Por Rinaldo Remígio*
Algumas pessoas não apenas passam pela história; permanecem nela. Dona Letícia de Campos Góes é uma dessas referências permanentes de Afogados da Ingazeira. Nascida em 9 de junho de 1903, no sítio Sobreira, filha do Coronel Luiz Alves de Góes e Mello e de dona Petronila de Siqueira Campos do Amaral Góes, dedicou 92 anos de vida à educação, à fé e ao serviço comunitário. Faleceu em 26 de janeiro de 1995, deixando um legado que atravessa gerações.
Conheci a professora Letícia nos dourados anos 1970. Não fui seu aluno, mas o respeito que seu nome inspirava era evidente. Bastava ouvir os relatos dos ex-alunos e observar o lugar que ocupava na vida da cidade para compreender que ali estava uma educadora por vocação, reconhecida pelo compromisso público com o ensino e a formação humana.
Sua base familiar foi marcada pela cultura e pelo apreço ao conhecimento. Realizou o curso primário em Afogados da Ingazeira, sempre destacando a influência da professora Dona Anna Mello. Teve formação sólida em português e francês com o irmão, o Dr. Oscar de Campos Góes, intelectual poliglota, cuja vivência cultural marcou profundamente sua trajetória. Desde jovem, revelou vocação para o magistério: aos 16 anos já lecionava aulas particulares, declamava poesias e mantinha intensa rotina de leitura, que incluía grandes cronistas e a Bíblia.
Concluiu o ensino secundário no Colégio das Damas da Instrução Cristã, no Recife, entre 1933 e 1934, com desempenho brilhante. Movida pela fé, ingressou na vida religiosa como noviça, período em que também lecionou francês. Por razões de saúde, deixou o convento e retornou a Afogados da Ingazeira, atendendo ao pedido do pai, já enfermo, permanecendo ao seu lado até o seu falecimento.
A partir desse retorno, dedicou mais de 30 anos à educação da juventude afogadense como professora municipal, tornando-se referência na formação feminina e cristã. Fundou, entre 1942 e 1943, ao lado do padre Olímpio Torres, a Escola Doméstica Nossa Senhora de Fátima, da qual foi diretora única, iniciativa pioneira voltada à formação integral das jovens.
Teve papel decisivo na acolhida das religiosas que assumiriam a Escola Normal Rural de Afogados da Ingazeira (ENRAI) e participou ativamente da organização do Primeiro Congresso Eucarístico Sertanejo (1946/1947), ao lado do monsenhor Luiz Madureira, reunindo o Sertão do Moxotó e do Pajeú em um grande momento de fé.
Atuou de forma destacada na Ação Católica, na catequese, na vida social e cultural da cidade e nas obras da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus dos Remédios, contribuindo para importantes melhorias em seu patrimônio. Sua atuação sempre esteve ligada ao crescimento educacional, social e espiritual de Afogados da Ingazeira.
Em fevereiro de 1992, um acidente vascular a levou ao leito, onde permaneceu até falecer serenamente em sua residência. Deixou como síntese de sua vida uma frase que traduz seu sentimento pela cidade:
“Se, por gratidão, meu nome ficar na história de Afogados da Ingazeira, representará muito, pois isso dará a impressão de que fiz algo de bom pela minha querida terra.”
Fez, sim. Fez muito. E permanece. Porque educadores como Dona Letícia Góes não se despedem — tornam-se parte viva da memória e da identidade de um povo.
*Professor universitário aposentado e memorialista!
Fontes de informações e foto: Fernando Pires




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