Bandido não é torcedor
A nossa crônica de hoje começa enviando um grande abraço a todos os tricolores do Arruda, pela conquista do tricampeonato no último domingo, na Ilha do Retiro, diante do Sport Clube, pelo placar de 2 x 0, quando precisava somente de um empate. Na vitória com a marca de Caça-Rato e Sandro Manuel autores dos gols e do goleiro Tiago Cardoso com suas defesas fantásticas, o tricolor foi melhor em campo frente ao Leão da Praça da Bandeira e fez jus ao título de campeão pernambucano 2013, a exemplo do que aconteceu em 2011 e 2012.
Como de praxe, a não ser em algum confronto amistoso que possa surgir, os três clubes considerados grandes só se enfrentarão daqui a um ano, no estadual de 2014, uma vez que disputam os campeonatos brasileiros em séries diferentes. Isso equivale a dizer que as brigas de torcidas cessarão por um bom tempo, embora esse assunto não possa e nem deva ser esquecido pela Federação Pernambucana, pela gloriosa Polícia Militar, pelas autoridades ligadas ao meio desportista e muito menos pela Sociedade Civil organizada, que é quem sofre as consequências.
Não podemos deixar que a estupidez humana aliada à impunidade tão tipicamente brasileira voltem a provocar barbárie onde deveria imperar a diversão. O acontecimento de 17.02 entre as torcidas do Náutico e Sport que, alguns imbecis costumam chamar de “torcidas organizadas”, e que quase levou a óbito o alvirrubro Lucas Lyra, de 19 anos, tem que servir de exemplo para um basta a tantos absurdos.
Aquele tiro dado covardemente em um jovem que saiu para vibrar pelo seu clube e há quase três meses segue sua heroica luta pela vida não pode ser esquecido facilmente. A sociedade não pode digerir isso passivamente. É preciso gritar. É preciso indignação. Não podemos deixar para reagir só quando o problema nos afetar diretamente. Algumas medidas foram tomadas, mas é muito pouco se levarmos em conta a gravidade dos confrontos; e tememos que, passado o campeonato, as coisas adormeçam.
Temos que tomar consciência de que “bandido não é torcedor”. Costumamos criticar a legislação penal brasileira, considerada branda demais para o nível de violência que assola as nossas cidades, mas é preciso que as leis existentes sejam cumpridas. E essa falta de vontade de fazer valer o que está escrito fica mais clara na relação das autoridades com as chamadas torcidas organizadas, que se transformam em verdadeiras gangues de norte a sul do país.
Os lamentáveis episódios que se registraram aqui em Recife são o reflexo de uma situação nacional. A polícia não encara da mesma forma os bandidos “de camisa” com a marginalidade em geral, mas deveria. Quem anda pela rua travestido de torcedor, assaltando pessoas que cruzam com esses bandos, merece ser tratado com o duro rigor da lei.
Não adianta proibir a “organizada” de frequentar estádios, se os bandidos continuam com seus movimentos liberados para ir perturbar a vida do cidadão de bem. Em dias de clássico, certas linhas de ônibus são evitadas porque o clima é de terror imposto por essa “privilegiada ala da bandidagem”. Normalmente, quando eles conseguem ser detidos, o máximo que acontece é irem para a delegacia, ficarem algum tempo e depois serem liberados para voltar a aterrorizar a população no próximo jogo. Só quando morre alguém é que as autoridades se mexem para prender os envolvidos. Fora disso, podem aterrorizar à vontade a população que só pretende exercer o direito de ir e vir no seu domingo de folga.
O mínimo que o torcedor pernambucano, da capital e do interior, espera é o apaziguar dos ânimos entre as torcidas. E uma melhor estratégia de segurança que garanta a tranquilidade antes, durante e após os jogos decisivos, para que a tensão dominante fique restrita ao desempenho dos atletas em campo.
Daqui a pouco a Arena Pernambuco será oficialmente aberta a competições, com a Copa das Confederações. Como anfitriões, temos que afastar os temores dos visitantes estrangeiros, que virão torcer por suas seleções, de que podem ser vítimas da violência que se tornou comum no futebol pernambucano; como seres humanos temos que dar o nosso exemplo de que somos “gente civilizada” e estamos aptos a sediar uma competição dessa ordem.
Tomara!
Por: Danizete Siqueira de Lima.



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