Brasil, em dezembro de 2025.

Entre todas essas riquezas, a nascente do Pajeú ocupa lugar especial. De acordo com a Agência Pernambucana de Águas e Clima, o rio nasce na Serra da Balança e percorre aproximadamente 353 quilômetros até encontrar as águas do São Francisco, no Lago de Itaparica. Sua bacia hidrográfica, a maior de Pernambuco, ocupa cerca de 17% do território estadual.

É emocionante imaginar que um rio tão presente na geografia, na economia, na memória e na poesia sertaneja começa discretamente em solo brejinhense. O Pajeú nasce pequeno, mas cresce durante o caminho — exatamente como tantas cidades do Sertão, cuja grandeza não se mede apenas pelo tamanho, mas pela capacidade de alimentar sonhos, histórias e esperanças.

Brejinho também está inserida na tradição poética do Pajeú. Um de seus filhos mais representativos foi o poeta e cantador João Izidro Ferreira, nascido em 1897 no sítio Serraria. Viajando a cavalo, cantou em feiras, residências e salões, dividindo desafios com nomes como Lourival Batista, Pinto do Monteiro, Jó Patriota e Pedro Amorim. Sua trajetória ajuda a demonstrar que a cantoria de viola encontrou em Brejinho terreno fértil para criar raízes. Ao lado dele, também são lembrados poetas brejinhenses como Pedro Jacinto, Vital Paca e Nicolau.

Essa proximidade com Teixeira, na Paraíba, um dos berços da cantoria nordestina, transformou Brejinho em uma importante porta de entrada da poesia improvisada no Pajeú. Ali, a palavra cantada atravessou serras, feiras e gerações, tornando-se parte inseparável da identidade brejinhense.

Como tantas cidades do semiárido, Brejinho enfrentou longos períodos de escassez de água. Por isso, a implantação do Ramal Ambó–Brejinho, integrado ao Sistema Adutor do Pajeú, representou uma conquista histórica. A chegada das águas do São Francisco trouxe maior segurança hídrica à população. Posteriormente, foram iniciadas extensões destinadas aos povoados de Lagoinha e Vila de Fátima, ampliando a esperança de melhores condições de vida para as comunidades.

Brejinho continua avançando por meio da agricultura, do pequeno comércio, dos serviços, do empreendedorismo e do trabalho diário de seu povo. Cada rua pavimentada, cada praça recuperada, cada escola fortalecida e cada melhoria no abastecimento representam conquistas construídas coletivamente.

Conhecer Brejinho é compreender que a grandeza de uma cidade não depende do número de habitantes nem da extensão de seu território. Depende da força de sua história, da dignidade de seu povo e da contribuição que oferece à região onde está inserida.

Brejinho é terra de fé e trabalho, de vaqueiros e agricultores, de cantadores e contadores de histórias. É lugar onde a caatinga resiste, a poesia encontra abrigo e a água inicia sua longa caminhada pelo Sertão.

Pequena no mapa, mas grandiosa na memória do Pajeú, Brejinho é a terra onde nasce um rio e de onde continuam brotando histórias, versos, sonhos e esperanças.

*Professor universitário aposentado, administrador de empresas, contador, historiador e mestre em economia!

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