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Alfabetização em Afogados: menos euforia, mais responsabilidade

Foi amplamente divulgado pela gestão municipal de Afogados da Ingazeira que o município teria ultrapassado a meta de alfabetização estabelecida para 2024 no Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), atingindo 70,19% de crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do Ensino Fundamental.

É necessário separar propaganda de realidade. Ultrapassar uma meta mínima não é suficiente para encobrir os sérios problemas enfrentados pela educação municipal.

De acordo com dados oficiais do Inep, mesmo com esse crescimento percentual, Afogados ocupa apenas a 15ª colocação entre os 17 municípios do Sertão do Alto Pajeú em alfabetização infantil. O município está atrás de cidades com menos estrutura, recursos e redes escolares mais enxutas, como Solidão (93,99%), Carnaíba (92,5%) e Ingazeira (89,89%).

Esse desempenho revela a fragilidade de uma política educacional que não consegue corresponder à capacidade estrutural e orçamentária do município. É inadmissível que um dos municípios mais robustos da região figure entre os piores índices em um indicador tão essencial quanto a alfabetização na idade certa.

O cenário se agrava ainda mais diante da constatação de que, em 2024, mais de R$ 5,4 milhões foram repassados indevidamente ao IPSMAI (Instituto de Previdência Municipal) diretamente da conta do Fundeb, contrariando frontalmente a legislação que determina a destinação exclusiva desses recursos à educação básica pública. Este fato configura um grave desvio de finalidade, com impacto direto na estrutura escolar, na qualidade do ensino e, principalmente, na valorização dos profissionais da educação.

A ausência de políticas consistentes de formação continuada, a desvalorização sistemática dos professores contratados, submetidos a salários defasados e más condições de trabalho, impedem qualquer avanço educacional significativo. A aplicação indevida dos recursos do Fundeb compromete toda a rede de ensino. Os prejuízos recaem sobre quem mais precisa: as crianças.

Enquanto a gestão municipal promove comemorações por metas mínimas atingidas, outras cidades, com menos estrutura, vêm demonstrando que o verdadeiro avanço se dá com planejamento, responsabilidade e foco na qualidade. O que falta em Afogados da Ingazeira não é recurso financeiro, é prioridade, comprometimento e gestão eficaz.

O povo afogadense precisa de menos marketing institucional e mais ações concretas em defesa da educação pública. O futuro das nossas crianças começa com respeito aos profissionais, transparência na gestão e aplicação correta dos recursos públicos não de peças publicitárias desconectadas da realidade escolar.

Edson Henrique
Advogado e Ex-Vereador de Afogados da Ingazeira

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