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OPINIÃO DO PERNINHA

É tão difícil ficar sem você.
A MPB – Música Popular Brasileira – perde o talento e a generosidade do sanfoneiro Dominguinhos, aos 72 anos.
Desde dezembro de 2012, logo depois da homenagem a seu padrinho musical e mestre, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, de quem foi o legítimo herdeiro, que o toque delicado da sanfona de Dominguinhos emudeceu e, às 18h da última terça feira (23/07), em consequência de complicações infecciosas e cardíacas, morreu no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde estava internado desde 13 de janeiro. José Domingos de Moraes, o “Neném”, garanhuense querido e amado por todo o povo brasileiro, até pelos que não o conheciam. 
Um coração que só tinha amor e não aguentava ser maltratado como vinha, silenciou dentro do velho peito. Ele lutava contra um câncer de pulmão há seis anos. Ao longo da batalha pela vida, o estado de saúde se agravou, evoluindo para um quadro de insuficiência ventricular, arritmia e diabetes.
Dominguinhos entrou cedo em estúdio. Ainda era adolescente quando acompanhou Luiz Gonzaga na gravação de “Forró no escuro”, lançada em 1957 (uma das poucas músicas que Gonzaga assina sozinho). O primeiro LP ele só gravaria em 1964, a convite de Pedro Sertanejo, dono da Cantagalo, uma gravadora paulista que abrigou parte dos forrozeiros nos anos 60. 
Curiosamente, ele estreou com um álbum intitulado “Fim de festa”, quando, para ele, a festa estava só começando. Gravaria mais dois LPs pela Cantagalo, “Cheinho de molho”, e “13 de dezembro”, o título deste segundo, uma homenagem a Luiz Gonzaga (parceiro no instrumental com Zé Dantas). Na década de 60, voltou a tocar com Gonzaga, na época das vacas magras, auge da Jovem Guarda. Coincidiu o relacionamento dele com Anastácia. Os dois viajaram o Brasil com Gonzagão e a relação com a recifense virou parceria musical, que alavancaria a carreira do sanfoneiro, que até então se limitava a tocar o instrumento.
Anastácia conta que insistiu para ele gravar cantando, o que só fez em 1973 no álbum “Tudo azul” (Tropicana). Neste disco está um de seus clássicos, “Lamento sertanejo”, parceria com Gilberto Gil, a quem, no ano anterior, presenteara com o então maior sucesso da carreira do baiano: “Eu só quero um xodó”.
Depois de fazer outras músicas com ajuda da parceira, o artista foi tomando gosto pelas letras e, na década de 1970, referendado pelos baianos, Dominguinhos consolidou a carreira. Foi contratado pela gravadora dona do mais refinado elenco dos anos 70, a Phillips. Na década de 80, ingressou na RCA, onde estreou com um de seus discos mais bem-sucedidos: “Quem me levará sou eu”, com o qual ganhou o último festival da TV Tupi, em 1979 (parceria com Manduka), e o prêmio de um milhão de cruzeiros.
Ao longo dos anos, Dominguinhos gravou ao menos um disco por ano, e fez incontáveis participações em discos alheios. Sua generosidade é reconhecidamente imensa. Raramente recusava convites.
Os sucessos na carreira do artista são incontáveis e não encontraríamos espaço para enumerá-los, mas o que conta é que os brasileiros cantam de cor e salteado as suas melhores músicas, que fizeram história por esse imenso País. Dominguinhos consolidou-se como um dos grandes nomes da MPB, com a rara capacidade de ser querido pelo povão. O relacionamento com os seus pares também merece destaque. Afinal, poucos no Brasil ostentam no currículo parcerias com Chico Buarque. E, nestas, Dominguinhos sempre manteve uma saudável promiscuidade: Guadalupe, Nando Cordel, Fausto Nilo, Manduka, Abel Silva, Gilberto Gil. São alguns dos que assinam músicas com ele.
Dentre as suas frases com destaque na mídia, escolhemos esta, que reproduzimos abaixo, a qual mostra quanto profissionalismo por parte do cantor: “Colocaram um andamento mais rápido no forró tradicional e disseram que estavam fazendo o novo forró. Agora apareceu essa nova vertente em cima do forró pé de serra, para não deixar morrer o gênero. Quem for bom continua e os oportunistas ficam pelo caminho”.
A verdade é que o Brasil está de luto. O Nordeste e, principalmente, Pernambuco, choram a morte de um dos seus filhos mais queridos. O governador Eduardo Campos, decretou luto oficial de três dias. O prefeito de Garanhuns, Izaías Régis, anunciou o desejo de construir um monumento para o filho ilustre e de rebatizar a Esplanada Guadalajara como Esplanada Dominguinhos. E a MPB vai levar anos para encontrar um artista com o talento e a generosidade desse garanhuense  que, aos 72 anos de idade, abandona o palco da vida deixando todo o seu legado para as gerações que irão lhe suceder.


Por: Danizete Siqueira de Lima.


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