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Entre a intenção e a execução: reflexões sobre o Pátio da Feira

Por Rinaldo Remígio*

Recentemente, estive em Afogados da Ingazeira, cidade pela qual tenho grande apreço e respeito por sua história e por seu povo. Em uma visita à antiga estação ferroviária, deparei-me com a estrutura do chamado Pátio da Feira. Confesso que a primeira impressão foi de estranhamento: um galpão sem vedação lateral adequada, com cobertura baixa e pouca funcionalidade aparente, utilizado basicamente como abrigo para alguns veículos.

Naquele momento, fiz a mim mesmo uma pergunta simples, mas necessária: qual foi, de fato, a concepção técnica e funcional daquele espaço?

Movido por essa inquietação, busquei ouvir amigos da cidade e compreender melhor o contexto. Não se trata aqui de promover qualquer tipo de exposição ou polêmica — até porque não é esse o propósito. Não sou agente político, nem movido por interesses dessa natureza. O que se busca, de forma serena e responsável, é algo muito mais essencial: que o recurso público seja aplicado com eficiência, planejamento e respeito ao cidadão.

As informações que vieram a público, inclusive em debates locais, indicam que houve reconhecimento de falhas no projeto original — como problemas de drenagem, ausência de infraestrutura básica e necessidade de ajustes estruturais. Isso, por si só, já merece reflexão.

Obras públicas não podem ser tratadas como experimentos. Cada projeto precisa nascer tecnicamente consistente, com estudos prévios adequados e visão de longo prazo. Quando isso não ocorre, o custo não é apenas financeiro — é também institucional, pois afeta a confiança da população.

Nesse contexto, cabe uma ponderação importante: no serviço público existe a figura do fiscal de contratos, responsável por acompanhar a execução das obras, verificar conformidade com o projeto e atestar medições. Diante disso, surge uma indagação legítima: houve a devida designação formal desse fiscal? E, mais ainda, onde esteve a fiscalização ao longo da execução?

Não se trata de acusar, mas de questionar com responsabilidade. A boa governança exige não apenas planejamento, mas também acompanhamento rigoroso e permanente. Falhas dessa natureza não podem ser atribuídas ao acaso — elas precisam ser compreendidas, apuradas e, se for o caso, corrigidas com transparência.

O cidadão não pode — e não deve — pagar pela ausência ou fragilidade da gestão. Cada recurso investido é fruto do esforço coletivo da sociedade, e sua aplicação deve refletir compromisso, zelo e responsabilidade.

A população, de modo geral, não exige perfeição — mas espera coerência, clareza e respeito com aquilo que foi anunciado e iniciado.

Que esse episódio sirva, acima de tudo, como aprendizado. Que futuras intervenções urbanas possam refletir mais planejamento e menos improviso. E que os espaços públicos cumpram, de fato, sua finalidade: servir às pessoas com dignidade, funcionalidade e respeito ao investimento coletivo.

Porque, ao final, não se trata apenas de uma obra — trata-se da confiança de uma comunidade inteira.

*Professor universitário aposentado, administrador, contador e mestre em economia!

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