*Por Rinaldo Remígio
Nas veredas do Pajeú, onde a poesia parece brotar do chão rachado e do vento que sopra entre as serras, viveu Quincas Rafael — homem simples no viver, gigante na arte de transformar a vida em versos e histórias. Nascido em Afogados da Ingazeira, levou consigo desde cedo a herança da palavra, talvez herdada de ancestrais como o lendário Quincas Flor, seu avô materno.
Do Sítio Quixaba à Casa Amarela, de Iguaraci à histórica Casa de Pedra em Jabitacá, sua trajetória foi marcada por mudanças, mas sempre com um mesmo endereço de alma: a poesia. Onde quer que estivesse, carregava o dom de criar mundos com as palavras e de eternizar pessoas com os apelidos certeiros, desses que colam como tatuagem e atravessam gerações.
Quincas não era só poeta — era cronista da vida sertaneja, guardião das memórias de sua gente. Nos livros “Afogados deu de tudo” e “Jabitacá Segundo Quincas”, deixou impressos o humor, a sensibilidade e a agudeza do olhar que só quem vive no interior sabe ter. Este último, que recebi de presente de seu filho Ademar Rafael, guarda em suas páginas uma dedicação afetuosa à esposa, filhos, genros, netos e bisnetos, mas também aos sertanejos que, dia após dia, transformaram a calçada da velha Casa de Pedra num verdadeiro teatro a céu aberto, onde a vida era o espetáculo e o povo, o elenco principal.
E é nesse livro que nos deparamos com a rica história de Jabitacá, vila que é quase um museu vivo, preservando as lembranças do passado e habitada pelos descendentes dos seus fundadores. Fundada em 1818, sua igreja começou a ser erguida naquele ano, e já em 1819 era considerada capela — um marco da fé e da resistência da comunidade.
Conta o livro que a construção da vila foi obra do fazendeiro Barbosa, que infelizmente faleceu em 1830 sem terminar sua obra e sem deixar filhos. Sua viúva, Dona Leonor, e João da Luz, foram os responsáveis por dar continuidade à história da vila, que, como uma árvore de muitos galhos, tem suas raízes profundas em figuras ilustres do sertão, como Padre Arruda, Padre Calestino, e o juiz poeta Manoel Rafael.
Jabitacá não é apenas um lugar pequeno no mapa — é um celeiro de vultos que engrandeceram o Nordeste e o Brasil. Seu povo, grande em espírito, guardou patrimônio valioso doado pelo Barbosa, onde vivem hoje cerca de 250 rendeiros. Entre seus feitos está o fato de nunca ter sido assaltada durante a época do cangaço, graças à hospitalidade e bravura dos habitantes que recebiam até os visitantes armados como pacatos forasteiros, exceto um, Severino de Maizinha, que foi prontamente enfrentado.
Outro ponto de orgulho para Jabitacá são os filhos e descendentes da vila que já ocuparam o cargo de prefeito, um total de nove líderes públicos, incluindo representantes em municípios vizinhos como Itapetim. Figuras como Paulino Rafael, João Alves dos Passos e Coronel Francisco Torres marcaram época, demonstrando o protagonismo político que brota daquele chão.
No capítulo final do livro, Quincas Rafael nos convida a uma verdadeira viagem pela vila, tão vívida que, mesmo sem conhecê-la, o leitor sente-se caminhando pelas suas ruas, ouvindo os sons e impregnando-se do cheiro do café e da história ali presente. Essa é a magia da narrativa do poeta — fazer do cotidiano um universo a ser explorado e sentido, com afeto e autenticidade.
Seus versos, como aquele escrito em 1997 para lembrar sua mãe, traduzem a profunda filosofia que o guiava:
“O céu não tem endereço / Só vai lá quem é chamado…”
Quincas Rafael partiu numa noite silenciosa de novembro de 1999, mas seu legado permanece. Nas palavras impressas, nas histórias contadas, nos apelidos que se tornaram nomes e nas memórias de quem o ouviu declamar sob a luz amarela do lampião, ele segue vivo.
O tempo pode apagar pegadas na areia, mas não apaga a marca de um poeta. Quincas Rafael atravessou o rio da vida deixando sementes que florescem em cada canto do sertão. Quem colhe essas sementes, colhe um pedaço da alma do Nordeste, eterna e profunda.
*Professor universitário e memorialista!
Fontes informativas: Poeta Ademar Rafael, Livro “Jabitacá Segundo Quincas”!