Falar sobre a própria morte não costuma estar entre os assuntos das conversas em família. Menos ainda imaginar como seria o momento de decidir o que fazer com os órgãos de alguém querido depois de sua partida. Para milhares de pessoas que aguardam por um transplante, no entanto, esse diálogo pode representar a possibilidade de estar vivo. É justamente para estimular essa conversa e combater dúvidas e tabus que o Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos, ganha força.
Em Pernambuco, 3.966 pessoas estão na lista de espera por um transplante. Desse total, 2.031 aguardam por um rim; 1.727 por uma córnea; 137 por um fígado; 36 por um coração; 21 por medula óssea; e 14 por rim/pâncreas. Os dados são do Sistema Nacional de Transplantes e dos registros da Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE).
“No dia 27 de setembro, celebramos o Dia Nacional da Doação de Órgãos. Em Pernambuco, mais de 3.900 pessoas aguardam por um órgão ou tecido que possa transformar suas vidas. São crianças, pais, mães e avós que esperam por uma oportunidade. E essa oportunidade depende, muitas vezes, da decisão de outra família. Por isso, falar sobre doação em vida é tão importante. Quando deixamos claro para nossa família que somos doadores, tornamos mais fácil uma decisão que poderá salvar vidas e devolver a esperança a quem está esperando. Converse com sua família e declare o seu desejo de doar”, enfatizou o coordenador do CT-PE, André Bezerra.
Ao mesmo tempo em que milhares esperam por um órgão, o Estado tem ampliado a realização de transplantes. De janeiro a julho de 2026, foram realizados 1.213 transplantes em Pernambuco, contra 1.126 no mesmo período de 2025, um crescimento de 7,7%. Entre os destaques está o transplante de córnea, que passou de 542 procedimentos nos primeiros sete meses de 2025 para 643 em 2026, um aumento de 18,6%.
Por trás desses números, existem histórias de pessoas que esperam meses ou anos por uma oportunidade. Há pacientes que precisam adaptar a rotina por causa da doença, famílias que acompanham tratamentos prolongados e pessoas que aguardam uma ligação capaz de mudar completamente suas vidas. Mas, antes de um órgão chegar a quem está na fila, existe um processo que começa em um momento de profunda dor: a perda de uma pessoa.
É nesse momento que uma equipe especializada e qualificada conversa com os familiares de um potencial doador. A abordagem busca acolher a família, explicar o processo, esclarecer dúvidas e apresentar a possibilidade da doação. No momento da perda a conversa tende a ser difícil. Por isso, verbalizar em vida aos parentes sobre o desejo de ser doador faz toda a diferença.
No Brasil, a autorização da família é indispensável para a doação de órgãos. Mesmo que uma pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doadora. Por isso, uma das principais mensagens do Setembro Verde é tão importante: não basta querer doar. É importante comunicar para a família.
Especialistas e profissionais que atuam na área reforçam que a melhor hora para falar sobre doação de órgãos é antes da perda. No cotidiano, a conversa pode surgir de maneira simples: durante um almoço, em uma conversa sobre saúde ou até mesmo ao comentar uma notícia sobre transplantes.
Dizer “eu quero ser doador” pode parecer uma frase trivial. Para quem está esperando, entretanto, significa muito. E Pernambuco conhece bem o impacto que uma decisão como essa pode provocar. Cada procedimento representa não apenas um número, mas uma pessoa que recebeu a oportunidade de retomar planos, reencontrar a rotina e continuar escrevendo a própria história.
Aos 41 anos, a técnica de enfermagem Suzany Paula convive com a insuficiência renal crônica há três anos e três meses e está há quase um ano e meio na fila de espera por um transplante de rim. “Há quase 18 meses, a minha vida ganhou uma nova forma de contar o tempo. Não meço mais os dias apenas pelas horas do relógio, mas pela esperança de um telefonema que pode mudar tudo. Estar na fila de espera por um órgão é viver em constante expectativa. É arrumar a mala da esperança todos os dias, torcendo por uma oportunidade de recomeço e de viver com mais plenitude ao lado de quem amo”, disse.
Para Suzany, falar sobre doação é falar sobre a possibilidade de continuidade da vida. “A doação de órgãos não é sobre o fim; é sobre a continuidade da vida. É o gesto mais nobre de amor ao próximo que existe. Eu sigo firme, com fé e aguardando a minha vez. Se você nunca conversou com sua família sobre isso, por favor, faça isso hoje. Avise que você quer ser um doador de órgãos. A sua decisão pode ser a resposta para a oração de alguém como eu”, afirmou a técnica de enfermagem.




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