A arara azul de Dona Vera.
Não posso dizer que sou um leitor assíduo da Folha de Pernambuco, mas, vez por outra, deparo-me com alguma matéria interessante, como aconteceu na quarta feira, 25/09, após saltar em uma parada de ônibus e adquirir um matutino que acabara de sair do forno.
Folheando o dito, voltei minha atenção para uma matéria assinada por Reinaldo de Oliveira, que tratava da arara azul de Dona Vera. Tendo visto a reportagem sobre o mesmo tema pelos canais de televisão no dia anterior, confesso que fiquei perplexo e com um forte sentimento de impotência diante das circunstâncias.
A matéria atentava para a falta de sensibilidade dos funcionários que são pagos para recolher os animais nas residências ou em feiras livres e, mesmo sabendo que estão condenando-os à morte, pouco se lixam para isto.
Como filho de agricultor e habitante da Zona Rural por um bom tempo, eu ficava embevecido escutando o cantar dos pássaros, logo ao amanhecer, e acredito que muitos já viveram a mesma emoção, pois quem não se encanta ouvindo um pintassilgo, um azulão, um bigode, um galo de campina ou um caboclinho? É claro que, soltos, eles cantavam bem mais afinados do que estando em uma gaiola, apesar de, na gaiola, poderem contar com comida, bebida, higiene, uma boa sombra e a proteção contra os predadores.
Mas em tudo existe uma explicação: amamos a liberdade, e com os animais não deve ser diferente. E se nada supera o preço da liberdade, haveremos de convir que se faz necessário um combate à prática criminosa da criação de aves em cativeiros, sofrendo maus tratos e sem uma criação adequada, que muitas vezes os leva a mortes prematuras. Concordamos que esses criadores devam ser punidos com os rigores da lei e que as penas sejam até inafiançáveis (dependendo da sua gravidade). Mas como a situação de Dona Vera é diferente, achamos que ela não merecia pena tão dura.
É bom lembrarmos que, recentemente, um papagaio foi preso na própria casa da dona que o criou por mais de 10 anos, companheiro de tudo dela, e não lhe foi devolvido. Seu caso estava sendo julgado pelas pessoas (in)competentes, mas ele morreu, nas dependências do Ibama. Belo exemplo. Agora foi a Arara azul de Dona Vera Lúcia de Jaboatão, que foi presa pelo “herói” da polícia que a viu em seus domínios e cometeu o ato supremo de sua prisão.
“Após a apreensão, Dona Vera Lúcia mostrou a almofada em que ela dormia, em seu quarto, o cabo de vassoura que ela mantinha ligando o berço da Arara à sua cama com a qual convivia e até dormia. Dona Vera Lúcia colocava o almoço dela, na própria mesa. Comiam juntas. Entendiam-se em suas linguagens, seus gestos, seus gritos. E Dona Vera Lúcia era uma mulher feliz”. Continua o autor … “não sei de detalhes da sua vida, se é casada, se tem filhos, mas sei que a Arara Billy, era o maior motivo da felicidade dela”.
Que coisa mais grotesca! É lícito privar alguém do direito de ser feliz com um animal de pena? É da Lei. Do Ibama. Imaginem o que Billy significava na vida de D. Vera Lúcia. Que lhe dava tudo de que a Arara gostava. Arroz, só branco. Semente de girassol, um rádio ligado para se distrair e uma ponte ligando sua almofada de dormir ao colchão dela.
Indignado com essa situação, perguntamos: como se concebe tamanha crueldade com uma pessoa por tratar uma ave com tanto carinho? Essas pessoas têm mãe? E sentimentos? Talvez nem uma coisa nem outra. Tudo é feito em nome da Lei. E em nome da Lei surgem outras perguntas: quem sabe a cor do arroz que estão dando a Arara? Qual a estação de rádio que ela está ouvindo? Quais os cuidados de higiene que lhe estão ofertando? Sabemos que ela não está tendo nada disso, mas, caso as respostas sejam positivas, ainda cabe a pergunta final: alguém será capaz de transmitir o mesmo amor de D. Vera para com a sua querida Billy?
O mais provável é que a arara azul siga o mesmo caminho do Papagaio que citamos acima e de tantas outras aves que pereceram por lá, afinal a única eficiência que conhecemos no IBAMA, é no quesito da “aplicação de multas”, e esse é mais um dos grandes absurdos que são praticados sob a égide da Justiça.
Por: Danizete Siqueira de Lima



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