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Deinha: o sertanejo de Afogados que teve a missão de marcar Maradona

Por Rinaldo Remígio*

Existem pessoas que o tempo insiste em esconder nas páginas da história. Não porque lhes tenha faltado talento, coragem ou dedicação, mas porque a velocidade da vida moderna faz com que esqueçamos aqueles que, em determinado momento, levaram o nome de sua terra muito além de suas fronteiras. Felizmente, ainda existem homens que se dedicam a preservar essas memórias, impedindo que elas se percam com o passar dos anos.

Foi exatamente esse sentimento que tomou conta de mim ao procurar mais informações sobre Deinha, o inesquecível ex-jogador afogadense que brilhou no Santa Cruz Futebol Clube e teve a histórica missão de marcar o então jovem Diego Armando Maradona. Nessa busca, deparei-me com uma belíssima crônica do querido amigo e irmão Ademar Rafael, profundo conhecedor da história do Pajeú e um verdadeiro guardião da memória do nosso povo.

Ao concluir a leitura, fui transportado para quase cinquenta anos atrás.

No ano de 1979, durante uma viagem ao Recife, fiz questão de visitar Deinha no Estádio do Arruda. Até então, eu o conhecia apenas como aquele jovem talentoso que havia despontado nos campos de Afogados da Ingazeira e que começava a construir sua trajetória no futebol profissional.

Apresentei-me, e fui recebido com a simplicidade que sempre caracterizou os grandes homens. Com um sorriso no rosto, levou-me ao alojamento dos jogadores, mostrou-me as dependências do clube e falou, com brilho nos olhos, da felicidade que vivia ao defender as cores do Santa Cruz, um dos maiores clubes do Nordeste.

Nossa conversa foi simples, mas inesquecível.

Em determinado momento, fez questão de destacar o incentivo e o apoio que recebera do então prefeito Antônio Mariano, reconhecendo que aquele gesto havia sido importante para que pudesse seguir acreditando no sonho de se tornar jogador profissional.

Confesso que essa demonstração de gratidão jamais saiu da minha memória.

Às vezes, imaginamos que o maior legado de um atleta está nos títulos conquistados, nos gols marcados ou nas medalhas recebidas. Claro que tudo isso tem seu valor. Mas existem legados ainda maiores: a humildade de reconhecer as próprias origens, a gratidão por aqueles que abriram portas e a consciência de que ninguém chega sozinho ao sucesso.

Filho de Zé Pretinho, Deinha nasceu em Afogados da Ingazeira no dia 2 de novembro de 1959. Como tantos jovens sertanejos, alimentava um sonho aparentemente distante: vencer na vida por meio do futebol. Seu talento e sua força física chamaram a atenção do Santa Cruz, onde se destacou nas categorias de base até conquistar espaço na equipe principal.
O momento mais marcante de sua carreira aconteceu no dia 31 de janeiro de 1979, durante o Campeonato Sul-Americano Sub-20, em Montevidéu. Vestindo a camisa da Seleção Brasileira, recebeu uma missão que poucos jogadores tiveram o privilégio de cumprir: realizar uma marcação individual sobre um jovem argentino chamado Diego Armando Maradona.

Naquele momento, Maradona ainda era apenas uma grande promessa. O mundo sequer imaginava que aquele garoto se transformaria em um dos maiores jogadores da história do futebol.

A Argentina venceu a partida por 1 a 0. O resultado ficou para as estatísticas. Mas a história registrou algo muito maior: um filho de Afogados da Ingazeira foi o primeiro brasileiro encarregado de marcar individualmente aquele que anos depois encantaria o mundo inteiro.

Infelizmente, como aconteceu com tantos atletas brasileiros, a vida fora dos gramados apresentou desafios mais difíceis do que qualquer adversário. Problemas com o alcoolismo interromperam precocemente sua carreira e, em 2005, aos apenas 46 anos, uma leucemia encerrou sua caminhada.

Mas não é essa a imagem que desejo preservar.

Prefiro recordar aquele jovem humilde que conheci no Arruda. O rapaz simples, educado, orgulhoso de representar sua terra e profundamente agradecido por quem lhe havia estendido a mão quando tudo ainda era apenas um sonho.

Também faço questão de registrar minha admiração pelo trabalho de Ademar Rafael. Pessoas como ele cumprem uma missão que muitas vezes passa despercebida: preservar a história daqueles que ajudaram a construir a identidade do nosso Sertão. Se hoje pude reviver essa lembrança, foi porque alguém decidiu pesquisar, escrever e compartilhar essa trajetória.

Penso que histórias como a de Deinha deveriam ser contadas nas escolas, nos clubes e nas rodas de conversa. As novas gerações precisam compreender que o sucesso não nasce por acaso. Ele é construído com talento, disciplina, sacrifício e, quase sempre, com o apoio de pessoas que acreditam quando poucos acreditam.

Enquanto houver quem conte essas histórias, Deinha continuará vivo na memória de Afogados da Ingazeira. Não apenas como o volante que marcou Maradona, nem somente como o jogador que brilhou com a camisa do Santa Cruz.

Será lembrado, sobretudo, como um filho do Sertão que honrou suas raízes, levou o nome de sua terra aos gramados internacionais e nunca deixou de reconhecer aqueles que o ajudaram a transformar um sonho de menino em realidade.

São esses legados que verdadeiramente merecem permanecer registrados. Afinal, os grandes jogadores conquistam títulos; os grandes homens conquistam a eternidade na memória daqueles que aprenderam a admirar não apenas o atleta, mas também o ser humano.

Penso que esta é uma daquelas histórias que não pertencem apenas ao futebol. Ela pertence à memória de Afogados da Ingazeira e do Sertão pernambucano. Ao registrar lembranças como essa, preservamos não apenas a trajetória de um ex-jogador, mas também os valores da humildade, da gratidão e do reconhecimento que marcaram sua vida e continuam inspirando as gerações que virão.

*Professor universitário aposentado e memorialista!

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